Jovem fala sobre adversidades e barreiras sociorraciais encontradas durante a vida para conseguir o título de doutora em letras

Texto / Franciane Silva*
Imagem / Arquivo pessoal

No dia 13 de abril de 2018, em uma sexta-feira 13, defendi a minha tese de doutorado. Há 15 dias, esta filha de dona Luciene, ex-empregada doméstica que estudou até a segunda série do ensino fundamental, e de seu Ramiro, trabalhador rural aposentado - que nunca teve acesso à educação formal -, tornou-se doutora em letras. Desde o dia da defesa, venho pensando em uma maneira de dizer da significância desta conquista na minha trajetória de mulher negra, pobre, nordestina, nascida em uma tarde ensolarada de primavera na pequena cidade de São José da Vitória, interior da Bahia.

Desde o dia em que me tornei doutora, as recordações das manhãs de sol escaldante, quando vendia frutas na feira para ajudar no sustento de casa, se fizeram mais presente em minhas memórias. Junto com essas lembranças desse meu primeiro trabalho, aos 9 anos de idade, muitas outras vieram.

Algumas lembranças reabriram feridas que pareciam cicatrizadas: o impedimento de ir para um evento porque não tinha dinheiro para comprar uma calça jeans, a acusação de roubar um lápis, aos 10 anos de idade, porque alguns colegas não se conformavam com os elogios que a professora fazia à “neguinha” inteligente, o trabalho de vendedora em um estabelecimento comercial, onde trabalhava 12 horas por dia, para ganhar a metade da metade de um salário mínimo.

De olhos marejados, busco outras recordações. Olho e vejo o meu pai chegando suado do trabalho estafante nas fazendas alheias, na labuta diária para não deixar faltar comida em casa. Olho e vejo a minha mãe fazendo tranças no meu cabelo. Olho, uma vez mais, e a imagem de mãe com o dedo em riste, me defendendo da vizinha racista, se avulta.

Fecho os olhos e ouço a voz de minha vó Carminda: “você fala bonito e aprumado. Você vai ser igual a essa mulher da televisão”. Dizia, apontando para a apresentadora do jornal. Vó jaz em silêncio.

Pai e mãe voltam para a cena. Vejo os dois falando com os olhos brilhantes da filha que só tirava nota boa na escola. Vejo os dois na comemoração do término do meu ensino médio. Relembro a alegria extasiante dela e dele celebrando a minha aprovação no vestibular. Relembro o meu primeiro dia de aula na graduação e a responsabilidade que carregava por ser a primeira de uma imensa família paterna e materna a estudar em uma universidade. Rememoro o sorriso alegre das minhas irmãs e irmãos, tios e tias, primos e primas, amigos e amigas, vizinhas e vizinhos, aplaudindo extasiados o meu discurso de oradora da turma, na minha formatura da graduação. No auditório lotado, a imagem de mãe e pai se destacava. Lembro-me dos dois admirados com o meu discurso: “tem que ser muito inteligente para escrever um texto bonito daqueles”.

Anos depois, Mãe e Pai assistem à defesa do meu mestrado. Eles não entendem direito toda aquela falação, mas sabem que é uma coisa muito importante, sobretudo, para pessoas que vieram de onde viemos.

Franciane, com os pais, dona Luciene e seu Ramiro (Imagem: Arquivo pessoal)

Em 2014, inicio as aulas no doutorado. O primeiro ano é difícil. Não consigo a bolsa. Preciso viajar toda semana. Quase 230 quilômetros separam Viçosa de Belo Horizonte. A cada semana sou acolhida em uma casa diferente. O cansaço é grande, minhas forças parecem se esvair. Ouço as palavras encorajadoras da minha mãe, palavras sérias em tom descontraído: “você não é fraca não, hein?!”. Meu pai, em tom mais cerimonioso, me diz: “estou orando por você”.

Volto para o dia 13 de abril de 2018. Meu pai e minha mãe estão sentados na primeira fileira da sala cheia de gente querida. Ela e ele olham admirados, encantados com o falar “bonito e aprumado” da filha. A defesa dura cinco horas. Pai cochila meio entediado. Mãe olha para o celular e ri de alguma coisa engraçada. A última debatedora da banca faz os seus apontamentos. Mãe e pai voltam a prestar atenção na defesa. A batalha parece estar chegando ao fim.

Faz-se um pequeno intervalo para a banca deliberar. Estamos ansiosos. A presidenta da banca faz a leitura do parecer. Todos e todas vibram ao ouvirem as palavras mágicas: APROVADA com louvor! Faço um discurso-desabafo: “Sou doutora com doutorado. Penso e resisto. Não conquistei esse título por simples mérito, mas porque tive pessoas que me deram oportunidades e acreditaram no meu potencial”.

Choro. Mãe chora comigo. Ela é a primeira a abraçar a filha doutora. Me abraça forte e fala emocionada: “esperei muito por esse momento”. Meu pai se aproxima, me abraça e diz: “a luta foi grande, mas você venceu”.

O momento chegou por você, Mãe. Venci a luta para você, Pai. Esse doutorado é nosso.

* Texto publicado por Franciane Silva em seu perfil no Facebook, sobre a sua trajetória até tornar-se doutora em letras.

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