fbpx

Artista e empresário diz buscar um sentido mais amplo para a vida e divide as experiências que o inspiram no seu trabalho

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Júlia Rodrigues/Divulgação

Emicida tem um propósito para a sua arte que rompe com os limites do entretenimento e não se enquadra nos tradicionais exemplos conhecidos de sucesso. O triunfo que já foi “o sorriso da coroa”, passou pelo “azul no boletim” e chegou numa jornada coletiva em busca da felicidade.

O músico se esmera em novas técnicas de comunicação e multiplataformas. Aos 35 anos, Leandro Roque de Oliveira, que surgiu como um fenômeno da cena hip-hop, está disposto a ensinar e a aprender. Adepto da meditação, ele também ressalta a importância do autocuidado.

“Eu jurava que jamais faria [meditação e agora faço toda manhã. Me trouxe uma ideia de que minha liberdade também precisa libertar os outros”, conta, em entrevista concedida ao Alma Preta.

No bate-papo com a reportagem, Emicida falou sobre suas composições, estudos e projetos, além de comentar sobre o momento que o Brasil atravessa e o movimento negro. Uma das novidades reveladas pelo artista é que durante a pandemia ele produziu material suficiente para mais quatro álbuns.

AP: O que você tem feito durante o isolamento social? Tem desenvolvido novos planos?

Emicida: Eu tenho estudado, lido muito, buscado compreender a natureza de tudo, para ficar espantado só com o que é bonito. No começo, estávamos todos em choque com a situação da quarentena. Agora, já se passaram cinco meses, eu continuo guardado. Fizemos uma série de ações sociais, seja através dessas lives ou não, aprendi a fazer queijos e estudei fungos, ainda estou fazendo isso e tem sido uma forma de terapia tão bacana quanto fazer música.

Tenho uma horta também e ela cumpre um papel parecido, é o meu lugar de meditação, aliás. Me arrisquei a escrever uns roteiros de coisas que estamos produzindo por aqui pela Laboratório Fantasma. Eu também terminei um livro infantil novo no Vietnã, que era onde eu estava no início do ano e acredito que ele saia ainda neste ano, assim como um filme que estamos finalizando, mas ainda não é hora de falar detalhes sobre ele.

Tenho estudado muito literatura brasileira, estou apaixonado por Mário de Andrade, Gonçalves Dias, Machado de Assis e esboçando um livro que tem a ver com esse universo. Nos últimos dois meses, fiz bastante música também, estava travado, mas tenho um estúdio no porão de casa, desci num final de semana e saiu muita coisa, muita coisa mesmo, foi tipo uma supernova, tipo aquela história do Miles Davis, que gravou quatro discos em uma noite.

Eu fui contar domingo a noite e somando as coisas que não saíram no primeiro capítulo de “AmarElo” e as novas, tem material pra uns quatro discos novos. Fora isso, voltei a fazer aula de desenho, que era um sonho antigo. Tenho olhado as crias e me revezado na louça e nos banheiros a serem lavados com a patroa.

Você já comentou sobre a necessidade de se aproveitar o ócio criativo e também sobre as distorções causadas pela imagem de que o povo negro é sempre relacionado ao trabalho e cria-se a super valorização do esforço de ter que produzir sempre alguma coisa. Como a gente consegue pegar leve, sem culpa?

De onde vem a nossa culpa? Ela é nossa mesmo ou é dos outros? Precisamos responder a esse tipo de pergunta primeiro. Hoje em dia, eu só levo o que eu posso carregar, a expectativa dos outros, é dos outros. E tudo que você acha que uma pessoa preta tem a obrigação de fazer e uma pessoa branca não tem, por mais positiva que seja sua intenção, é racismo.

A meditação, que também é algo que eu jurava que jamais faria e agora faço toda manhã, me trouxe uma ideia de que minha liberdade também precisa libertar os outros. Nessa lógica, não há culpa. Tenho minhas responsabilidades, é claro, minhas ambições também, mas se não lido bem com os caminhos para onde elas me puxam, então preciso rever cada uma delas para que minha trajetória seja saudável; ou então nada fará sentido e, mesmo alcançando a linha de chegada, vou me sentir vazio.

emicidaapum

(Foto: Júlia Rodrigues/Divulgação)

Os dados do Ministério da Saúde mostram que a população negra e das periferias são os grupos mais atingidos pela pandemia. Existem movimentos sociais, como a Uneafro, que sinalizam a pandemia como combustível para o processo de genocídio negro no Brasil. Qual a sua opinião sobre?

Eu não confio nem nos dados de um Ministério da Saúde nessa conjuntura. Não tem ministro. Acho que tem uma chance significativa de haver uma grande subnotificação. Observando o contexto e conhecendo um pouco do histórico do país, podemos entender que a pobreza sempre foi um propulsor desse genocídio, talvez o principal e neste momento não seria diferente. O Estado Brasileiro já nasceu se alimentando de morte, uma vez que a escravidão é um grande empreendimento de morte disfarçado de “a economia não pode parar”.

