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Estereótipo sobre força física e psicológica, construído historicamente, sequestra a humanidade, fragilidade e subjetividade, impactando na saúde mental de diferentes mulheres negras

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Ezekixl/Nappy

Estereótipo é o conceito ou imagem preconcebida, padronizada e generalizada estabelecida pelo senso comum a respeito de vários grupos. Essa imagem não só limita, como define e até desumaniza as pessoas que compõem esses grupos. Vários estereótipos recaem sobre as mulheres negras - o de que ela é forte é especialmente sensível ainda mais neste momento de pandemia da Covid-19, o novo coronavírus.

A historiadora Roberta Tavares explica que esse estereótipo tem ligações com a experiência traumática da escravidão nas Américas, que ao mesmo tempo em que criou um ideal de feminilidade para as mulheres brancas, excluiu as negras. “Até mesmo a feminilidade atribuída à mulher negra é estereotipada, deturpada, de estigma e que está ligada à sexualização. As mulheres negras não tiveram direito, e nem o privilégio, de se colocar nesse lugar de fragilidade porque sempre estiveram ocupando um lugar que não cabe a fragilidade que é tida às mulheres brancas”, comenta.

O “ser mulher” criado foi o de estar dentro do lar, ser frágil e não desenvolver certos trabalhos que são atribuídos aos homens, por serem pesados e braçais, como os da lavoura. Roberta fala que esse estereótipo não cabe às mulheres negras das Américas, que não estão nesse lugar de “ser mulher”, não dependem de uma figura masculina que as sustentem e estão desenvolvendo trabalhos manuais e pesados ao lado dos homens.

A imagem preconcebida que se tem sobre as mulheres negras faz parte de um processo de continuidade histórica e que se perpetua até hoje. “Mesmo no pós-abolição, as negras não estão no regime de escravidão, mas vão continuar a desempenhar vários papéis no mundo do trabalho. Trabalhando para sustentar filho e família. Quando se coloca o papel de ser forte, é algo desumano porque muitas vezes é falta de escolha, de ser obrigada a trabalhar e desempenhar vários papéis no mundo do trabalho”, fundamenta a historiadora.

Ela afirma que todas as mulheres negras passam por esse estereótipo e que esse processo precisa ser rompido. “Isso tudo é muito violento porque é como se as negras fossem sempre obrigadas a se mostrarem forte em qualquer situação, inclusive nas de violência, que nos tira o direito de ter sensibilidade, de chorar, de pedir socorro. É algo que nos retira de dois lugares: o de mulher e o de humana”, pontua Roberta.

‘É desgastante carregar esse peso’

Quebrar esse e outros estereótipos que envolvem grupos que foram vulnerabilizados historicamente é algo que a comunicação pode ajudar a fazer, segundo a relações públicas Gabriela Moura. Ela destaca que a comunicação pode, respeitando os limites, atuar como uma educadora social porque as pessoas consomem o que é produzido.

Um exemplo disso foi que ao atender um cliente para uma campanha do Dia dos Pais, a relações públicas sugeriu que o elenco fosse 100% negro. As imagens mostram um pai que é muito afetuoso com a filha, é gentil e ajuda pessoas nas ruas. “Isso tudo foi pensado para desfazer o estereotipo de agressividade que recai sobre o homem negro. Que as pessoas negras que ele ajudou também precisam de carinho, que são merecedoras de um afago e perpetuadoras de carinho”, conta.

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Performance na Macha das Mulheres Negras de Belém (PA), em 2019. (Foto: Tamara Mesquita)

Gabriela acrescenta que os grupos vulneráveis - não só as mulheres negras - são tidos como fortes, muito por conta da sobrevivência, isto é, são pessoas que sobrevivem, apesar das dificuldades que são impostas. Mas para as mulheres negras existem algumas camadas a mais. “Eu sempre tive que me dividir entre tarefas. As pessoas olham de longe e veem: ‘a Gabriela é uma mulher negra, foi cotista na universidade, filha de empregada doméstica, teve que ouvir muita abobrinha racista e apesar disso está sobrevivendo, está entre nós’.”, lembra. 

