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Usando a hashtag #CoronaNasPeriferias, eles questionam que a maioria das providências estabelecidas pelo governo não se aplicam à realidade dos moradores

Texto / Redação | Edição / Simone Freire | Imagem / Reprodução

Dezenas de comunicadoras e comunicadores das periferias e favelas de todo o país lançaram uma carta pública, nesta quinta-feira (19), em que reúnem esforços para informar seus territórios sobre ações relacionadas ao Covid-19, o coronavírus.

Usando a hashtag #CoronaNasPeriferias, eles questionam no documento que a maioria das providências estabelecidas pelos governos federal, estaduais e municipais para conter a disseminação do vírus não se aplicam à realidade dos moradores de territórios periféricos e favelas do país.

“O governo e várias organizações indicam o isolamento social como o principal meio de prevenção da doença. Isso não é permitido à nossa realidade! A periferia é a empregada doméstica, o porteiro, o motorista de app, o entregador, o trabalhador informal que precisa estar no busão e no metrô vendendo seus produtos para levar renda pra dentro de casa ou o comerciante local que não pode suspender suas atividades”, escrevem.

Confira a íntegra da carta e seus signatários:

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Estamos diante de uma pandemia. A palavra ainda soa estranha para muita gente e tudo que ela carrega por trás também.

Covid-19, o que todos conhecemos por coronavírus, chegou ao Brasil e seus efeitos são reais. Há infectados, há mortos.

Para conter maiores problemas os governos federal, estadual e municipal - muito timidamente ainda - têm divulgado e estabelecido uma série de ações às quais a população inteira do país precisa se submeter.

No entanto, mais uma vez, as favelas, periferias, guetos, quilombos, sertões e toda população à margem está à mercê da sua própria sorte.

Vamos começar pelo básico: lavar as mãos! Esta tem sido uma recomendação amplamente divulgada. Como é possível que isso seja realmente feito a fim de evitar a contaminação se a quebrada e a favela estão sem água?

O governo e várias organizações indicam o isolamento social como o principal meio de prevenção da doença. Isso não é permitido à nossa realidade!

A periferia é a empregada doméstica, o porteiro, o motorista de app, o entregador, o trabalhador informal que precisa estar no busão e no metrô vendendo seus produtos para levar renda pra dentro de casa ou o comerciante local que não pode suspender suas atividades.

O quanto nossos patrões estão dispostos a seguir os passos que a humanidade pede e permitir que cada um destes profissionais pratique o isolamento e mesmo assim pagar seus salários?

Ficar em casa, se isolar, não pode ser sinônimo de falta de renda. Se for assim, como garantir que a população periférica consiga comprar sequer um álcool em gel para ajudar na prevenção da contaminação? Se o governo vai ajudar os grandes empresários a não quebrar, vai ajudar ao favelado pagar suas contas também? Vai ajudar a senhora que vende guarda-chuva na esquina a não quebrar?

O foco agora é fazer o máximo de esforço para se conter a disseminação da doença. É tentar fazer com que o número de infectados possa ter atendimento hospitalar gradualmente e, ao mesmo tempo, evitar um colapso no Sistema Único de Saúde (SUS), tão negligenciado e abandonado pelo poder público, mas tão necessário e um marco no enfrentamento a tudo que ainda está por vir para conter o Covid-19, o coronavírus. 80% dos usuários do SUS são pretos e pretas.

Diante de tantas recomendações, a periferia - mesmo sendo a mais afetada -, ainda não está conseguindo participar e se informar como realmente precisa. Precisamos saber apontar caminhos que realmente levem as nossas realidades em consideração.

É aí que entramos. Nós, comunicadores periféricos e periféricas de várias partes do país, estamos juntando esforços para colaborar com informações precisas e que realmente consigam alcançar os nossos. Precisamos saber informar nossas crianças, nossos jovens, nossos idosos, nossos pais, mães e familiares. De nós para os nossos!

