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Em entrevista à bancada do Roda Viva, programa exibido pela TV Cultura, músico e empresário falou sobre diversos temas, entre eles a acusação de machismo em canções como “Trepadeira”

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Júlia Rodrigues/Divulgação

O ano era 2013, o rapper e empresário Emicida havia acabado de lançar o álbum “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui”. Na porta do Sesc Pinheiros, em São Paulo, onde o músico ia fazer um show, havia um protesto de mulheres com cartazes contra uma das músicas do álbum chamada “Trepadeira”. O samba, que tinha participação de Wilson das Neves, falecido em 2017, trazia letras como “merece era uma surra de espada de São Jorge”. Este episódio foi um dos temas debatidos no Roda Viva da segunda-feira (27), que teve o músico como entrevistado.

Ao ser questionado sobre o assunto pela jornalista Adriana Couto, da própria TV Cultura, Emicida contextualiza que a maior parte das participações do álbum foi de mulheres, como Eliza Lucinda, Tulipa Ruiz, Pitty, Fabiana Cozza, Juçara Marçal, além da mãe dele Dona Jacira e da filha, Estela. Neste momento, uma voz feminina, parecida com a de Adriana, diz que isso acaba sendo uma contradição. “Eu lido tranquilamente com as contradições que a realidade produz porque viver é contraditório”, afirma o artista.

No protesto realizado  na porta do show, em 2013, mulheres seguravam cartazes dizendo que o “Machismo Mata” e “Não ao Feminicídio”. Trepadeira, dentre outras rimas trazia “mamãe olhou e me disse: isso ai é igual trevo de três folhas. Quer comer, come, mas não dá sorte. Vai, brinca com a sorte”.

“As pessoas não conseguiram perceber que era um cara com dor de cotovelo. A música fala dessa perspectiva. Mas, a interpretação dessas pessoas que foram fazer a manifestação era de que o personagem era o Emicida. E aí o Emicida é que precisa ser responsabilizado por isso. Eu não acho que isso foi um demérito, mas isso foi uma provocação muito importante para mim, de pensar e ajudar a ver uma série de coisas que antes eu não via, ou que eu não dava a atenção que deveria”, argumenta o rapper. 

De 2013 em diante, os álbuns de Emicida ganharam cada vez mais participações de artistas mulheres e LGBTQIA+. Um exemplo é a música “Mandume”, de 2015, que, dentre outros, traz rimas de Drik Barbosa e Rico Dalassam. Já em “AmarElo”, de 2019, o rapper canta ao lado de Majur e Pabllo Vittar.

“Ainda estamos muito distantes do que é necessário produzir para ser um hip-hop que se orgulhe de ser um ambiente inclusivo. Não só na questão das mulheres, mas na de LGBTs também está muito aquém. Isso pode transformar um ambiente de contradição e essa contradição precisa provocar a gente para que possamos construir um espaço onde essas artistas  apareçam”, analisa o músico.

No decorrer da entrevista, Emicida ainda destaca a importância da presença de uma mulher rapper para a mudança no ambiente. “A Karol Conka tem a responsabilidade pelo hip-hop sorrir sem nenhum tipo de constrangimento. Ela é o orixá da felicidade sem culpa. Eu vi ela cantar para 17 pessoas como se tivesse 200 milhões de pessoas, sorrindo e as pessoas entraram na energia dela. Ela acabou libertando todos nós”, comenta.

Mas é em outro ponto da entrevista à bancada do Roda Viva que o artista dá a resposta que realmente faz diferença quando alguém é acusado de cometer qualquer tipo de opressão, como o machismo. “Se naquele momento eu me colocasse no lugar de ser apenas um cancelado, eu ia perder um monte de ponto de vista que considero extremante valioso. Eu ia perder a chance de observar a realidade de maneira muito mais ampla. As provocações que eu recebi, tanto eu quanto meus camaradas e minhas amigas. ‘Ok, você diz que não é isso, mas na pratica como você se move para mostrar que não é isso?’ Essa provocação empurra a gente para esse lugar de vamos trazer mais mina para o bagulho então”, pontua Emicida, demonstrando, que nos últimos anos, sim, aprendeu e tem aprendido com as provocações de 2013. 

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