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Pesquisa do IBGE mostra que a taxa de desocupação dos brasileiros negros é de 26,1%, acima da média nacional de 11%

Texto: Nataly Simões | Edição: Pedro Borges | Imagem: Pablo Jacob/Reprodução/O Globo

A taxa de desocupação da população autodeclarada negra alcançou 26,1% em 2019 e está acima da média nacional de 11%, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O contingente de negros sem emprego é de, específicamente, 13,5% entre pretos e 12,6% entre pardos.

O professor Marcos Henrique do Espírito Santo, mestre em Economia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutorando em História Econômica na Universidade de São Paulo (USP), explica que o desemprego da população negra superior à taxa do país está ligado ao processo de pós abolição da escravatura.

“Após a abolição da escravidão, houve um processo de imigração de europeus, especificamente italianos, para a criação das forças de trabalho assalariadas. Os negros escravizados, no entanto, não foram incluídos no mercado de trabalho e se espalharam pelas periferias, onde tiveram que se virar para sobreviver. Esse profundo histórico de precariedade faz com que a taxa de desemprego entre negros seja mais alta”, afirma.

A Bahia é o estado com a maior taxa de desocupação (16,4%) enquanto Santa Catarina é o estado com o maior índice de trabalhadores com carteira assinada (87,7%). O primeiro estado é majoritariamente negro, com mais de 80% da população autodeclarada negra, e o segundo possui 79,9% de seus moradores brancos.

Para Marcos Henrique, a disparidade dos dados do mercado de trabalho nos dois estados está ligada às consequências do racismo estrutural.

“A Bahia é um estado pouco industrializado e com uma enorme pobreza, que vem desde o período colonial. Santa Catarina é o oposto, um estado pequeno, relativamente industrializado pelo setor têxtil e com uma população majoritariamente branca e com melhores condições de trabalho. Isso mostra como a desigualdade no país é regional e racial”, analisa.

Recorde de informalidade

A taxa de informalidade, trabalho sem carteira assinada e sem direitos empregatícios, ficou em 41,1% em 2019. Os maiores índices foram registrados no Norte e no Nordeste, Pará (62,4%) e Maranhão (60,5%), e os menores no Sul e no Centro-Oeste, Santa Catarina (27,3%) e Distrito Federal (29,6%).

O professor de economia destaca que a informalidade é uma das principais características do mercado de trabalho brasileiro. “A despeito de termos atingido no ano passado o maior grau de informalidade, é preciso destacar que o trabalho informal é uma característica estrutural do mercado de trabalho em nosso país. Na última década, o percentual de informalidade vem despencando, mas sempre tivemos pelo menos um terço da população nessa condição”, pondera.

A cor do trabalho informal

Uma das áreas caracterizadas pela informalidade é a do trabalho doméstico. Dados do IBGE dão conta de que no fim de 2018 somente 28% dos empregados domésticos tinham carteira assinada.

A precarização desta força de trabalho contraria a declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, a respeito das empregadas domésticas, majoritariamente negras, conforme lembra Marcos Henrique. Na semana passada, após o dólar chegar em R$4,35, o quarto recorde consecutivo, o ministro disse que o câmbio a R$ 1,80 permitia empregadas domésticas a irem à Disney, parque de diversões temático sediado nos Estados Unidos.

“Qual é a cor do trabalho informal no Brasil? Nós temos 7 milhões de trabalhadores domésticos no país e a maioria são mulheres negras. Esse tipo de conflito [a fala de Paulo Guedes] faz parte da nossa formação cultural e social e portanto não há ruptura, ao menos que haja uma revolução. Contudo, conseguimos atenuar isso com a implementação de políticas públicas a curto prazo”, complementa.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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