José de Alencar, o grande escritor, mas também político e até ministro da Justiça, defendeu com entusiasmo a escravidão no Brasil, alegando que a produtividade das unidades agro-exportadoras dependiam dela e que o Estado Brasileiro também tirava seus recursos para existir desse mesmo crime. Isso não é o Emicida falando, é um representante do estado, pró-escravidão, analisando os fatos na época em que viveu.

Passaram-se séculos, o país encenou conciliações que não foi capaz de concluir e a consequência é essa eterna sensação de que somos maquiadores de cadáveres. A gente pode pintar como quiser, por debaixo da maquiagem sempre haverá morte.

Você esperava ativar uma nova perspectiva de visão do mundo nas pessoas com o “Amarelo Prisma”, complementando o conteúdo de reflexão que tem no álbum “AmarElo”? O mundo, principalmente as comunidades tradicionais (indígenas, andinas e quilombolas), já vivenciou uma relação de harmonia com a natureza e coletivismo entre as pessoas. É um modo de vida que contrasta com o consumismo e a hiper exploração dos recursos naturais que prega o capitalismo. Você acha que essas experiências de bem viver podem ser vivenciadas por grupos maiores, inclusive nações?

Eu acho, de verdade, que a pandemia gerada pela Covid-19 é o abre-alas da era das consequências. Na natureza, não tem castigo e nem premiação, só consequências. É difícil achar que tenha uma solução única que se adeque para todos os povos do mundo. Esse é o erro crasso do sistema atual, inclusive. Atualmente, produção, consumo e cultura estão tão interligados e dependemos tanto do supérfluo, que não tem como puxar o freio de mão disso sem gerar um colapso, se não social, um colapso ambiental. Temos uma manobra arriscada para fazer, com pouca margem para erro e pouquíssimo tempo e, se não formos cuidadosos olhando para comunidades tradicionais como as que você citou, romantizamos um monte de coisas também e isso é perigoso.

Mas eu acredito que não haja uma solução decente, que não passe por integrar-se à natureza de maneira a existir dentro do ciclo dela, não tentando domar ela, que é como a branquitude tenta conduzir essa jornada. Mas existir sendo parte dela, nesse sentido, existem, sim, muitas sugestões valiosas vindas dessas sociedades tão desrespeitadas pela colonização, pelo fato de terem dito desde sempre que essa brincadeira de menino rico de dinheiro, onde o homem é o centro do universo, ia dar merda.

Nos três episódios do podcast “AmarElo, o filme invisível” você faz diversas reflexões e apresenta suas ideias e observações do mundo. Você curtiu essa forma de se comunicar? Dá para comparar com a composição de um rap ou os improvisos de freestyle quando tinha que despejar toda a bagagem e sonhos que a gente carrega na vida?

Eu gosto de podcasts porque eles são o último bastião das coisas úteis e legais da internet, junto com a Wikipedia. Gosto de ouvir espetáculos em discos de vinil, como Teleco-teco, de Ciro Monteiro e Dilermando Pinheiro; ou o “Eu Sou o Espetáculo”, de José Vasconcelos. Sou viciado em ambos, tenho vontade de lançar algo nessa pegada.

Falei pro Thiago Ventura que vou fazer aula de stand-up com ele, mas pra iniciar e experimentar o formato, quis ficar em algo que eu conseguia produzir sem ter que pensar muito, então fiquei brincando no quintal com meus brinquedos favoritos, que são as referências da minha criação, no caso do Filme Invisível; e as pontes que podemos fazer no mundo, no Prisma.

Recentemente, houve o lançamento da programação da LAB Fantasma TV. Há alguns anos, vocês lançaram um projeto que era o site ÉNóiz, com conteúdo diversificado que ia além da música. A nova empreitada se propõe a conectar pessoas e desenvolver conteúdo amplo?

A LAB Fantasma TV é um experimento. Legal você vincular com o site ÉNóiz, porque a intenção, de fato, é semelhante. Hoje, entendemos melhor o solo em que estamos e também somos mais relevantes nele, o que nos ajuda a planejar e a executar tudo de um jeito mais frutífero. A Laboratório Fantasma já vem - há alguns anos - explorando outros caminhos, seja com desfiles de moda ou com inventividade completamente fora da curva, como quando o Rael lançou o disco colocando mp3 players dentro de paredes espalhadas pela cidade.

