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Movimentos acreditam que estudantes não terão condições de se preparar para prova que será em novembro

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Simone Freire | Imagem: Gastão Guedes / Divulgação

Diante da pandemia da Covid-19, o novo coronavírus, entidades estudantis querem o adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Com o isolamento social decretado, eles estão sem aulas presenciais, o que, segundo eles, irá dificultar a preparação para a prova que se tornou uma das principais portas de entrada ao ensino superior no país.

A União Nacional dos Estudantes (Une) e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) divulgaram uma nota em que dizem que, ao manter a prova, o governo federal não demonstra "sensibilidade para o momento em que vivemos". "Diferente do que diz o ministro [da Educação, Abraham Weintraub], é absurdo pensar que os estudantes estão em igualdade de condições nessa situação e que atividades à distância poderiam solucionar o problema da suspensão das aulas", diz o texto.

O movimento é apoiado pela Rede de Cursinhos Comunitários da UNEafro, que também defende o adiamento das provas. “Os nossos alunos têm uma grande defasagem que é deixada pelo ensino público. Nesse momento de pandemia, em que a opção para esse conteúdo é o ensino à distância, essas desigualdades se tornam maiores ainda, já que nossos alunos estão sem acesso à internet, sem espaço adequado para estudar e muitas vezes sem alimentação suficiente”, afirma Débora Dias, coordenadora do Núcleo UNEafro Brasil Ilda Martins de Souza / Angela Davis, da Fazenda da Juta, na Zona Leste de São Paulo (SP).

Alternativa pra quem?

O adiamento do exame seria uma forma, segundo ela, de dar mais condições para os alunos da periferia entrarem na disputa pela vaga do vestibular de forma mais equânime. “Dá mais chance e esperança para que os nossos alunos consigam estudar e garantir que esses sonhos se tornem mais realidade”, afirma.

O Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) também endossa a lista e emitiu nota criticando o calendário em consequência da paralisação das aulas escolares. A entidade ressalta que estudantes de todo o país estão sem aulas presenciais desde o fim de março. Dessa forma, o conselho teme que a desigualdade entre os estudantes para o ingresso na universidade aumente, já que nem todos possuem recursos para manter os estudos durante o período de paralisação.

O tema ganhou respaldo, ainda, de integrantes do movimento negro contrários à realização da prova no prazo estipulado pelo governo. “A pandemia do coronavírus maximizou as desigualdades. A população preta e pobre é a mais vulnerável e segue sem acesso a serviços básicos. Como cobrar estudos quando estão morrendo?”, questiona o grupo Potências Negras, formados por profissionais liberais de diversas áreas e que pauta questões raciais na internet.

Realidade

A estudante Joice Freire, 17 anos, está se preparando para ingressar no curso de Arquitetura da Universidade de São Paulo (USP) e diz que está sendo complicado dar conta dos estudos sozinha. “Eu tinha entrado em um cursinho. Quando começou a pandemia do coronavírus, as aulas pararam. Isso me prejudicou bastante porque tenho uma enorme dificuldade de entender as matérias e o que mais me ajudava eram as aulas presenciais”, afirma.

Ela está tentando aproveitar as plataformas virtuais que estão disponíveis gratuitamente e estudando pelos livros que tem. “Mas está sendo bem difícil sem um professor pra tirar minhas dúvidas que não são poucas”, afirma. A jovem conta que também precisou fazer adaptações para estudar em casa. “Tive que comprar um repetidor de sinal para chegar até o meu quarto. Mas sei que nem todo mundo tem essa possibilidade, por isso, seria importante esse adiamento”, defende.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, se manteve contrário ao adiamento do Enem por mais seis meses. Ele participou da reunião de líderes partidários do Senado, feita por videoconferência, nesta terça-feira (5), para explicar sua posição e alegou que a crise de saúde não seguirá até a época da realização das provas, prevista para novembro.

Divulgado em 30 de abril pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o edital do Enem sinaliza para a realização da prova impressa nos dias 1 e 8 de novembro, e uma prova em formato digital nos dias 22 e 29 de novembro - neste caso, os candidatos terão que comparecer ao local de realização do exame, já que não será permitido o uso de computador próprio. As inscrições para o exame vão até o dia 22 de maio.

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Esse conteúdo faz parte da #SalveCriadores, uma iniciativa que a partir do apoio a coletivos e criadores de conteúdo das periferias de São Paulo vai trazer reflexões e dados sobre a crise da COVID-19 e seus reflexos nas populações negras e periféricas. O projeto, desenvolvido pela Purpose, busca reforçar o importante trabalho que vem sendo feito por criadores de conteúdo e trazer pontos de vista e perspectivas que ainda não foram levantados. Os coletivos que fazem parte dessa iniciativa são o Alma Preta, o Nós, Mulheres da Periferia, a Periferia em Movimento e a Rádio Cantareira. Os conteúdos serão publicados nos canais de cada coletivo e divulgados nas redes sociais do Cidade dos Sonhos.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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