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Ela é uma das mulheres negras a cavar espaço como criadora de conteúdo para as redes sociais sobre temas como autocuidado; nas últimas semanas, foi uma das pessoas a denunciarem o racismo nos algoritmos

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Divulgação

Sá Ollebar é uma das mulheres negras a cavar espaço como criadora de conteúdo digital para as redes sociais. Ela não gosta de ser chamada de influencer, mas desde 2015 usa a internet para falar de suas vivências. O público pode acompanhar sua rotina de prática de yoga, autocuidado, autonomia materna, dentre outros temas que ela aborda.

Ao Alma Preta, Sá conta que sua história com as redes sociais começou depois de passar por uma cirurgia cesariana, na terceira gravidez. Na época, ela resolveu buscar mais informações sobre parto e maternidade. Foi quando surgiu o projeto Preta Pariu.

“Percebi que era tudo muito branco. Daí começou o Preta Pariu, abordando a maternidade e a questão racial. Eu apontava a realidade das mulheres negras. O pessoal começou a pedir para compartilhar e o conteúdo começou a ganhar mais espaço”, recorda.
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(Foto: Acervo Pessoal)

Formada em Recursos Humanos, Sá fez estágio, mas nunca exerceu a graduação como profissional. Ela atuou como modelo e foi assim que se manteve por muito tempo. “Mas, após a terceira cria foi difícil manter os 60kg nos 1,80m de altura. O corpo muda, as prioridades também”, frisa.

Ela diz que nunca foi muito antenada em assuntos de tecnologia e cita que só teve o primeiro celular depois de adulta. Foi na chegada a Ubatuba, litoral paulista, que veio a questão da internet. Sá chegou a manter uma loja em que comercializava fraldas de pano e slings artesanais (carregadores de pano de bebês).

“Depois que todos os filhos nasceram, eu não tinha como manter a Sara Baby. Foi quando pensei em ser só dona de casa mesmo. Mas comecei a falar de maternidade, as coisas foram crescendo e hoje vivo 100% do meu trabalho na internet”, descreve.

Mãe de quatro filhos, de 19, 14, 10 e 6 anos de idade, a jornada na criação de conteúdo começou voltada para maternidade e racismo. Mas ela precisou fazer um reposicionamento há cerca de três anos.

“Recebi ameaças. Pessoas me mandavam mensagem dizendo saber onde meus filhos estudavam. Adoeci, fiquei com depressão, tentei o suicídio e percebi que não tenho estrutura para ficar no front, falando de violências que sofremos”, relata.

A partir disso, Sá percebeu que teria dois caminhos: apagar todas a redes sociais ou ressignificar tudo o que fazia e começar a falar sobre autocuidado. “Não que eu não falei de outras questões, mas eu posso ajudar a amplificar as vozes de quem está na linha de frente”, pontua, afirmando que está na internet compartilhando erros e acertos. “Os lembretes de autocuidado é para que as pessoas, incluindo eu mesma, lembrem da importância disso”, pondera.

Agora, Sá se vê às vésperas de outra grande mudança e se prepara para uma nova jornada: vai se mudar para a Alemanha, país natal do esposo. “Queremos dar a oportunidade de as crianças vierem novas experiências. A sensação que temos agora é de dever cumprido aqui no Brasil e que estamos prontos para novas vivências”, compartilha.sa pint

(Foto: Reprodução/Instagram)

Algoritmos influenciados pelo racismo

Há algumas semanas, o nome de Sá Ollebar esteve entre os mais falados das redes sociais. Ela iniciou um experimento após perceber a crescente queda nos índices de alcance digital. Resolveu usar fotografias de mulheres brancas em seu perfil e se surpreendeu com o resultado. O alcance do post aumentou em 6000%.

Ela denunciou a situação e as críticas foram compartilhadas por outras pessoas negras, que obtiveram resultados semelhantes. “Eu não tinha noção de que iria gerar toda essa repercussão, até porque esse assunto não é novidade. As pessoas já vinham falando no Twitter há tempos. A intenção era de falar com o meu público, com quem fala comigo todos os dias. E eu sou daquelas que gosta bater papo com as pessoas no Direct. Muitas pessoas disseram que não recebiam meus conteúdos há muito tempo e passaram a receber”, afirma.

A reverberação dos posts levantou debate sobre racismo algorítmico, que privilegiaria imagens de pessoas brancas na distribuição dos posts. “Ainda recebi mensagens dizendo que era uma ótima estratégia, mas não foi isso o que aconteceu. Mantenho a criação em cima de autocuidado, mas não tinha ideia de essa tudo isso aconteceria”, finaliza.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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