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Para especialista em economia urbana e gestão pública, a cidade de São Paulo possui um padrão de segregação social e racial que se reflete no serviço de transporte coletivo, com tarifa reajustada em janeiro

Texto: Nataly Simões | Edição: Pedro Borges | Imagem: Acervo pessoal

Sair de casa às seis horas da manhã e retornar após às dez horas da noite faz parte da realidade de milhões de pessoas que precisam se deslocar das periferias da Grande São Paulo para a região central da maior cidade do país em busca de melhores oportunidades de trabalho e de estudo.

Essa foi a rotina de Camila da Silva, de 19 anos, durante dois anos, período em que a jovem estudava e trabalhava. Moradora do Jardim Fortaleza, em Guarulhos, município da região metropolitana de São Paulo, a estudante que está desempregada ainda precisa fazer um percurso de mais de 30 quilômetros entre sua casa e a universidade onde é bolsista, em Higienópolis, na centro da capital.

“Para chegar na faculdade às 13h, eu saio de casa às 10h. Preciso pegar um ônibus intermunicipal até a estação Tietê ou Armênia e o Metrô da Linha Azul até a Amarela. Em um dia normal, levo duas horas para fazer esse trajeto, mas se chove ou acontece algum acidente, levo até três horas e meia”, conta.

Na mesma direção que a Prefeitura de São Paulo, que reajustou a tarifa do transporte público de R$ 4,30 para R$ 4,40, a Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), vinculada ao governo do estado, reajustou o valor dos ônibus que ligam Guarulhos à São Paulo em 4,85% no dia 26 de janeiro.

A tarifa do ônibus que Camila utiliza para chegar ao Metrô aumentou de R$ 7,15 para R$ 7,50. Se não tivesse abono na tarifa por ter uma deficiência física e estar desempregada, a estudante precisaria gastar cerca de R$ 500 por mês somente com o transporte público.

Camila explica que sem a gratuidade no transporte, o custo da tarifa seria um dos desafios para sua permanência na universidade. “Sem o abono na passagem, eu teria que solicitar o passe estudantil para pagar metade do valor e ainda dependeria da renda dos meus pais. No momento só a minha mãe trabalha, então consequentemente a necessidade de eu me recolocar no mercado de trabalho também seria maior”, relata.

Segregação da cidade

A cidade de São Paulo possui um padrão de segregação social e racial que se reflete no serviço de transporte coletivo. É o que analisa a especialista em economia urbana e gestão pública Gisele Brito. De acordo com a pesquisadora, quanto mais distante do centro e menor a infraestrutura pública instalada, maior a concentração de negros e pobres.

“Essa população está presente em todas as regiões, mas é muito maior nas periferias. Por outro lado, nas regiões com mais infraestrutura urbana está a população mais rica. Isso sugere que a população negra e pobre precisa sair de seus bairros para acessar serviços públicos e privados e empregos com maior renda”, sustenta.

O estudo “Acesso a Oportunidades” do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), lançado em 16 de janeiro, aponta que a distribuição socioespacial de renda, de oportunidades e a dimensão de São Paulo faz com que a população mais pobre esteja concentrada em regiões distantes das principais zonas de empregos. As áreas centrais contrastam com as periferias, que apresentarem baixos níveis de desenvolvimento e têm menos infraestrutura urbana e transporte público.

“Você pode tentar trabalhar no seu bairro, em comércios como supermercados, por exemplo, mas esses trabalhos geralmente oferecem renda menor. Os negros e pobres são os mais afetados porque o deslocamento é praticamente impositivo e quanto mais a tarifa aumenta, maior a dificuldade de acesso dessas pessoas à infraestrutura urbana”, pondera Gisele Brito.

Direito ao transporte público

A especialista em economia urbana e gestão urbana destaca que o transporte público deveria ser viabilizado como um direito da mesma forma que a saúde e a educação.

“A questão principal do transporte público não é o reajuste da tarifa, mas a razão de nós termos de pagar pelo valor na catraca quando a locomoção é um direito. Em uma comparação, seria o mesmo que colocar catraca na entrada das escolas e dos hospitais”, avalia Gisele Brito.

Após o aumento da tarifa na cidade de São Paulo, o Movimento Passe Livre (MPL) organizou pelo menos três protestos na região central da cidade. Uma das principais bandeiras do movimento é conscientizar a população sobre a importância de um transporte efetivamente público, ou seja, sem tarifa.

Segundo Gisele Brito, apesar de a mobilização acerca do transporte ter ganhado força com a onda de manifestações de 2013, as discussões ainda não têm a mesma visibilidade que outros temas pertinentes à população negra e pobre.

“Há anos existem mobilizações pelo direito à moradia e o transporte parece não ter a mesma visibilidade até mesmo nos partidos progressistas, embora o deslocamento seja uma questão muito presente no dia a dia das pessoas”, afirma. “Inclusive, é importante melhorar o transporte, mas principalmente distribuir os recursos públicos para que os deslocamentos sejam menores”, conclui.

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