João Gilberto Lima comenta sobre a reação de estudantes e funcionários da instituição, motivações do autor da publicação racista e quais consequências o episódio poderá ter

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Fotos / Arquivo pessoal

Em seis de março, João Gilberto Lima, 25, estudante do 2º semestre do curso de administração pública na FGV (Fundação Getúlio Vargas), foi comunicado de que havia sido vítima de publicação racista em um grupo no aplicativo de mensagens WhatsApp na qual o autor fez o comentário “Achei esse escravo no fumódromo! Quem for o dono avisa!” Se o autor achou que ele sairia impune desse ato de racista, ele achou completamente errado.

Dias depois, após o post ter se tornado um viral, João Gilberto registrou boletim de ocorrência por injúria racial no 4º DP da Consolação. Já no dia 12, o Coletivo Negro 20 de Novembro, atuante na FGV, organizou protesto para pedir a expulsão do estudante – ele foi suspenso por três meses pela comissão de ética e conduta da instituição.

Em entrevista ao Alma Preta na qual comenta sobre o episódio, João Gilberto falou sobre diversos aspectos relacionados ao ato do qual foi vítima, à denúncia feita por ele, ao convívio entre ele, alunos e funcionários da instituição, assim como sobre os possíveis desdobramentos do caso.

 

Raiz do problema

De acordo com João, é possível dizer que a raiz de atos, como o sofrido por ele, é social, pois parcela da população não consegue ver pessoas negras em condições de igualdade com pessoas brancas.

“Elas ainda estão acostumadas a verem negros nos estratos mais baixos e, para elas, o negro ou é empregado, segurança, ou está fazendo algum tipo de serviço. [Isso abrange] ainda mais a FGV, que é uma universidade particular e bem cara”, descreve o jovem, ao comentar que vem recebendo apoio de alunos e profissionais da instituição, na qual chegou a estudar administração de empresas antes de ingressar em um novo curso. “Muitos funcionários vieram falar comigo e me apoiar para levar adiante a decisão de denunciar. Há poucos estudantes negros na FGV, mas há muitos funcionários negros e negras.”

 

Crime e castigo

Se por um lado o jovem que fez a publicação é reflexo de contexto no qual há muitas outras pessoas com comportamento semelhante ao dele e que reproduzem racismo indiscriminadamente, por outro ele é culpado e deve arcar com os seus atos. Até a publicação desta reportagem, ele havia sido suspenso por três meses na instituição e denunciado por João Gilberto no Decraci (Delegacia de Crimes Raciais), que está responsável pela investigação do caso.

Além disso, o processo de expulsão dele da universidade será julgado pela congregação da universidade, cuja reunião foi antecipada para 18 de abril. Tradicionalmente, a reunião desta congregação ocorre no fim de cada semestre, mas acontecerá antes face à gravidade do episódio – o conselho de ética e conduta não tem poder para expulsar alunos que ferem o regimento interno da instituição, como foi o caso.

A impunidade foi outro fator que levou João a fazer o boletim de ocorrência, que relatou sobre o autor saber que João tinha conhecimento sobre a foto, mas mesmo assim não o procurou para falar a respeito. "Para mim, ele fez isso com certeza de que escaparia impune. Ele poderia ter dito isso para algum amigo ao lado, mas preferiu tirar uma foto minha e publicar em um grupo do WhatsApp, pois se sentiu confortável para isso. Ele achou que, provavelmente, nada escaparia daquele grupo. Mas a FGV recebeu o print daquela mensagem por meio de denúncia anônima."

No entanto, a condução do caso causou problemas à imagem da FGV. Logo de cara, a instituição usou a expressão “possível conotação racista da ofensa” na nota divulgada para justificar o afastamento do aluno. Além disso, a aparente cautela usada na condução do caso causou má impressão em virtude do crime de injúria racial cometido.

 

Além dos muros da universidade

O caso ocorrido na FGV causou comoção e perplexidade, mas é importante lembrar que a instituição está inserida em contexto social marcado pelo racismo. Por exemplo, volta e meia é possível ver alguém relativizando manifestações racistas, como se fosse uma mera brincadeira e, por isso, manifestações desse tipo não são tratadas com a mesma seriedade de um roubo ou furto, por exemplo.

Além disso, um aspecto que ficou evidente na repercussão da morte de Marielle Franco, vereadora do PSOL no Rio de Janeiro executada no dia 14, foi a tentativa de minimizar a tragédia, por meio do uso indiscriminado de fake News para tentar culpá-la pela própria morte. De acordo com João Gilberto, se parte disso pode ser atribuído à negação da existência do racismo em detrimento ao questionamento sobre o racismo institucional, o discurso de ódio foi outro fator.

“No caso dela, especificamente, eu penso que vivemos um momento ódio e de polarização muito grandes. As pessoas não conseguem separar as coisas e, por mais que alguém possa discordar totalmente do discurso dela, é inaceitável o que aconteceu. Acho que as pessoas tendem a focar em nas superficialidades e não ir tão a fundo”, completa João, sobre como o racismo vai muito além dos muros da universidade e de publicações nas redes sociais.

 

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