Algumas das descrições feitas geraram revoltas nas redes sociais, como “Só [curte] página trash”, entre outras. Mapeamento busca descobrir quais alunos podem ser aproximados ao grupo, um dos coletivos a compor o Centro Acadêmico (CA) da faculdade de direito da USP

Texto / Pedro Borges
Imagem / Marcos Santos/USP

Alunos e ativistas negros se incomodaram com o vazamento de um documento de autoria do Coletivo Contraponto, um dos grupos a compor a chapa eleita do Centro Acadêmico XI de Agosto, do curso de direito da USP, no Largo São Francisco. Um mapeamento com as tendências políticas de todos os ingressantes no curso se refere, em especial, a estudantes cotistas como sujeitos despolitizados.

“O Movimento Estudantil é composto majoritariamente por brancos de classe média e a tabela referente aos cotistas é a que mais tem referencias a sujeitos despolitizados, sem conteúdo”, afirma Gabriel Prado, estudante de direito e integrante do coletivo negro da faculdade, Quilombo Oxê.

Alguns estudantes foram descritos da seguinte maneira: “Curte futebol europeu kk só isso”, “Felipe Neto e outras páginas trash”, “Só página trash”, “Boleiro nato”, “Velhão. Progressista”.

A planilha, que traça um perfil político e pessoal dos alunos, tem informações como o nome e a cidade de origem, e um mapa de páginas curtidas no Facebook, o que permite ao Centro Acadêmico conhecer a visão política de cada ingressante e assim saber de quais alunos pode se aproximar.

O mapeamento político é uma prática comum entre os diferentes grupos que disputam o Centro Acadêmico (CA) da faculdade. Gabriel, porém, acredita que os comentários feitos sobre os interesses dos alunos no Facebook e mesmo a dinâmica da tabela demonstram a visão do coletivo Contraponto, uma das organizações à frente do CA da Faculdade de Direito da USP, sobre os calouros cotistas.

“Só o fato da tabela estar separada entre SISU e Fuvest mostra um recorte ideológico do coletivo”.

Alunos USP Corpo Divulgação

Imagem da tabela montada com o perfil dos alunos (Imagem: Acervo pessoal/Pedro Borges)

Gabriel acredita que esse é o modo de construir política de algumas organizações do movimento estudantil, que deixam de considerar as singularidades dos estudantes cotistas, marcados por diferentes experiências e trajetórias.

Outro lado

O Coletivo Contraponto, atuante na universidade desde 2013, diz que o grupo acredita na ação política como ferramenta necessária para a mudança da sociedade e que busca, para isso, dialogar com os estudantes.

“Fazemos o mapeamento para conseguir discutir nosso projeto de acordo com o interesse de cada um, que se engajem na militância e no movimento estudantil, para que possamos trazer mais gente para lutar pelas causas que acreditamos fundamentais”, contam.

Entender o perfil político dos alunos, a partir das páginas que seguem no Facebook, facilita o diálogo do Coletivo Contraponto com os calouros, de acordo com os integrantes do grupo.

A proposta, contudo, não justifica os comentários depreciativos feitos sobre os estudantes cotistas, como afirma o coletivo Contraponto.

“Isso resultou na inserção de alguns comentários despolitizados e de cunho jocoso e depreciativo, dos quais ficamos envergonhados, arrependidos e profundamente desconfortáveis. Nos retratamos e pedimos as mais sinceras desculpas a todos e todas que se sentiram ofendidos”.

Os estudantes também se colocaram a disposição para a construção de diálogo e condenam as atitudes tomadas por integrantes do coletivo.

“Os comentários despolitizados feitos pelo coletivo são de extrema gravidade por reforçar estereótipos e preconceitos, sendo uma postura inaceitável para um grupo político que se propõe a construir um programa de esquerda, pautando sempre o combate à desigualdade e às opressões. Por isso, nos comprometemos a não repetir tal postura. Estamos abertos à discussões sobre o tema”.

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