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Ainda triste e dolorida, a família Franco caminha e passa a experienciar sonhos, como o Instituto em homenagem a irmã, mãe e filha Marielle Franco

Texto / Pedro Borges | Edição / Simone Freire | Imagem / Pedro Borges

São 16h35 minutos quando chego na casa de Marinete, Antônio e Luyara Franco. A entrada do domicílio, localizado em Bonsucesso, Rio de Janeiro, mantém firme a placa “Marielle Presente” sobre a porta, assim como estava na nossa primeira entrevista em 2019.

A sensação de que Marielle está ali e chegará a qualquer momento persiste. São fotos, troféus, recordações em todos os cômodos e espaços da casa. O sofrimento, ao que parece, seguirá, como uma fibrose ou qualquer dor descrita pela medicina como crônica.

“Cicatrizou? Não cicatrizou! A nossa dor vai ser eterna. Ela não vai parar enquanto não tivermos respostas do que estamos fazemos desde o dia 14 de março de 2018”, diz Antônio Francisco, pai de Marielle Franco.

As memórias, porém, compartilham o espaço com o presente, materializado pelo Instituto que leva o nome da ex-vereadora, e o futuro, nos sorrisos e brincadeiras de Mariah e na gestação de Eloah, filhas de Anielle, que dão continuidade às gerações da família Franco.

Da primeira entrevista feita pelo Alma Preta em fevereiro de 2019 para cá, vínculos foram criados com Marinete, mãe; Anielle, irmã; Luyara, filha; e Antonio, pai. Daquele primeiro contato para março de 2020, algumas coisas mudaram, tanto na relação com a família, que se fortaleceu, quanto no luto de todos.

O que mudou?

Luyara Franco. Quem pouco falou em 2019, desta vez, brincou, deu risada e foi firme quando as perguntas exigiram. Mas o processo de luto para a filha de ex-vereadora não foi nada simples.

“O que minha mãe se tornou foi uma luta né. É muito louco eu chegar na faculdade e ver um stencil dela, com a mesma altura dela, todo dia. O luto não era uma parada minha que eu vou ficar com meus problemas e meus demônios. Era algo muito mais aberto, todo mundo sabe quem a gente é, todo mundo sabe que ela [Luyara] tá mal porque a mãe dela que faleceu”, recorda.

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Luyara encontrou maneiras de dar novos significados para a relação de carinho com a mãe, fatores descritos como importantes para enfrentar o luto. Um deles é o Instituto Marielle Franco e o outro... o Flamengo. A torcida Flamengo Antifascista, inclusive, leva aos estádios uma bandeira com o rosto da ex-vereadora. “Eu costumo falar que uma das coisas que era minha e dela, era esse nosso momento de assistir o jogo do Flamengo”, me diz.

Torcedora fanática como a mãe, Luyara também se mobiliza para reunir amigos em casa para assistir jogos do rubro-negro. Na final da Libertadores de 2019, convidou cerca de 30 amigos para um churrasco, para ver o jogo, quando a equipe carioca se consagrou campeã do torneio.

“Eu tinha outra amiga aqui que a mãe dela tinha falecido há pouco tempo também. E aí, quase no final do jogo, nos últimos minutos, eu ajoelhei dentro do quarto e ela se ajoelhou um pouco fora assim, mas eu conseguia ver ela. Aí foram as duas, eu pedindo pra minha mãe, ela pedindo para a mãe dela, sabe? E aí na hora eu sentei e a gente fez o gol. Aí eu disse: é isso mesmo que tem que acontecer. Logo em seguida, a gente virou e só festa. Tenho certeza que ela tá muito feliz e é esse ponto nosso de conexão”, diz.

Outro motivo de felicidade para Luyara e o restante da família é o Instituto Marielle Franco. O projeto era um sonho, já desenhado pela família desde 2018, e que se materializou em 2020. Ainda com um lugar provisório, mas com projetos e atividades em andamento, o Instituto também tem despertado sonhos na estudante de Educação Física da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Luyara Franco.

“Eu quero muito fazer algo com esporte pra ver essa molecada entendendo o corpo dentro da sociedade. Usando o esporte como forma de instrumento de luta. A gente pode entender o corpo e esporte como meios de transformar”, afirma.

Passado anos, há também uma nova relação, desta vez da família como um todo, com os movimentos sociais, em especial o negro e de mulheres negras. O Instituto Marielle Franco, por exemplo, é uma das organizações que compõem a Coalizão Negra por Direitos.

Marinete, quem mais costuma ser convidada para atividades, ressalta a importância desse apoio para a família: “essa acolhida tem sido uma coisa que fortalece a minha luta”.

No Rio de Janeiro, Marinete persiste o diálogo com diversos movimentos de mães que perderam seus filhos, vítimas da violência do Estado. “Nós vamos ter agora, dia 14 de março, encontro das mães depois do processo de coletiva, ato ecumênico, falas. Nós vamos fazer um almoço com essas mães de vítimas lá perto da casa. São nesses momentos que a gente tem se fortalecido. Elas têm sido exemplo também pra mim, que elas estão na luta a muito mais tempo do que eu. As dores são exatamente iguais, não dá pra você definir o que é a dor de uma mãe passar por isso. A família que nunca mais é a mesma”, diz.

O que persiste?

Visivelmente incomodado na primeira entrevista, em 2019, Antônio trouxe com bastante destaque a utilização comercial do nome de Marielle Franco, sem qualquer diálogo com a família. As ações inapropriadas, infelizmente, continuam.

“O nome da Marielle, o legado da Marielle, continua sendo usado indevidamente por algumas pessoas. Nunca tivemos participação em nem um centavo por parte dessas pessoas que estavam obtendo o lucro com a imagem”, diz ele.

Outra continuidade é a relação conflituosa com setores políticos, mesmo progressistas, que também utilizam o nome de Marielle Franco como referência, sem prestar apoio aos familiares. É o que apontou, Anielle Franco. “O que eu tenho conseguido, atingido, alcançado, eu não devo a partido nenhum, a ninguém que utiliza o nome da Marielle de maneira errada”, frisa.

Assim como tem frisado desde o assassinato de Marielle Franco, em 14 de março de 2018, Anielle enfatiza o acolhimento das mulheres negras nesse processo. “Eu devo às mulheres negras. Foram elas que me acolheram, pegaram no braço, mostraram caminhos, mostraram que isso não é algo de agora, que o nosso silenciamento vem de muitos anos e o quão importante é a gente falar e a gente conseguir e saber falar”, afirma.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
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