Com a possibilidade oferecida por uma plataforma como a Twitch, estamos experimentando formatos e descobrindo como produzir com qualidade e quantidade. Queremos lançar talentos por ali, formar público e conectá-lo com valores e raízes que, infelizmente, quando surgem nos meios tradicionais é de maneira muito estereotipada. Queremos ser uma sugestão de forma de produzir que ecoe na produção de conteúdo tradicional do entretenimento que já existe, como fizemos na indústria fonográfica.

emicidaapdois

(Foto: Júlia Rodrigues/Divulgação)

Como você está lidando com a fama de se tornar uma figura de referência na opinião pública, sobretudo entre os jovens negros, que já é tão grande ou maior que a sua imagem como músico e compositor? As suas entrevistas repercutem tanto quanto os seus singles, acho que só Caetano e Chico têm algo assim. Como lida com isso?

Eu não lido. Já se foi o tempo em que eu tinha essa ambição. Acho que nem existiu esse tempo, o hip hop me ensinou a ter sonhos grandiosos. Acho fama uma merda, de verdade. Ser reconhecido pelo seu trabalho é lindo, mas a coisa superficial de “ser famoso” é algo com que nunca me dei muito bem. Existem duas formas de lidar com a fama: ou você goza dela ou você sofre ela. Eu, infelizmente, sou do segundo grupo, porque minha parada é a arte, retratar um tempo e um lugar, e a fama me rouba o lugar de observador, me coloca num pedestal para contemplação externa que é péssimo pra arte.

Eu não sou um objeto, eu sou um sujeito. Minha parada é estudar, ler, aprimorar minha linguagem artística, desenvolver novas linguagens, construir pontes e tem que fazer um esforço desgraçado para fama coexistir com isso. Então minha forma de lidar é não lidando.

Às vezes, as pessoas me amam, quando elas concordam saem dizendo que sou super inteligente, o maior de todos os tempos, novo isso, novo aquilo, etc; e, às vezes, elas me odeiam e dizem que o meu tempo já foi... e tá tudo certo. Como eu pretendo estar cada vez menos nas redes sociais, eu só torço para que ambas se divirtam. O que me interessa no fim do dia é se minha criatividade está satisfeita com o que produziu.

O que você acha da paternidade do homem negro? O que fez para encontrar de fortalecer os canais de diálogos com as suas filhas e como falar de racismo nessa construção de relação?

Não precisei fortalecer os canais de diálogos com minhas filhas, precisei criá-los, porque cresci completamente sem essas referência: tanto masculina, quanto paterna. Isso é um buraco muito grande. E isso rouba tanto da gente que só de pensar ainda dá um aperto no coração. Acho que não existe paternidade saudável sem refletir sobre masculinidade e as possibilidades de existir que ela te dá.

A masculinidade como concebemos é uma grande prisão disfarçada de liberdade. Se não questionarmos esse modelo de masculinidade que entendemos como único, a vitória do homem sempre vai ser cercada da dor de todos os outros que cercam a gente e isso inclui outros homens também. Enquanto afro-descendente, acho que me esforço mais para que as meninas cresçam em um ambiente que as faça se amarem e se identificarem com mundos bonitos, encantadores e reais, onde elas vejam peles como as delas, cabelos como os delas, gente como seus pais, mães, avôs e avós. Acho que assim ativo a potência delas sem colocar a ferida no centro de suas existências.

O Movimento Negro está na vanguarda de várias lutas importantes contra o fascismo e pela democracia. Você apoiou várias iniciativas da Coalizão Negra por Direitos em 2019 e 2020. Como você avalia essas lutas e como está o engajamento no meio cultural? Tem alguma articulação contra o racismo acontecendo?

Muito se falou a respeito de antirracismo nos últimos tempos, mas eu acho que a iniciativa mais potente e que já vem sendo articulada antes dessas ondas recentes é de fato a Coalizão, a junção de siglas históricas do movimento negro, gente que estuda e combate esse fenômeno há décadas no Brasil. Essa é a movimentação mais frutífera no sentido de propor ações e políticas que sejam anti-racistas de fato.

Gente que tem sensibilidade para entender que a ascensão do povo preto não pode acontecer numa lógica onde ela signifique invisibilização dos povos originários. E que tenha proposições que saiam do âmbito das redes sociais e dessa representatividade vazia que o Instagram produz. É preciso de mais e acredito que aglutinar todo mundo em torno da Coalizão Negra por Direitos é esse mais de que precisamos agora.

Quais os planos para 2021? Você vai mesmo voltar a desenhar? Vai escrever mais livros infantis?

Voltei a desenhar, quero fazer quadrinhos, roteiros, ilustrações e com certeza vou além dos livros infantis. Tenho me sentido muito provocado a escrever mais nesses tempos. Estou lendo Verdade Tropical, do Caetano, e agradecendo por viver no mesmo tempo que ele. Acho linda a forma como ele compartilha tanto com a gente. Ele, Gil, Chico Buarque, Dona Onete, Djavan, Rashid, Brown, Tom Zé, Martinho da Vila, Bethânia, Gal, Fabiana Cozza, Zélia Duncan são pessoas que tenho como professores. Eles abrem a boca e eu tô aqui anotando as coisas pra sair estudando mais.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com