O Alma Preta conversou com integrantes da escola e especialistas em samba para compreender os motivos que levaram a maior campeã do carnaval paulistano para a divisão de acesso da festa

Texto / Pedro Borges
Imagem / Rodrigo Dionisio

A última colocação da Vai-Vai no carnaval de 2019 ocasionou a primeira queda da agremiação para a segunda divisão da festa em 89 anos de história da instituição. Em 2020, quando a escola completará 90 anos de existência, a Vai-Vai desfilará no grupo de acesso ao lado de antigas rivais, Camisa Verde e Branco e Nenê da Vila Matilde. As três instituições juntas somam 35 conquistas do carnaval da cidade.

Thobias, ex-presidente do Vai-Vai de 2007 a 2010 e quem compôs a direção da escola até 2018, acredita que essa era uma “tragédia anunciada”. Para ele, hoje componente da oposição, a agremiação precisa de eleições para alterar os rumos internos da entidade.

“5 de Março de 2019 foi um dia muito triste para todos aqueles simpatizantes, componentes da escola de samba Vai-Vai. Infelizmente, já era uma tragédia anunciada. A escola rachada, desfigurada. Esse foi o resultado, infelizmente”.

Com 72 anos de idade, integrante da escola há 67 e diretor de harmonia da Vai-Vai, Fernando Penteado relatou a tristeza com a notícia sobre o rebaixamento da escola.

“Não pensei em viver para ver isso. Mas infelizmente aconteceu. O que nós temos de fazer agora é ter a cabeça fria. Tem algumas pessoas com razão, descontentes com o fato, com os ânimos mais exaltados, mas nós devemos juntar essas pessoas e nos reerguer. Seremos uma fênix”.

A queda de uma organização como a Vai-Vai exige atenção. Por isso, o Alma Preta preparou uma lista com alguns motivos que colaboraram para a queda da maior campeã do carnaval paulistano: embranquecimento da festa, violência contra mulher, problemas políticos internos, acesso a recursos, mudança do regulamento e os problemas técnicos na apresentação.

Embranquecimento

Maria Helena, embaixatriz do samba paulistano, diz que esse é um processo antigo, que começou já com a oficialização do samba paulistano.

“Eu costumo conversar com o Carlão da Peruche, o último vivo dos cardeais do samba, que eles lutaram muito e foram até o poder público para conseguir uma licença para colocar o samba na rua, e quando conseguiram, festejaram. Mas eu digo para ele: “mal sabiam que ali começava a derrocada”, porque a partir dali foram colocadas regras como se nós não tivéssemos regras”, explica.

Fernando Penteado concorda e se recorda das dificuldades enfrentadas pelo samba, quando ele era produzido e gerenciado pela comunidade negra, principalmente com a participação mais presente de escolas como Vai-Vai, Camisa Verde e Branco, Nenê da Vila Matilde e Unidos da Peruche.

“Nós, com Nenê, Camisa, Peruche corríamos da polícia. Meus pais foram presos várias vezes por estarem fazendo samba na rua. E depois que o samba ficou oficial, depois que virou status, todo mundo virou sambista, vem para a Avenida, grita e sai fazendo aquelas evoluções de aeróbica, de academia, ginástica. O samba sambou”.

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Camisa Verde e Branco contabiliza 9 títulos do carnaval de São Paulo e hoje figura na divisão de acesso (Foto: Marcelo Messina)

Maria Helena acredita que existe um processo de apagamento contínuo da comunidade negra, que tem se materializado com o afastamento dessas escolas da divisão principal.

“É para tentarem chegar daqui a algum tempo e não haver nenhum vestígio do que é a nossa cultura. Mas nós precisamos estar sempre firmes para resistir e existir”.

Claudia Alexandre, jornalista que acompanha o samba paulista desde a década de 90 e autora de pesquisa de mestrado sobre a religiosidade dentro da Vai-Vai, acredita que a queda da escola representa mais um passo nesse processo de embranquecimento do carnaval paulistano.