“O que essas pessoas não percebem é a absoluta e completa devastação mental que isso causa na gente. Porque carregar todo esse peso é extremamente desgastante. A gente não quer ser vista só como forte, a gente quer ajuda, apoio para que esse super trabalho não seja mais tão necessário. Este é um dos estereótipos que tiram a nossa humanidade”, complementa a relações públicas.

Para ela, reivindicar ser vista para além da força, não implica reduzir a pauta e se colocar em um lugar de fragilidade ou de fraqueza. “A questão da força eu já sei. Já sei que sou forte, nossas mães sabem que são fortes. Então, não precisamos ser colocadas nesse lugar porque isso faz também que as pessoas muitas vezes não se aproximem de nós. Olham e falam: ela é forte, ela aguenta isso tudo. Parte do princípio que eu aguento tudo, que eu não choro, eu não sangro, que eu não sou tão humana”, desabafa.

‘O afeto é revolucionário. Ele salva, cura, muda e transforma’

A cobrança de ser forte e aguentar tudo tem consequências não só na saúde física, como mental de mulheres negras e tratar desse tema ganha um especial reforço neste mês, quando é realizada a campanha “Setembro Amarelo”, voltada à saúde mental. Especialistas consideram que é necessário os profissionais de saúde contextualizarem as estratégias conforme as vivências de pessoas negras, mulheres negras, quilombolas, entre outros grupos minorizados.

“As nossas dores são invisibilizadas. É como se o nosso sofrimento psíquico não fosse digno de cuidado. Isso permeia a estrutura da sociedade, inclusive nas práticas em saúde, que são pensadas de uma forma que nos negligenciam, que não contextualizam todos os marcadores da sociedade que nos atravessam”, destaca a psicóloga Samilly Valadares.

A profissional pontua que a promoção à saúde das mulheres negras deve pensar estratégias que rompam, de fato, com essa estrutura montada de negligência, de invisibilização e violações da saúde, dos sofrimentos e de negação do adoecimento. “A partir do momento em que se compreende que há essa estrutura, pode-se combater tudo isso e a Psicologia tem um papel fundamental, respeitando as multiplicidades de subjetividades. É responsabilidade social ter uma prática emancipatória contextualizada”, diz Samilly, que também é quilombola e revela pensar suas práticas a partir de perspectivas coletivas.

De acordo com Samilly, o “Setembro Amarelo” é uma campanha que mobiliza muitas pessoas, em que as atenções se voltam para a saúde mental e sofrimento psíquico, mas que antes de tudo é importante sempre ter em mente de que se trata de pessoas e que o afeto também deve ser pensado. “O ser forte não nos define e não nos limita. Ele até abre possibilidade para o contato com a nossa ancestralidade. Nós mulheres negras, nós quilombolas, somos afeto, sabedoria, sensibilidade e cuidado também. Não só com os outros, mas conosco. E o afeto é revolucionário. Ele salva, cura, muda, transforma”, pondera.

Como mulher negra e psicóloga, Samilly conta que sempre foi colocada nesse lugar de escuta e de cuidado com os outros. Por muito tempo, ela foi levada a acreditar que precisava ocupar esse espaço. Essa postura afetou inclusive os relacionamentos pessoais. “Hoje, a minha postura é de um enfrentamento mais leve, eu preciso cuidar mais de mim, preciso dar mais atenção para mim e preciso me escutar mais. Os espaços de troca e de afeto têm possibilitado isso. Esse reencontro com as nossas próprias demandas e quebra de estereótipos. Assim como a gente se encontra nas dores, também no afeto, nos cuidando, nos aquilombando e para lembrar que a gente não pode se esquecer da gente”, finaliza.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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