Texto Vinicius Martins / Ilustração Vinicius de Araújo

As representações raciais estereotipadas, criadas no fim do século XIX, persistem na imprensa até hoje

A escravidão permeou toda a colonização brasileira e mais meio século da independência. Inicialmente restrita aos indígenas, teve a participação dos povos africanos aproximadamente 50 anos após a chegada europeia às terras brasileiras. Estima-se que cerca de 3,5 milhões de negros tenham sido trazidos forçadamente da África ao Brasil.

A dominação de classe e de cor de brancos contra negros durou cerca de três séculos. Foi construída em cima da exploração e apropriação violenta do imperialismo europeu. Apenas em 1822 o Brasil daria fim ao regime escravocrata. Último país da América a deixar o modelo.

Nesse contexto de transição que trazia o fim da escravidão e a transformação do Brasil império em Brasil república, inúmeras representações e estereótipos a respeito dos afrobrasileiros foram criadas.

O livro “Retrato em Branco e Negro” da antropóloga Lilia Moritz retoma algumas ideias e representações da época. A partir do estudo dos primeiros jornais da cidade de São Paulo. A análise faz um recorte d’A Província de São Paulo (atual Estadão), do Correio Paulistano e A Redempção (jornal abolicionista).

Datados do meio do século XIX ao início do século XX, as notícias e anúncios publicitários estudados fornecem um retrato das relações raciais durante o processo de abolição. A cidade de São Paulo vivia um intenso momento de desenvolvimento. Construiu-se a primeira Faculdade, as primeiras ferrovias e a população cresceu exponencialmente.

Diante da aproximação da inevitável abolição da escravidão, a população negra passa a figurar cada vez mais nos jornais. Um emaranhado de representações vem à tona. Embasadas pelo discurso científico-positivista da época, o negro é retratado de forma inferior, como uma sub-raça humana. Essas ideias também foram responsáveis por motivar as políticas de branqueamento da sociedade brasileira no mesmo período.

O jornal conservador Correio Paulistano, alinhado aos interesses do Império, se portava de forma mais agressiva à questão negra. Haviam constantes afirmações dos negros como um problema para a sociedade, como raça que inferiorizaria a sociedade e marcada por estigmas como a violência animal e o vício.

A Província de São Paulo próximo aos repúblicanos se colocava como um jornal “imparcial” e moderno. Fazia constante uso do discurso do progresso e da ciência. Essas visões se expressavam na forma de retratar a realidade paulista daquela época. O negro era visto como inferior por um discurso científico hegemônico que hierarquizava as qualidades de cada povo humano e tinha como modelo de raça evoluída os brancos europeus e seus descendentes.

O terceiro jornal analisado foi A Redempção. O veículo era pró-abolicionista radical dentro do debate da escravidão. Entretanto, cabe ressaltar, era um veículo dirigido por brancos pertencentes à elite paulista. Ou seja, era um olhar ainda distante das reais necessidades que a população negra cativa tinha na época.

Dentre as diversas representações dos afrobrasileiros nesses jornais podemos identificar ideias presentes até hoje no imaginário social. O negro foi representado como ser violento e bárbaro, incapaz, imoral, sexualizado (sobretudo as mulheres). Sempre elogiado quando assumia os papéis sociais que lhe impunham (docilidade). Suas manifestações culturais eram vistas ora como bárbarie, ora como exóticas. Tal fato marcou profundamente o Samba, a Capoeira e as atividades religiosas (vistas como feitiçaria ou magia impura). Por outro lado, a elite branca era vista como exemplo de ser humano a ser seguido, sempre acompanhadas de elogios e exaltações às qualidades dos senhores de escravos.

Lilia Moritz faz um ótimo recorte ao evidenciar que a imprensa daquele período histórico era um grupo restrito de brancos pensando sobre negras e negros objetificados. Cabe reforçar que nunca havia espaço para a voz e a figura negra a partir de seu próprio olhar. Tal fato está ligado às origens e composições da atividade jornalística, uma profissão liberal em sua essência e ligada às classes médias altas.

As representações e estigmas propagados pelos jornais daquela época se difundiram ao passar dos anos. Ou seja, mantiveram-se vivos, entretanto, implícitos nas entrelinhas dos jornais até hoje. A profissão de jornalista ainda é branca (cerca de 22% dos profisssionais é afrobrasileira). O negro ainda figura restrito em determinadas seções dos jornais, como as páginas policiais, de cultura ou esporte. Quase sempre reafirmando antigos estereótipos negativos.

Se os jornais são capazes de construir uma representação de mundo ética e estética nas sociedades em que estão inseridas, pode-se dizer que o racismo e o preconceito à cor negra estiveram presentes na mídia burguesa do século XIX. O racismo se construiu e se difundiu a partir das páginas dos periódicos de ontem e de hoje.

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