Religiões de matriz africana se engajam na campanha sanitária contra a epidemia

Texto / Juca Guimarães / Edição / Simone Freire | Imagem / Tania Rego / Agência Brasil

Terreiros e estabelecimentos religiosos de matriz africana suspenderam suas atividades na cidade de São Paulo (SP) para conter a proliferação do Covid-19, o novo coronavírus. As ações seguem a determinação da Justiça do estado, que proibiu a realização de missas, cultos ou quaisquer atos religiosos que impliquem reunião de fiéis.

Hédio Silva Júnior, coordenador-executivo do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-brasileiras (Idafro), frisa que o fechamento de muitos terreiros veio antes mesmo da decisão do judiciário. “Isso confirma o nível de responsabilidade social das nossas lideranças”, diz, enfatizando a co-responsabilidade de todos no combate à pandemia no país.

A mesma linha segue Filipe Brito, diretor-geral da Ocupação Cultural Jeholu e Baba Ẹgbẹ do Ille Odẹ Maroketu Àṣẹ Ọba, em São Paulo, (SP) para quem a participação dos terreiros na campanha mundial de combate ao coronavírus é fundamental. “É um processo de pertencimento à sociedade, de responsabilidade sanitária e social”, diz.

“Na rotina dos terreiros há o descanso, antes do contato com demais, os banhos de folhas. Mas apesar de todos os cuidados, há inevitavelmente o contato pessoal, por isso, as atividades foram suspensas. Continuar seria expor os mais vulneráveis, sobretudo os idosos, os nossos mais velhos, que são tão importantes em nossa tradição”, explica o Baba Felipe.

Diante do isolamento, quem segue a religião do candomblé, por exemplo, busca nos ensinamentos religiosos dar continuidade às práticas do autocuidado, do rotineiro uso de folhas e ervas para ajudar na prevenção de doenças.

Tal rotina, e a necessidade de se isolar, tão comum em terreiros, pode ser um momento importante para filhos e filhas de santo, como aponta Iyalorisa Omi Lade, líder do terreiro Ègbé N'la Yemọja, em São Paulo. “Para quem é de orixá, essa coisa de ficar sozinho é de extrema importância. As pessoas podem contemplar a possibilidade de pensar na vida”, diz.

Tecnologia

A Iyalorisa tem usado muito as redes sociais para manter a sua rotina de sacerdotisa. “Tenho agradecido a Ogum pela tecnologia e a Exú pelo poder da palavra. Estou usando essas dádivas dos orixás da melhor maneira possível, através de boas palavras e orientações nas redes sociais. E para quem me procura no particular eu respondo pelo inbox, pelo direct ou pelo WhatsApp”, diz Omi Lade.

Seu vídeo no Youtube, gravado pela TV Odara, onde fala sobre a pandemia, alerta sobre as fake news e explica sobre a suspensão das atividades no seu terreiro, teve mais de mil visualizações.

Segundo Omi Lade, como sacerdotisa de candomblé, ela acredita que a vida é o bem maior da humanidade. Por isso, os povos de terreiro estão empenhados em ajudar o seu entorno na contenção do vírus. “Os povos de matriz africana estão fincados nas periferias, nas regiões mais pobres. E esses terreiros dão assistência às famílias mais pobres desses território. Neste momento, o cuidado com os mais vulneráveis deve ser maior”, disse Brito.

A Ocupação Cultural Jeholu, movimento que reúne 12 terreiros de São Paulo, lançou uma campanha no Instagram. O mote é “Cuide de quem você ama...fique em casa” para incentivar o isolamento social.

Todas as segundas, às 19h, sacerdotisas e sacerdotes de religiões de matriz africana de todo o país participam de uma oração coletiva proposta pela Mãe Carmen, do Ilé Iyá Omi Ase Iyamasé de Gantois, na Bahia.

A ideia foi disseminada pela internet e vai até agosto, mês de celebração dos orixás da cura. “Humildemente proponho estarmos unidos em pensamento e uníssonos com os senhores da Terra”, diz o comunicado divulgado pela internet e listas de WhatsApp.

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