Assim, lançamos uma coalizão nacional de enfrentamento ao coronavírus através da frente #CoronaNasPeriferias

Assinam esta carta:
Priscilla Castro - Coletivo Nós por Nós (GO)
Marcelo Vinícius - Coletivo Duca (DF)
Tony Marlon I Campo Limpo, SP
Thiago Borges I Periferia em Movimento, Grajaú, SP
Mariana Belmont, Parelheiros, SP
Simone Freire -Alma Preta / Preto Império - Brasilândia (SP)
Dimas Reis - Preto Império - Brasilândia (SP)
Wallace Morais - Vozes das Periferias (SP)
Cesar Gouveia - Vozes das Periferias (SP)
Antonio Benvindo - Instituto Cultural Coletivo Semifusa/Ribeirão das Neves (MG)
Buba Aguiar - Coletivo Fala Akari (RJ)
Pedro Stilo - Coletivo pão e tinta / Jornalistas livres (PE)
Tainá Oliveira Barral - Na Cuia Produtora Cultural (PA)
Kalyne Lima - Vila Manoel Satiro - Jornalistas livres (CE)
Ingrid Farias - Brasília Teimosa - Escola Livre de Redução de Danos (PE)
Bruno Sousa - The Intercept Brasil - Favela do Jacarezinho (RJ)
Pedro Borges - Alma Preta (SP)
Raull Santiago - Coletivo Papo Reto (RJ)
Gizele Martins - Coletivo MARÉ 0800 (RJ)
José Cícero - DiCampana Foto Coletivo (SP)
Lucas Barbosa - Usina de Valores (RJ, SP, BA, PE)
Marcela Lisboa - Usina de Valores (RJ, SP, BA, PE)
Francisca Rodrigues - Agência Paraisópolis (SP)
Bruna Hercog - CBCOM e Rede ao Redor (BA)
Adriana Gerônimo - JBD Lagamar - Fortaleza (CE)
Rebeca Motta - Jornal Embarque no Direito - Jd. ngela ( SP)
Rosalvo Neto - Instituto Mídia Étnica / Correio Nagô (BA)
Wellington Frazão - Periferia em Foco - Belém do Pará (PA)
Gisele Alexandre - Agência Mural de Jornalismo das Periferias (SP)
Renato Silva - Favela em Pauta (RJ)
Alex Hercog - CBCom (BA)
Lucas Abreu Antonio - Jaçanã (SP)
Rick Trindade - Itabuna (BA)
Clara Bispo - Movimento Pela Paz na Periferia: Família MP3 - Teresina (PI)
Riviane Lucena - Embarque no Direito (SP)
Jéssica Moreira - Nós, mulheres da periferia (SP)
Jefferson Barbosa – PerifaConnection - Voz da Baixada (RJ)
Michel Silva - Fala Roça (RJ)
Daiene Mendes - Favela em Pauta (RJ)
Tiê Vasconcelos - Voz das Comunidades (RJ)
Biatriz Santos - Coletivo de Juventude Negra Cara Preta - Camaragibe (PE)
Rodrigo Gonçalves Benevenuto - Coletivo Salve Kebrada (SP)
Lola Ferreira - Magé, Baixada Fluminense (RJ)
Amanda Pinheiro - Fala Roça - Rocinha (Rj)
Eloi Leones - data_labe - Rio de Janeiro
Marcelo Rocha - São Paulo, na visão dos cria - Mauá (SP)
Mirian Fonseca- Lauro de Freitas -
CBCOM (BA)
Anderson Meneses - Agência Mural de Jornalismo das Periferias (SP)
Muller Silva - ONG Interferência (Capão Redondo - SP)
Mariana Assis- Voz das Comunidades (RJ)
Yane Mendes - Rede Tumulto - Recife (PE)
Natália Bezerra - Recife (PE)
Taís Sales de Moraes - Cine e Rock - Rio das Pedras (RJ)
Walter Oliveira da Silva - Coletivo Jovem Tapajônico - Caranazal, Santarém (PA)
Gabriel Santos - Movimento Afronte - Projeto Alternativo para Meninas e Meninos de Rua - Erê - Vila Brejal, Maceió (AL)
Jusciane Rocha - Belém (Pa)
Naldinho Lourenço - LABirinto Agência Maré (RJ)
Aline Rodrigues - Periferia em Movimento (SP)
Jessica Ipolito - Revista Afirmativa - Salvador (BA)
Anisio Borba - LABirinto Agência Maré (RJ)
Lívia Lima - Nós, mulheres da periferia (SP)
Enderson Araujo - Mídia Periférica (BA)
Juliana Pinho - LABirinto Agência Maré (RJ)
Andreza Delgado - Capão Redondo São Paulo
Wesley Teixeira - Morro do Sapo na Baixada Fluminense (RJ)

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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