A tragédia com a ex-vereadora do PSOL causou comoção social e atraiu os holofotes midiáticos, mas será que a abordagem fez jus à memória dela?

Texto / Amauri Eugênio Jr.

Foto / Mídia Ninja

Desde a noite de 14 de março, quando surgiram as primeiras informações sobre a execução de Marielle Franco, que vitimou também Anderson Pedro Gomes, seu motorista, as menções ao nome e à trajetória dela tiveram grande alcance. A mesma coisa ocorreu na grande imprensa e em aspectos diversos, que passavam pela abordagem sobre a trajetória política da ex-vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, assim como o seu trabalho na Câmara dos Vereadores do município, a factoides e fatos inverídicos sobre ela.

Ainda, o programa dominical “Fantástico”, da Rede Globo, dedicou reportagem extensa sobre ela no dia 18, cujo teor foi respeitoso à memória dela, apesar de ter abordado de modo superficial o trabalho desenvolvido por ela em prol dos direitos humanos. No entanto, após o fim da reportagem, foi noticiado que o governo federal aumentaria o investimento na intervenção militar à qual o Estado do Rio de Janeiro está submetido – e Marielle era crítica ferrenha dessa iniciativa.

Tais aspectos deixam a seguinte pergunta no ar: a cobertura da imprensa foi, na média, fidedigna ao legado de Marielle Franco ou deu subsídios àqueles que criticam a defesa dos direitos humanos? “A opinião pública lamenta a morte da vereadora, mulher, jovem, bonita, batalhadora, mas acrescenta: ‘é o que dá viver defendendo bandidos’ e, subliminarmente, jogará a culpa em alguma facção adversária à que ela teria defendido. O que pode ter faltado dizer é que esse crime está diretamente ligado à intervenção no Rio de Janeiro e foi um recado explícito àqueles que pensam em combater os intermináveis desmandos e a corrupção na insegurança e na injustiça neste País”, explica o jornalista Oswaldo Faustino, sobre o modo como a ex-vereadora foi retratada.

 

Realidade paralela + mentira descarada

Outro ponto que chamou a atenção sobre a tragédia diz respeito à produção em massa de fake news, que abrangiam desde ela ter sido eleita com votação do Comando Vermelho a até ela ter se relacionado com Marcinho VP – só não souberam dizer qual dos dois traficantes que tiveram o mesmo pseudônimo. Contudo, a página no Facebook do site “Ceticismo Político”, responsável pela propagação de notícias falsas sobre Marielle, foi retirado do ar pela própria rede social, ao passo que pesquisa Datafolha apontou que 60% dos cariocas entrevistados disseram ter recebido o falso conteúdo sobre a relação afetiva dela com VP – 45% dos entrevistados avaliaram o conteúdo como falso, enquanto 6% o levaram a sério.

Apesar de parcela significativa ter consciência sobre a disseminação de notícias falsas relacionadas à ex-vereadora, quais poderão ser os danos causados à sua imagem e à sua memória? “No caso de Marielle, essa abordagem não é casual e significa alimentar dois fatores muito comuns neste país: culpabilizar a vítima e colocá-la sob suspeita. No Brasil, ser suspeito já é ser culpado e se você não for culpado do que suspeitam, é culpado por terem suspeitado de você. Daí bem a legitimação dos autos de resistência, em que o morto estava ‘em atitude suspeita’ e as vítimas são os policiais que a executaram”, pontua Faustino.

 

Silenciamento simbólico

Monica Tereza, ex-parceira de Marielle, foi entrevistada durante a extensa reportagem sobre a tragédia e a relação entre elas foi abordada de modo sensível –algo incomum na grande imprensa, inclusive. Mas, na média, o espaço cedido à relação homoafetiva foi significativamente menor em comparação ao dado à família de Anderson Pedro.

Além disso, o simbolismo relacionado ao fato de Marielle ser uma mulher negra, vinda de uma região periférica, homossexual e filiada a um partido de esquerda foi abordado de modo secundário – isso quando foi. Esse aspecto, inclusive, é usado por adversários políticos como munição para atacar a memória da ex-vereadora. E isso é reproduzido por parcela significativa da população, que não tem acesso a notícias que fazem contraponto ao discurso sociopoliticamente hegemônico.

“Viver anestesiado pela ignorância e pela alienação é muito mais cômodo. Daí vem o fascínio de grande parte dos oprimidos pelos seus opressores. O assassinato de Marielle é, sim, de imensa comoção: trata-se de mulher negra, favelada, homossexual, esquerdista e combativa, só pra ficar em alguns fatores. É de uma contundência sem limites, mas como isso incomoda o povo desse país”, ressalta Oswaldo, com contundência, ao falar sobre o papel da imprensa na cobertura da tragédia de Marielle Franco: “aos olhos dessa mídia, ela teve culpa por sua execução. Ousou enfrentar, de peito aberto, uma força maldita naturalizada e até mesmo geradora de certa simpatia da opinião púbica.”

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