A antropóloga Barbara Cruz retrata o apagamento da história do continente africano com o incêndio do Museu Nacional 

Texto/Aline Bernardes
Imagem/GoogleStreet

Por volta das 19h30 deste domingo (2) foi possível enxergar um incêndio de grandes proporções que destruiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio.

O fogo foi controlado no fim da madrugada dessa segunda-feira (3). Mas algumas chamas permaneceram a queimar um acervo de 20 milhões de peças recolhidas no primeiro momento pela família real que teve no prédio incendiado sua residência oficial. A dimensão da catástrofe é incalculável. Além de atingir a área cientifica, afeta a memória nacional e apaga, mais uma vez, a história do povo africano. O Museu Nacional contava, por exemplo, com a Exposição Kumbukumbu – África, Memória e Patrimônio.

O trono de um rei Daomé, dado de presente em 1810 a D. João, e objetos ritualísticos confiscados pela polícia na época em que as práticas do candomblé eram proibidas no Rio de Janeiro, integram a exposição permanente que apresenta também 185 objetos trazidos de diferentes lugares do continente africano, entre 1810 e 1940.

“A presença de africanos e de seus descendentes no Brasil está marcada pela violência da escravidão e do pós-abolição. Casas de dar fortuna ou candomblé eram invadidas no Rio de Janeiro e tinham seus objetos rituais confiscados e levados à delegacia. Sabendo da existência desses objetos no deposto da policia, o então diretor do Museu, Ladislau Neto, pediu para que os enviasse para estudo. Desde então o a instituição preserva uma variada coleção de objetos dessa última geração de africanos e de seus descendentes diretos”, diz o site do Museu.

Barbara Cruz, 30 anos, doutoranda em antropologia social pelo PPGAS-Museu Nacional/UFRJ e integrante do Coletivo Negro Marlene Cunha, concedeu uma entrevista para o Alma Preta e relatou como era a rotina do Museu. “Os acervos eram visitados diariamente por escolas públicas, era o primeiro contato de muitas crianças com a ciência, história, com objetos que falavam sobre o nosso povo”, relata.

Para ela o impacto do acidente demonstra a atualização da violência colonial. Entretanto afirma que as memórias dos povos indígenas e negros não estão contidas apenas nesses espaços, já que essas populações sempre lidaram com as ameaças constantes e tentativas de aniquilamento sejam epistemológicos, físicos, materiais ou espirituais.

A antropóloga reflete sobre a questão da dificuldade da população negra resistir quando a essa não é permitida ter memória. “A nossa memória não está apenas nos objetos e talvez o mais importante diante desse acontecimento é não ficar estático, passar o luto e ir à luta!”, finaliza.

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