Jé Oliveira e um grande elenco de atores e músicos fazem uma releitura com foco nas questões raciais dentro do drama escrito pelo compositor

Texto / Juca Guimarães e Pedro Borges
Imagem / Evandro Macedo / Divulgação

A negritude resplandece forte nos dois atos da peça Gota D’Água Preta, dirigida por Jé Oliveira, e em cartaz na sala Jardel Filho, no Centro Cultural São Paulo, até o domingo, dia 24 de março.

Sucesso de público e um alento para os corações progressistas que acreditam em avanços sociais com a tomada de consciência de raça e classe, a peça é uma adaptação primorosa do texto de Chico Buarque e Paulo Pontes, escrito em 1976, inspirado na tragédia grega de Medéia.

Jé Oliveira e um grande elenco de atores e músicos fazem uma releitura com foco nas questões raciais dentro do drama, que narra as desigualdades sociais e a exploração das pessoas que sonham com a casa própria.

Com muito samba, brasilidade e belíssimas canções, a adaptação de Jé Oliveira, um dos criadores do grupo de teatro Coletivo Negro, revela diversos níveis de tensões de classe e raça que não estavam na superfície no texto original. “Enegreci Chico Buarque e Paulo Pontes”, diz o diretor.

Essa nova versão de Gota d’Água se encaixa perfeitamente nos dias atuais e nas discussões políticas acerca da polarização do país e de uma escalada sem precedentes do racismo. Tempos que exigem uma rápida resposta antirracista.

As sessões da peça Gota d’Água Preta acontecem às sextas e sábados às 20h e aos domingos às 19h.Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). O CCSP fica ao lado da estação Vergueiro do metrô.

O Alma Preta conversou com o diretor. Confere aí.

Como surgiu a ideia de encenar um texto do Chico Buarque?

Surgiu pela necessidade de pensar o país de uma forma profunda e ampla do ponto de vista de raça, classe e gênero. O Gota d’Água dá conta de tratar desses temas. A questão racial foi inserida por nós, mas no texto já apontava a possibilidade disso se efetivar.

E também pela coerência política do Chico Buarque, junto com o Paulo Pontes, de ser uma pessoa assumidamente de esquerda, de combate, uma pessoa de posicionamento progressista. Esse foi um ponto que pesou na escolha deste texto.

O que você priorizou na hora de atualizar o texto para os dias de hoje?

Eu priorizei, sobretudo, as questões coletivas e políticas. O texto tem bastante subjetividade, tem como pano de fundo uma traição conjugal, que no meu entender é uma metáfora da traição maior que é a de raça e classe, contida no texto. Eu priorizei dar ênfase a questões que dizem respeito a maioria da população preta e pobre.

Existe um movimento de tomada de consciência do povo pelos seus direitos na peça. Você acha que o brasileiro está indo neste caminho atualmente?

Eu acho que o povo brasileiro sempre foi em busca dos seus direitos. Sempre teve revide, sempre teve manifestação, sempre teve disputa para as melhorias. Existem momentos em que a gente está mais organizado e mais forte e também existem momentos em que a gente está menos organizado e mais fraco. Acho que a gente está em um momento de menor organização e maior fraqueza.

Qual a diferença entre Gota D’Água e Gota D’Água Negra?

São as questões raciais. No texto original elas não aparecem explicitamente. Elas estão contidas ali para quem tem um olhar para essas questões. Isso foi o que me levou a ver ali um projeto e querer desenvolver isso. O ‘Gota D’água’ é uma peça política, mas ela não ‘racializa’ nenhuma questão. Eu trouxe para o foco a questão racial. Eu ‘racializei’ e enegreci o Chico Buarque e o Paulo Pontes.

O público tem um reação espontânea muito intensa com a peça. No final, tem gritos de Lula Livre, Marielle Vive! Você esperava uma reação assim do público?

Eu achava que isso pudesse acontecer por conta da experiência que eu tenho com o ‘Farinha com Açúcar’, que é uma homenagem ao Racionais e na peça também existem reações bastante parecidas.

Como eu entendo que ali tem também um público que já acompanha o meu trabalho, acompanha o trabalho do grupo ao qual eu faço parte, que é o Coletivo Negro, acompanha o trabalho do Salloma Salomão, da Juçara [Marçal], eu imaginei que isso [reações] pudesse acontecer sim.

O elenco está muito afiado com a dinâmica do espetáculo. Como foram os ensaios?

Foram cinco meses de ensaio e ao todo uns 70 encontros. Eu tenho um cronograma guardado até hoje. Se você for ver, foram poucos ensaios, mas é de fato um elenco muito dedicado e muito experiente.

De certa forma quase que todo mundo já conhecia por já ter estudado, lido. É um texto quase obrigatório nas escolas de teatro. A gente teve esses 70 encontros e levantou a peça nesse período.

O Chico Buarque já viu a peça. O que ele acha dessa adaptação?

O Chico ainda não viu. Ele mandou uma mensagem via assessoria dizendo que gostou muito do projeto, que acha muito interessante e importante, mas não sabe se viria para São Paulo para assistir.

Estamos com esperança e um dia ele verá. Se a gente for para o Rio de Janeiro fica bem mais fácil. Acho que é só questão de tempo.

No espetáculo, a personagem Joana faz a representação da Medéia que luta contra Creonte que convenceu Jasão a largá-la para se casar com a sua filha. Essa parte da peça toca em questões fortes sobre relações familiares, machismo e a solidão da mulher negra. Como foi fazer toda essa adaptação?

Essa adaptação se deu no sentido de aprofundar o que a peça já apontava. Por exemplo, trazer a solidão da mulher negra é uma reflexão contemporânea nossa, por racializar a questão, porque quando essa peça é feita por uma atriz branca, esse tema não aparece.

A gente trouxe essa questão por uma discussão do nosso povo. A gente precisa pensar sobre isso. A gente precisa aprofundar essa questão e a solidão da mulher negra é uma coisa evidente.

A peça é de 1975, bem no momento mais trágico da ditadura. Em 2019, o momento é de disputa por liberdades e contra a repressão. Como você compara os dois períodos?

Infelizmente tem alguns aspectos muito parecidos e alguns até pioraram em relação a 1975. O índice de feminicídio só aumenta, a população preta continua morrendo, sendo massacrada nas favelas, nas chacinas pela polícia militar de São Paulo e de todo o Brasil. Se você for ver por esse aspecto, só piorou.

A especulação imobiliária continua arrancando a carne das pessoas. Os juros de banco e outras instituições desse tipo continuam arrancando a dignidade da vida das pessoas de uma forma abusiva.

O Gota d’Água teve bastante luta para ser liberado pela censura, conseguiu passar, mas tinha ali sempre o censor e os censores acompanhando tudo. No nosso caso, isso explicitamente não está acontecendo. Acho que essa é a maior diferença.

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