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Monumentos de mulheres das religiões de matriz africana sofrem vandalismo de tempos em tempos em Salvador

Texto: Guilherme Soares Dias I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução

A negação e a perseguição às religiões de matriz africana são o mote do vandalismo à monumentos que homenageiam figuras ligadas ao candomblé, em Salvador, segundo especialistas ouvidos pelo Alma Preta, que o classificam como “terrorismo religioso”. Só no último ano foram pelo menos três casos. Apesar de a cidade turística ser conhecida como “Roma negra”, em referência à centralidade das religiões de matriz africana e atrair pessoas curiosas para conhecer mais do candomblé e da umbanda, há pouca memória no espaço urbano em alusão às figuras e as homenagens que existem estão sob constante ameaça. 

O historiador André Luís Souza de Carvalho é especializado em História Social e Cultura Afro-brasileira, e mestre em Educação e co-fundador do Experiência Griô, que leva visitantes para conhecer mais da história negra de Salvador. Ele afirma que há “carência” na representação de monumentos que retratem o papel da cultura negra na sociedade. “O que temos é muito pouco. A memória é um campo de disputa. Toda a elite que vem construindo narrativa tem intenção de construir determinado tipo de memória. Eles negam, silenciam, reduzem a história do negro e da África”, explica.

A baixa representatividade de personagens negros em Salvador, assim como em outras cidades do Brasil, é segundo o historiador, intencional. “Há uma negação na escola, nos livros didáticos e que ocorre não só nos monumentos, mas em nome de rua, de escola”, avalia. Já as depredações dos monumentos existentes ocorrem por conta do preconceito religioso. “As casas de candomblé também sofrem, uma vez que já tivemos casos de incêndio”, lembra.

Carvalho acrescenta que os missionários portugueses já faziam essa negação e perseguição ao chegar ao continente africano e que hoje a sociedade brasileira vem reproduzindo esse sentimento. “É um ódio que não começou agora, mas que atualmente está relacionado sobretudo às igrejas neopentecostais. Há uma violência física, mas também violência simbólica. Precisamos refletir o papel da memória e que memória queremos construir”, considera.

A Experiência Griô, conduzida pelo historiador, é uma aula de campo que faz justamente esse resgate mostrando, por exemplo, que o Pelourinho, hoje um espaço de lazer, teve origem no sofrimento das pessoas negras. “Fazemos um regaste dessas histórias”, conta.

A ialorixá Nivia Luz, que é turismóloga e mestre em Cultura e Sociedade, ressalta que o Brasil vive um problema do entendimento do que é o patrimônio. “Não fomos cuidados a zelar por nossos bens. Quando vemos monumentos específicos sendo depredados percebemos que ainda há racismo e intolerância interligados. Não há respeito com questão racial”, salienta.

Nivia reitera que casos de intolerância tem crescido. “Há ações de pessoas que colocam Jesus na frente e nos demonizam. Vivemos uma guerra religiosa, que se acirra, isso é terrorismo religioso”, classifica. A turismóloga lembra que destruir algo que é referência para um grupo é uma violência psicológica que precede a violência física. “Nada impede de atacar membros daquela religião, ataques físicos, ataques aos templos religiosos. São diversas formas de violência que são construídas e naturalizadas”, ressalta.

Os terreiros foram perseguidos pelo estado até 1976, que por meio da polícia fechava templos religiosos de matriz africana. “Hoje há uma negação. Precisamos perceber as conquistas de lá para cá, mas também ver o que se acirrou”, afirma Nivia.

A turismóloga diz ainda que em Salvador existe uma reivindicação de delegacia específica para as questões de intolerância religiosa, assim como existe no Rio de Janeiro, mas questiona o fato de ter apenas um lugar para essas denúncias e mesmo do papel da polícia, que não costuma ser aliada do povo negro. Ela ressalta que o vandalismo “não é fato isolado” e que há risco do acirramento das tensões entre religiões retomarem o período de depredações. “É um debate profundo, é importante pensar em aprendizado patrimonial. Há um olhar colonial pela memória e pela história. Salvador é um museu a céu aberto, toda rua tem força, expressão e energia. Os gestores dessa cidade vendem muito bom isso, a ‘Roma negra’ mas não temos o retorno. O povo negro, o povo de santo, vive lutando pela sobrevivência”, ressalta.

Depredações

O busto que homenageia Mãe Gilda, localizado no Parque do Abaeté, no bairro de Itapuã, em Salvador, foi vandalizado no dia 15 de junho. Segundo a Polícia Militar, o suspeito começou a apedrejar o monumento dizendo que foi "à mando de Deus". Muitas partes do busto ficaram quebradas. Ele foi levado delegacia, mas solto na sequência.

Em 2016, o monumento da Ialorixá também foi alvo de vandalismo e precisou ser reformado.Em dezembro de 2019, uma estátua de baiana do acarajé que ficava na frente do memorial da Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau e Receptivos da Bahia (ABAM), no Centro Histórico de Salvador, foi destruída após ser incendiada. A presidente da ABAM, Rita Santos, afirmou que o ato de vandalismo foi causado por intolerância religiosa. A identidade de quem atacou o monumento não foi identificada e a estátua destruída não foi substituída por outra.

Em setembro de 2019, a estátua construída em homenagem à Mãe Stella de Oxóssi foi vandalizada durante uma madrugada. A escultura, localizada na entrada da avenida que leva o nome da líder religiosa falecida em 2018, amanheceu com pichações e teve a placa com a marca da prefeitura arrancada. O monumento havia sido inaugurado cinco meses antes. A Ialorixá pertencia ao Terreiro Ilê Axé Opó Afonjá e era escritora e ativista.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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