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Região que concentra moradores de rua e usuários de drogas, em sua maioria negros, foi alvo da primeira intervenção policial de 2020 no dia 15 de janeiro

Texto: Nataly Simões | Edição: Pedro Borges | Imagem: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Intervenções policiais na Cracolândia, região central de São Paulo, não são eficazes para combater o tráfico de drogas, conforme avaliam especialistas ouvidos pelo Alma Preta. A primeira ação policial de 2020 na região que concentra moradores de rua e usuários de drogas terminou com seis pessoas presas por associação ao tráfico e um policial militar baleado na quarta-feira (15). Uma pesquisa da Open Society aponta que a maioria das pessoas, em torno de 68%, que vivem no local se autodeclaram negras (pretas ou pardas).

“As pessoas presas em operações policiais são traficantes pequenos e o grande tráfico continua a acontecer na região. Por isso, as operações não resolvem o problema. É apenas uma justificativa para violar os direitos das pessoas em situação de vulnerabilidade social”, afirma Helena Rodrigues, secretária executiva da Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD).

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) divulgou que a ação policial aconteceu após a Polícia Militar receber uma denúncia de tráfico de drogas na região e sem o uso de arma de fogo. Testemunhas relataram que houve o uso de munição química, como bombas de gás lacrimogêneo.

Para Daniel Mello, militante do “Craco Resiste”, movimento contra a violência policial na Cracolândia, a alegação de que houve uma denúncia de tráfico de drogas se trata de uma tentativa de justificar a ação da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal no território.

“A PM e a GCM atacam indiscriminadamente centenas de pessoas com gás lacrimogêneo e balas de borracha sob a justificativa de que há um combate ao tráfico de drogas. Centenas de pessoas são presas sob acusações que vão do tráfico ao desacato, mas as apreensões não superam poucas gramas de substâncias ilícitas e as pilhas de moedas. É a guerra às drogas crua no meio da rua, vitimando a população negra”, sustenta.

Governos diferentes, mesma política

Desde que João Doria (PSDB) assumiu a gestão do governo do estado, em janeiro de 2019, não foram implementadas novas políticas públicas a fim de atender às necessidades da população que vive no território da Cracolândia.

Michel de Castro Marques, integrante do Conselho Municipal de Drogas de São Paulo, explica que não existe integração entre os serviços presentes na região. Para ele, Doria segue a mesma política de Geraldo Alckmin.

“A área da saúde interage pouco com a de assistência social, que por sua vez não dialoga com a área de segurança pública, ou seja, não há uma política integrada. A única política pública presente e herdada de Alckmin é a que atinge a população mais sofrida, em grande maioria negra, que é a de extermínio”, pontua.

Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), enviados em nota ao Alma Preta, apontam que de maio de 2017 a dezembro de 2019, as ações policiais na região da Cracolândia resultaram na prisão de 3.085 pessoas, na apreensão de mais de uma tonelada de drogas. Ainda segundo a SSP, no período também foram apreendidas 67 armas de fogo, 226 facas, 1.479 munições de diversos calibres, 416 balanças de precisão e mais de 1,5 milhões de reais.

Desapropriação

Em abril de 2018, cerca de 200 famílias foram despejadas de suas casas na região da Cracolândia. A retirada da população da região fazia parte do projeto “Campos Elíseos Vivo”, que prevê a construção de cerca de 3.500 unidades habitacionais, espaços comerciais e equipamentos públicos nas áreas vazias e subutilizadas da área central de São Paulo.

De acordo com Michel de Castro Marques, integrante do Conselho Municipal de Drogas, a especulação do mercado imobilário na região está ligada à violência que atinge a população marginalizada ocupante da região.

“Há uma especulação da gentrificação que atinge a população negra e pobre que sempre ocupou a região. A ‘guerra às drogas’ é também uma justificativa para que o território seja limpo para as pessoas mais ricas poderem ir e vir na cidade”, avalia.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
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