fbpx

Obras falam de amor, empreeendedorismo, racismo, além de biografias e estudos de caso

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/Instagram

Quando a filósofa, escritora e ativista Angela Davis reuniu cerca de 15 mil pessoas no Parque Ibirapuera, em São Paulo, em outubro de 2019 para ver uma palestra sobre o lançamento de seu livro “Uma autobiografia”, a jornalista e também escritora Bianca Santana, chamou a atenção da plateia: “muito bacana vocês viram ver a Angela Davis, que já é uma escritora consagrada, mas quantas mulheres negras vocês leram no último ano?”, questionou.

A bronca serve de alerta para o policiamento de quais narrativas as pessoas estão consumindo e ressalta que há milhares de mulheres negras brasileiras contando histórias de amor, de empreendedorismo, racismo, além de biografias e estudos de caso.

O Alma Preta reuniu dez livros lançados de novembro de 2019 até o momento para as pessoas atualizarem suas leituras. Confira:

1. Julia Drummond - Casamentos e mulheres negras

“Para quem o Direito de Família foi pensado? E quais tem sido as consequências da sua aplicação?”. O livro é fruto da dissertação de mestrado da escritora, que traz um estudo criterioso e sensível. Ela investiga de que maneira as mulheres negras são protegidas, ou não, pelo Direito de Família brasileiro e suas expectativas familiares. A autora realizou um levantamento bibliográfico e pesquisa qualitativa para perguntar às mulheres negras como constituem suas relações afetivas, quais são suas demandas familiares atuais e qual a qualidade do acesso à Justiça.

2. Najara Costa - Quem é negra/o no Brasil?

As ações afirmativas são o tema do livro lançado pela editora Dandara. A publicação é fruto da dissertação de mestrado da socióloga Najara Costa. Mestre pela Universidade Federal do ABC (UFABC), a autora discute o emprego do conceito de raça enquanto construção sociológica por membros de comissões de hetero-identificação. Para Najara, essa é a chave para o entendimento do racismo em seu formato brasileiro e em sua dimensão sociopolítica.

3. Maíra Azevedo – Como se livrar de um relacionamento ordinário

“O livro fala da necessidade de termos coragem de romper com esse ciclo violento com a gente. Inclusive, quando eu digo a gente, é comigo também. Que eu tenha coragem de romper com toda e qualquer relação que me adoeça, com toda situação que não me deixe feliz. Que tenhamos coragem de entender que podemos ser felizes. Porque aprendemos: ‘é impossível ser feliz sozinho’, mas podemos ser felizes com um amigo, com uma amiga, tem outros tipos de companhia. O afeto que mata não me faz feliz”, descreveu Maíra, em entrevista à Revista AzMina.

4. Ligia Ferreira – Lições de Resistência

Os artigos publicados em jornais reunidos no livro revelam as facetas e o pensamento do escritor, jornalista e advogado, Luiz Gama, que fez do domínio da palavra a arma para a defesa das liberdades. Gama ocupa um lugar proeminente entre os raros ativistas negros que se destacaram no Brasil antes de 1888. Foi o único abolicionista autodidata – também o único a ter sofrido a escravidão –, foi um hábil comunicador de amplo público: dos negros aos brancos, dos escravizados aos homens livres, dirigiu-se a todas as camadas da população e escapou, por meio da atividade jornalística, do silêncio e da ignorância impostos aos negros e escravizados.

5. Winnie Bueno - Imagens de controle: Um conceito do pensamento de Patricia Hill Collina

O livro é resultado da dissertação da escritora do mestrado em Direito. Conversa sobre a trajetória da pensadora norte-americana, o conceito de imagens de controle e como elas atuam para estabelecer mecanismos de dominação sobre mulheres negras, fundindo opressões de gênero, raça, classe e sexualidade. Winnie se esmera em desvelar a complexidade do pensamento de uma das mais importantes intelectuais negras contemporâneas.

6. Carla Akotirene - Ó paí, prezada: racismo e sexismo institucionais tomando bonde nas penitenciárias femininas

O livro da pesquisadora baiana utiliza dados sobre a população feminina encarcerada em Salvador para discutir a ausência de políticas públicas para essas mulheres. Tratando o encarceramento da população negra como uma epidemia, Carla faz um retrato fiel das penitenciárias brasileiras.

7. Monique Evelle - Empreendedorismo Feminino: Olhar Estratégico sem Romantismo

O livro aborda, sem rodeios, o cenário e caminho de quem deseja empreender no Brasil. Em seu primeiro livro, a empreendedora, especializada em negócios sociais, traz aprendizados a partir de relatos pessoais, levando à reflexão sobre o que é gerir um negócio e como ele pode ser positivo para todos no entorno. Monique trata de todos as etapas, das análises de contexto, estratégia e precificação ao relacionamento e comunicação, com dicas de ferramentas e, principalmente, um olhar atento para o que se passa no mundo.

8. Flay Alves - Donas de Si

O livro-reportagem conta a história de cinco mulheres nordestinas e nortistas que migraram para Goiás e tiveram suas vidas marcadas pela violência de gênero. Agressão doméstica, assédio patrimonial, abuso sexual, abandono familiar, e outros problemas estruturais como xenofobia, racismo e pobreza, são também elementos presentes em suas travessias. O livro narra como cada uma dessas mulheres, à sua maneira, reinventou o próprio destino.

9. Zélia Amador de Deus - Caminhos trilhados na luta antirracista

A autobiografia etnográfica reúne oito artigos sobre dimensões políticas, sociais e culturais que marcaram e marcam a história social e política brasileira ainda pouco conhecida. Os textos, escolhidos pela própria autora, representam o núcleo central do seu pensamento e da sua intervenção acadêmica e política dos anos 1990 até 2019. É o olhar sobre essa história produzido por uma mulher preta, como a própria Zélia faz questão de nomear a si mesma. Mas essa jamais será uma história individual. Ela faz parte de um coletivo, e é construída dessa maneira.

10. Carmen Faustino - Estado de Libido – ou poesias de prazer e cura

A escritora enaltece o erótico em seu primeiro livro de poesias. A publicação reúne parte de seus textos escritos na última década, em uma coletânea que oferece mais do que erotismo e nos convida à reflexões sobre intimidade, prazer, descobertas, autocuidado e curas, no universo de feminilidade da mulher negra.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com