Kits de produtos são enviados a penitenciárias mediante solicitação de famílias de detentos; iniciativa é elogiada por dono da empresa, mas é também alvo de críticas de especialistas

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Wilson Dias / Agência Brasil

“Cabe a nós atendermos a todos requisitos estabelecidos em cada unidade prisional para o envio do Jumbo, com referência à cor, embalagens, produtos, quantidades, peso, acondicionamento e regras de postagens. Devido às regras, os familiares sentem-se às vezes despreparados para atende-las. Então, podemos proporcionar nossos serviços, que na maioria dos casos se tornam mais baratos e eficientes do que os prestados diretamente pelo familiar.” É desse modo como Sebastião Pereira Jr. fala sobre o Jumbo Delivery, serviço criado por sua empresa, a Jumbo CDP, para envio de "jumbos” – modo como os kits com produtos para presidiários – são chamados em centros de detenção.

O serviço, que segundo o idealizador tem como objetivo ser um elemento facilitador para familiares de presidiários e atenuador do sofrimento dos detentos por meio do envio de produtos, como os “de higiene pessoal, alguma guloseimas, vestuário e também cigarros”, é feito em 90 unidades prisionais cadastradas no site, totalizando média mensal de 300 “jumbos” enviados. Ainda, de acordo com Pereira Jr., a empresa não tem parceria com nenhum presídio vinculado à SAP (Secretaria de Administração Penitenciária) e segue todos os trâmites legais até chegar ao destinatário.

Além do pacote

Um dos fatos que chamaram a atenção no que diz respeito ao Jumbo Delivery está relacionado ao comércio criado ao redor da realidade carcerária em São Paulo e, como consequência, em todo o Brasil. Coincidência ou não, o aumento vertiginoso da população carcerária criou novos nichos de mercado.

De acordo com o Infopen (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias), de 2016, a população carcerária brasileira estava estimada em 726,7 mil detentos. Essa quantidade é mais do que o dobro da observada em 2005, quando havia 361,4 mil presos.

Jumbo CDP Pinheiros III Rovena Rosa Agência Brasil corpo

Crescimento das taxas de encarceramento no Brasil transformaram os presídios nacionais em um nicho de mercado (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

“As prisões brasileiras se converteram nesse complexo industrial e em um lucrativo negócio da economia neoliberal. Precisamos considerar a obtenção de lucros das empresas contratadas para fornecer alimentos e vestuários, assim como analisar a obtenção de lucros de quem devora os recursos públicos”, explica Dina Alves, advogada e coordenadora do departamento de justiça e segurança pública do IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), ao falar sobre a importância de se considerar que o sistema prisional brasileiro está no radar comercial.

“Alguém lucra com o sofrimento humano e com a construção de novos presídios. Isso porque não estou falando da exploração da mão de obra dos presos e das presas no interior das cadeias. Não existe regulamentação para esse tipo de negócio nas portas do cárcere”, completa.

Comércio além dos portões

De imediato, o que se pensa ao falar sobre comércio no contexto prisional é a atuação de ambulantes que se instalam em frente a presídios e até mesmo em serviços como o “jumbo delivery”.

A questão abrange grandes empresas que fazem parcerias para a execução de serviços para o poder público e se tornam responsáveis até mesmo pela administração de presídios.

Um caso notório é da Umanizzare, corporação que se autodenomina como a maior empresa de gestão de presídios da América Latina. A empresa era responsável pela administração do Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jardim), em Manaus (AM), onde ocorreu massacre no início de 2017 no qual 56 detentos foram mortos. À época, o Ministério Público de Contas do Amazonas protocolou pedido no TCE (Tribunal de Contas do Estado) para rescisão do contrato da empresa com o Estado, pois havia indícios de irregularidades como conflito de interesses empresariais e ineficácia de gestão. Contudo, o contrato com a Umanizzare foi renovado em dezembro do mesmo ano.

“Não é pelo sistema penitenciário brasileiro não ser privatizado que o Brasil está fora desse complexo industrial – está dentro e muito. É igualmente importante, conveniente e lucrativo haver cada vez mais o crescimento da população carcerária e o Estado brasileiro promove isso”, ressalta Dina Alves.

O outro lado

Questionado sobre críticas relacionadas a aspectos mercadológicos, Sebastião Pereira Jr. argumentou desconhecê-las, uma vez que a relação da empesa é apenas com as famílias dos presidiários, para as quais os serviços são oferecidos “com preço vantajoso”.

Outro aspecto citado pelo empresário diz respeito sobre o aspecto humano, o mais importante para a empresa, independentemente do delito supostamente cometido pelos detentos. Além disso, destaca o apoio prestado a familiares, por meio do esclarecimento de informações como horários de ônibus para unidades prisionais e procedimentos para visita dos parentes encarcerados.

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
contato(@)almapreta.com

Mais Lidos