Militante também é publicitária, cantora e atriz; Líderes de ocupações classificam sua prisão como criminalização do movimento por moradia

Texto / Nataly Simões | Edição / Pedro Borges | Imagem / Reprodução

Janice Ferreira da Silva, mais conhecida como Preta Ferreira, está encarcerada em São Paulo desde 24 de junho. Ela é uma das lideranças da Ocupação 9 de Julho, no centro da cidade, onde vivem centenas de famílias.

Nascida na Bahia, Preta completou 35 anos no último dia 5 de agosto e é a irmã mais velha de oito irmãos. Formada em publicidade, também é cantora, atriz e atuou em videoclipes de músicos renomados como Criolo e Maria Gadú.

Preta também é a atriz principal do premiado longa-metragem da diretora Eliane Caffé, chamado Era o Hotel Cambridge. O filme narra a história da convivência entre o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e um grupo de refugiados recém chegado ao Brasil durante a ocupação de um prédio abandonado no centro de São Paulo.

A relação da baiana com o movimento por moradia começou ainda na infância e pela necessidade. Em entrevista à revista Marie Claire, Preta conta que sua mãe saiu da Bahia deixando ela e os outros filhos para fugir do marido que a agredia.

“Ela dormiu na rua, morou em albergue e depois conheceu o movimento de moradia. Aí sim pôde ter um lar e nos buscar. Fomos todos morar na ocupação Nove de Julho”, lembra.

Preta morou na ocupação que fica na região central da capital até 2002, mas as melhores condições de vida não a fizeram se afastar da militância no Movimento Sem Teto do Centro (MSTC).

“No movimento de moradia eu aprendi a ter direitos, aprendi que podia estudar, aprendi a ter senso de coletividade. Isso me empoderou como mulher e cidadã”, afirma.

Hoje Preta é referência na liderança de reivindicações por moradia para famílias de baixa renda e usa sua experiência na área cultural para buscar projetos para os moradores da ocupação.

Prisão arbitrária e mobilização por liberdade

Preta Ferreira foi presa junto a outros líderes de movimentos por moradia. Todos foram acusados de extorsão. Sidney Ferreira Silva, irmão de Preta, também está preso mesmo não fazendo parte do MSTC.

O inquérito se baseia em denúncias de 13 testemunhas anônimas e é um desdobramento da investigação do incêndio que resultou no desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo Paissandú, em 1º de maio de 2018.

Para o coordenador do Movimento de Moradia da Região Central (MMRC), Nelson da Cruz Souza, a prisão de Preta se trata de uma estratégia do governo para mostrar à sociedade que as pessoas dos movimentos são criminosas.

“Eles não têm capacidade de lidar com o problema de moradia, pois se as famílias fossem atendidas pelo Estado não estariam procurando essas organizações para se defender e buscar o direito da moradia”, defende.

No começo de julho, um documento que pede a liberdade de Preta e de seu irmão Sidney foi publicado em conjunto com mais de 500 artistas, produtores culturais, músicos e intelectuais.

A prisão considerada arbitrária pelos movimentos também foi denunciada ao Conselho Nacional de Direitos Humanos e à Corte Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH).

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