Alunas da área de saúde pública têm entrada proibida por seguranças nas dependências do prédio da medicina; justificativas dos profissionais de controle não são aplicadas com graduandos brancos

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / JVech

Quase quatro anos separam os episódios de racismo dos quais as estudantes Mônica Mendes Gonçalves, mestra em saúde pública, e Marielle Silva*, graduanda na mesma área, foram vítimas na USP (Universidade de São Paulo).

Em ambos os casos, a dinâmica foi a mesma: prejudicar a entrada de ambas nas dependências da Faculdade de Medicina da instituição, como se a infração das duas fosse estar ali.

Em 2014, Mônica iria encontrar os amigos de seu curso que haviam se dirigido a uma área de convivência dentro do campus de medicina, o que era comum. No entanto, ao tentar ingressar no local, um segurança a impediu de entrar, mesmo após mostrar a carteirinha que comprovava ser aluna da instituição, com a justificativa de que o prédio seria evacuado dali a algum tempo. Esse fato seria desmentido tempos depois, após ela insistir em entrar e argumentar que não estava havendo evacuação do local.

“Entrei com ele, escoltada, mesmo tendo mostrado a carteirinha. Quando cheguei, falei para ele que como era possível ver, eu não estava mentindo. O lugar não estava sendo evacuado e não havia nenhum motivo para voltar, como havia sido combinado, e eu ficaria lá. Ele começou a se alterar, as pessoas perceberam e começaram a se aproximar.”, relata a jovem.

No caso de Marielle, foram três as manifestações com premissa racial, que ocorreram no primeiro quadrimestre de 2018. Da primeira vez, ela teve de explicar para duas pessoas o porquê de estar ali, a ponto de mostrar a carteirinha da instituição - no caso, uma das pessoas era negra e a liberou sem mais entraves além dos previamente colocados para ela.

A segunda vez em que isso ocorreu com Marielle envolveu o mesmo segurança que a havia barrado anteriormente e com outra pessoa, que sequer pediu para ela mostrar o documento da universidade e a obrigou a fazer trajeto muito maior do que o pretendido. Poucos minutos após esse fato, a jovem encontrou uma colega de classe, que havia passado sem problema nenhum pelo local onde Marielle havia sido proibida de prosseguir. “Espantada com a minha situação, ela me diz que nunca passou por isso e completou [ao dizer] que a segurança deve imaginar que ela é médica.” Detalhe: a colega era branca.

No entanto, essa não seria a última vez pela qual Marielle passaria pelo constrangimento racial. Foi quando ela entrou na instituição com Mônica para fazer denúncia formal no departamento de segurança. “Nessas três situações eu perdi tempo considerável da aula. Na terceira, eu passei de mais de 40 minutos resolvendo essas questões, sem contar a minha dificuldade de prestar atenção na aula depois disso e o estado da minha saúde emocional e mental”, relata a jovem.

Processo kafkiano ou processo racista?

Após ter sido alvo de atitude racista em 2014, Mônica entrou com processo em virtude desse episódio, que continua tramitando em âmbito judicial - em resumo: nada aconteceu. De acordo com ela, houve tentativas de conciliação enquanto a demanda transcorria. No entanto, relata a jovem, o processo teve contornos desrespeitosos - ou inacreditáveis, no caso - a ponto de ela ter desistido da medida conciliatória, pois todas as propostas feitas pela jovem foram rechaçadas pela instituição. Para completar, esse trâmite era sigiloso e ela não poderia falar sobre em público.

“Eles levaram documentos falsos, mas consegui identificar que a procedência do documento não poderia ser verdadeira. Por isso, eles os recolheram e disseram que aquilo nunca havia existido. Fiquei em uma situação de desamparo extremo. Eles falaram com todas as letras: ‘esqueça este documento e isso nunca existiu’”, conta a hoje mestra em saúde pública. Para completar, antes desse episódio, houve um fato que beira a surrealidade.

“Eles achavam que era uma grande piada, pois não levaram advogado, os diretores de unidade, mesmo convocados, não foram. Nomearam até uma pessoa em 30 dias para dizer que era advogada da universidade, sendo que não era e não tinha vínculo com a instituição”, conta Mônica, sobre a postura da universidade.

“Foi feita toda uma manobra para tentar camuflar. Acho que eles estão, até hoje, fazendo isso e esperando que esse processo caduque até não haver mais possibilidades de recorrer.”

Apoio ou medidas paliativas?

Após os episódios de racismo ocorridos na instituição, Mônica descreve que as medidas tomadas não tiveram premissa comportamental, mas paliativas. “O espaço dos estudantes de medicina para interação não existe mais, não pode haver mais festas. Isso tem a ver com outros fatores, por causa dos episódios de violência e das denúncias. Em vez de promover mudanças institucionais e criar outras culturas, foram colocadas catracas, entrada de pessoas é impedida e não pode haver mais circulação de gente.”

Já Marielle vai na mesma linha da aluna que havia passado por situação análoga à sua. “O homem que me atendeu, deveria ser chefe do departamento, se desculpou em nome dos seguranças, disse que isso não voltaria a acontecer e que mudarão a forma de controle de modo que todos tenham que se identificar, já que deixei claro que a identificação na portaria estava sendo selecionada.”

Apesar da postura imediata ao ocorrido, houve mudanças? Marielle responde. “Disseram que algo seria feito e entraram em contato comigo ou que eu poderia ir lá. Nada aconteceu após isso.”

Efeito-borboleta

Algumas consequências do episódio dizem respeito ao fortalecimento do movimento negro no campus. “O que aconteceu comigo naquele momento e o modo como o enfrentamento aconteceu, com a ajuda de muita gente importante para mim e para essas instituições, foi o surgimento de coletivos e de pautas organizadas. A gente começou agora, na Saúde Pública, um movimento institucional para debater raça no currículo e nas grade curricular”, ressalta Mônica, sobre a necessidade de articulação para haver autonomia e para pressionar mudanças por lá.

O relato de Marielle pode ser interpretado como consequência da mudança iniciada anos atrás. De acordo com a jovem, o núcleo de consciência negra foi solidário com ela e a orientou a relatar o episódio nas redes sociais, para reverberar a denúncia.

“Falaram sobre reunir outras pessoas e fazer uma manifestação em frente ao local, mas não me identifiquei com a ideia, pois me sentiria muito exposta. Outra opção seria abertura de um processo, do qual também não achei viável. Dessa forma, acredito que fiz o que estava ao meu alcance e me sinto satisfeita por ter feito a denúncia”, completa a estudante, ao falar que trancou a matrícula por motivos pessoais.

“Tranquei essa disciplina, já que eu passava por todo esse esforço para chegar na sala, para ouvir barbaridades do professor, coisas por muitas vezes machistas e racistas - além de explicar o conteúdo de formas simplórias e muitas vezes só passar o slide. Priorizei minha saúde mental.”

O outro lado

Após contatos com a assessoria de comunicação da USP iniciados em 2 de maio, a reportagem do Alma Preta não obteve retorno a respeito dos episódios ocorridos com Mônica e Marielle até a publicação desta reportagem.

*Nome fictício escolhido para preservar a identidade da vítima

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