“O que ocorre é que a cada ano a gente vem percebendo o quanto que o carnaval espetáculo exclui as escolas tradicionais e principalmente as de base e negras”.

Problemas políticos e os recursos

No carnaval de 2018, a Vai-Vai atingiu o 10° lugar entre as escolas do grupo especial, segunda pior posição ocupada pela instituição até aquele momento. Depois do carnaval, a sede foi pichada com os dizeres: “Fora Diretoria”.

Do ano passado para cá, se agravaram as tensões internas, o que gerou um racha entre os dirigentes. A direção da Vai-Vai continuou sob as orientações do presidente Darly Silva, conhecido como “Negitão”, e um grupo de oposição, liderado por Thobias, se afastou da gestão atual e passou a questioná-la de maneira mais contundente.

Esse processo de disputa interno também foi fatal para a queda de outras agremiações tradicionais, como Camisa Verde e Branco, Unidos da Peruche e Nenê da Vila Matilde, recorda Cláudia Alexandre.

“Tanto a Unidos do Peruche, quanto a Nenê da Vila Matilde e a Camisa Verde e Branco, e agora a Vai-Vai, antes da queda, passaram por problemas internos políticos e inclusive o afastamento de patrocínio”.

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Nenê da Vila Matilde é a segunda maior vencedora do carnaval paulistano, com 11 conquista (Foto: Reprodução)

Para Cláudia Alexandre, problemas internos dentro das escolas negras dificultam ainda mais a possibilidade de acesso aos recursos, principalmente dentro de um contexto descrito como do “carnaval espetáculo”.

“Quando a gente vai falar de escolas de samba oriundas de torcida, escolas de samba como Rosas de Ouro, predominantemente branca, historicamente branca, a gente vai falar de escolas que têm acesso a empresas, acesso a formatos de patrocínio, que praticamente não cabem para as escolas que tem chão”.

Problemas técnicos e a mudança do regulamento

A divergência política gerou outras implicações para a escola, como o afastamento de um segmento importante da Vai-Vai, com conhecimento técnico sobre o samba e que poderia ter contribuído para as melhores notas da instituição.

A comissão de frente da Vai-Vai, por exemplo, não recebeu uma única nota 10. Os quatro jurados deram para a escola dois 9,8 e dois 9,7, pontos técnicos que fizeram falta na avaliação final da escola.

O maior cuidado com o carnaval também foi uma exigência do novo regulamento, que passou a considerar como critério de desempate todas as notas. Antes, a pior avaliação para cada quesito era descartada e não contabilizada. A partir de 2019, a pior nota continuou a ser descartada para a somatória principal, mas passou a ser levada em consideração como critério de desempate.

“No momento em que muda o regulamento, quando a escola precisava ter mais técnica, atender ao regulamento mais difícil, quando você não tem investimento e pessoas experientes para comandar o carnaval, a escola de samba Vai-Vai se ressentiu dessas cabeças. Elas estão fora, no grupo de resistência”.

Violência contra mulher

Antes do desfile, a Vai-Vai foi notícia na mídia por conta de um episódio de violência contra mulher, que aconteceu no dia 20 de Janeiro, durante ensaio técnico no Anhembi.

No caso, um diretor da agremiação foi filmado agredindo outra integrante da escola. O samba continuou e poucas pessoas interviram. Depois da repercussão, o agressor foi afastado.

Para Maitê Freitas, uma das organizadoras da coleção “Sambas Escritos”, esse é mais um sinal do esgotamento do modelo atual do samba.

“Um membro da diretoria agrediu uma mulher no sambódromo. O samba está dando um sinal de que tem de parar e repensar os caminhos e as decisões que estão sendo tomadas, porque não se viola o sagrado do samba. Uma violência contra uma mulher é uma violência contra essa tradição de respeito que o samba exige”, finaliza.

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