A cantora, prestes a completar 81 anos de vida, é um ícone na luta por justiça no Brasil. Elza Soares, em entrevista ao Alma Preta, contou sobre a sua trajetória e como enxerga a luta por direito das mulheres e da população negra no país

Texto / Pedro Borges
Imagem / Estadão

A mulher do fim do mundo, a voz do milênio, uma das vozes da luta contra o racismo, machismo, e todas as formas de opressão. Essas descrições e esses potentes atributos não são capazes de expressar a grandeza de Elza Soares.

Mãe aos 13 anos, alvo de ataques racistas, vítima de violência doméstica, obrigada a enterrar quatro filhos, e vítima de roubo de empresário. Essas barreiras não são suficientes para parar a fênix, como gosta de se definir, chamada Elza Soares.

Em entrevista ao Alma Preta, a cantora do milênio contou sobre a sua trajetória, as dificuldades para enfrentar o racismo, o machismo, e a maneira como vê a posição desses grupos sociais marginalizados nos dias de hoje.

“Hoje eu acho mais fácil. A ideia da mulher, do negro, o ser humano, ele hoje tem mais liberdade para falar. O negro pode falar, ser o que ele sente”, conta Elza Soares.

A artista mantém-se na posição de enfrentamento ao racismo e às desigualdades sociais, raciais e de gênero, sempre exaltando o orgulho de compor esses grupos.

“Eu sou uma mulher negra no Brasil com muita felicidade, satisfação, porque nunca parei para olhar a minha cor. Muito pelo contrário, sempre lutei pela minha cor, eu me adoro, me adoro. Eu acho que a nossa raça negra é maravilhosa. Sou mulher preta, respiro a minha negritude com muito amor, muito carinho”.

Vida pessoal

Filha de Avelino Gomes Soares, operário, e Rosária da Conceição Soares, lavadeira, Elza da Conceição Soares nasceu em 23 de Junho de 1937, na cidade do Rio de Janeiro, na favela de Moça Bonita, Vila Vintém.

A infância, como de muitas crianças pobres e negras da época, foi marcada por brincadeiras na rua, como pipas e piões, e também acompanhada pelo trabalho, como o de levar latas de água na cabeça.

A adolescência também refletiu a dualidade da vida de Elza Soares. Aos treze, foi obrigada a se casar com Alaurdes Antônio Soares, de quem engravidou, e a fez ser mãe, aos quatorze anos de idade.

Diante da vulnerabilidade social sentida por uma mulher negra das periferias do Rio Janeiro, Elza Soares tomou como possibilidade de saída um trunfo, uma carta que poucas pessoas podem ter, a voz e o dom de cantar.

A adolescente decidiu ir ao programa na Rádio Tupi de Ary Barroso, que quando se depara com a jovem negra, faz piadas e leva a plateia a gargalhar. Ainda no clima de ironizar Elza, Ary Barroso perguntou “De que planeta você veio?”. Mesmo menina, mostrou a força que seria a marca da sua trajetória e respondeu, “Do planeta fome”.

A música, não só para Elza Soares, como para outros artistas negros, foi uma ferramenta potente para alcançar uma vida melhor do ponto de vista econômico e material. O olhar sensível para as desigualdades sociais, raciais e de gênero fez desse dom de Elza um canal importante para enfrentar as injustiças do mundo.

“Eu acho que a arte tem esse poder. Poder de gritar, falar. Com um microfone na mão, uma canção maravilhosa, você tem o poder de falar. A arte te ajuda nisso. A música tem esse poder. É poderosa a música. Não existe nada sem música. Tem que ter música sempre”, conta.

Anos mais tarde, Elza Soares tem um capítulo importante da vida. Com 27 anos de idade, começa a namorar com o já consagrado jogador de futebol do Botafogo, Garrincha. Depois de quatro anos de namoro, se casam em 1968, relacionamento que se estendeu até 1982.

Ao todo, Elza teve oito filhos. Dois meninos que faleceram recém nascidos, Garrinchinha, que foi vítima de um acidente de carro, e Gilson Soares, de 59 anos, quem morreu em 26 de Julho de 2015 por conta de uma infecção urinária. Os outros filhos de Elza são João Carlos, Gerson, Dilma e Sara.

A carreira musical

A cantora começou a fazer sucesso em 1960, com o lançamento da música “Se Acaso Você Chegasse”, de 1960, e recebeu reconhecimento com seu segundo EP, A Bossa Negra. Outros sucessos de Elza na época foram Boato (1961), Cadeira Vazia (1961), Só Danço Samba (1963), e Aquarela Brasileira (1974).

Elza Soares recorda a dificuldade de ser uma mulher negra no início da carreira, das dificuldades enfrentadas no ambiente sexista da música. Ela chegou a ouvir de Tom Jobim que era “bebível e comível”, por exemplo.

“Quando eu comecei, no meu tempo, era muito difícil, a mulher ainda era muito coitada, sacrificada. Ela não tinha muito poder”, lembra a cantora.

Mesmo em momentos de sucesso, Elza Soares também passou por casos de racismo. Ao longo da carreira, ela lembra de ter sido deixada na porta de um hotel, com os funcionários dizendo que não havia espaço, assim como há ouviu que o hotel não recebia prostitutas.

Ela acredita que a situação seja hoje melhor para a população negra.

“Ele hoje é o negro reconhecido como ser humano. Tem que assumir a negritude dele com muito carinho”.

A turnê de sucesso pelos Estados Unidos e a Europa durante a década de 1970 contrastou com o momento da cantora na década seguinte, em 1980, quando pensou em encerrar a carreira. Nessa época, recebeu forte apoio de Caetano Veloso, que a convidou para gravar a música “Língua”, em seu álbum “Velô”, de 1984.

Em 1999, um episódio marcaria a vida de Elza Soares, de uma maneira triste. Em apresentação, a cantora caiu do palco e desde então travou uma luta com a sua coluna, que já foi operada três vezes. Mais recentemente, Elza Soares tem se apresentado ao público em cadeira de rodas, por conta da dificuldade de movimento e locomoção.

No início dos anos 2000, a vida dá uma reviravolta. A BBC elege Elza Soares como a “Melhor Cantora do Milênio” e em 2002, depois de lançar o álbum “Do Cóccix até o Pescoço”, Elza Soares foi indicada para ao Grammy, maior prêmio da música no mundo. Participaram do álbum artistas como Jorge Ben, Carlinhos Brown, Caetano Veloso e Chico Buarque.

Nos tempos mais recentes, Elza Soares lançou em 2014 o álbum A Voz e a Máquina, e em 2015, o álbum A Mulher do Fim do Mundo, primeiro álbum da carreira só com músicas autorais da compositora, e premiado com o Grammy Latino de “Melhor Álbum de Música Popular Brasileira”. Para este ano, Elza Soares prepara um álbum chamado “Deus é mulher”.

Perguntada sobre quem seria a mulher do fim do mundo, Elza Soares diz que “a mulher do fim do mundo são todas as mulheres. A gente vai buscando, vai lutando até chegar ao fim do mundo, o fim do mundo de felicidade”.

 

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