Estudo também apresenta em detalhes os padrões de manipulação do veículo de comunicação, que privilegiou as fontes ligadas ao Estado, em detrimento de pesquisadores e dos movimentos sociais

Texto / Pedro Borges
Imagem / Agência Brasil

A pesquisa “Narrativas brancas, mortes negras” é divulgada ao público nesta quarta-feira (23), das 19h às 22h, na Casa do Baixo Augusta. Organizado pela Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD), Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC-USP), Ponte Jornalismo e pelo Alma Preta, o material analisou a cobertura da Folha de S.Paulo sobre as rebeliões ocorridas no sistema carcerário, que ocorreram entre 1º e 14 de Janeiro, em 2017.

Nathalia Oliveira, coordenadora da INNPD, afirma que o material apresenta as estratégias de manipulação da grande mídia acerca de debates como racismo, guerra às drogas e encarceramento.

“O material aponta para o apagamento do debate racial, para a inversão dos motivos para as rebeliões nos presídios brasileiros, sem destaque para a privatização, guerra às drogas, a superlotação e com a justificativa no âmbito da falta de humanidade dos sujeitos presos. O estudo se torna uma importante ferramenta de luta contra as desigualdades no Brasil.”
Durante um ano, os pesquisadores utilizaram o método de análise de conteúdo de Laurence Bardwin, para entender a posição da Folha de S.Paulo acerca do assunto. Foram analisados dois grupos: o primeiro contabilizou as palavras mais e menos utilizadas, e o segundo, as fontes mais e menos recordadas pelos repórteres do jornal.

As fontes foram divididas em quatro grupos: as fontes oficiais representam o Estado; as oficiosas, os funcionários da máquina pública que não podem se posicionar em nome do Estado; as não-oficiais, que são as representantes da sociedade civil; e as disruptivas, que consistem em figuras pertencentes aos movimentos sociais.

Os números apontam para a presença significativa das fontes oficiais, principalmente quando comparadas às disruptivas, aquelas que apresentam posicionamento diferente do hegemônico.

Para analisar os dados, o estudo do pesquisador Perseu Abramo sobre os padrões de manipulação da grande mídia foi utilizado. Para ele, a mídia tenta impor a visão hegemônica sobre o fato por meio da repetição das fontes oficiais.

Dennis de Oliveira, orientador da pesquisa e chefe do departamento de jornalismo da ECA-USP, destaca que a desproporcional representação do Estado na cobertura da mídia acaba com alguns dos mitos sobre o jornalismo.

“Todos esses dados apresentados, por esse estudo realizado, respondem aquela ideia de que o jornalismo hegemônico é neutro, imparcial e objetivo, e aponta que pelo contrário, tem direção ideológica e tem perspectiva valorativa sobre os assuntos, e temáticas que envolvem a população marginalizada. Ele tende a neutralizar os direitos dessa população”.

No campo das ações foi possível ver quais as principais justificativas utilizadas pela Folha de S.Paulo para o problema em questão. Destaque foi dado para palavras que descrevem a barbárie dos sujeitos envolvidos na rebelião, como decapitado e carbonizado, em detrimento de outras. Esses sãos os casos de privatização e superlotação, palavras que explicam parte dos problemas do sistema carcerário de acordo com os movimentos sociais que debatem o tema.

Os analistas aqui observaram outro padrão de manipulação, de acordo com o estudo de Perseu Abramo, o da inversão. Para ele, quando dialoga com a perspectiva da mídia hegemônica, ela inverte as consequências e as causas.

Segundo a cobertura da Folha de S.Paulo, as rebeliões parecem ter sido motivadas pela desumanidade daqueles sujeitos ao invés dos problemas do sistema carcerário em si.

Rosane Borges, pós-doutora em comunicação e integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (COJIRA), acredita que a pesquisa apresenta como o jornalismo e a sociedade naturalizam a barbárie, quando atinge o outro, nesse caso, o sujeito negro. Ela afirma que a sociedade pactua com práticas punitivas não civilizatórias e traça a linha entre os que podem ser tratados como humanos e os não.

“A gente olha para o nosso passado e diz: ‘nossa, como a gente escravizou por tanto tempo?’. A escravidão é uma vergonha, embora a sociedade brasileira não se envergonhe. Eu alimento muito a ideia de que em algum momento da história a gente vai olhar para traz e dizer: ‘nossa, como nós encarcerávamos e em que condições’, ou seja, uma vergonha do ponto de vista da civilização”, afirma.

Outro fator que chamou atenção dos pesquisadores foi a citação, por uma única vez durante a cobertura, da palavra negro. Mesmo diante de um sistema carcerário seletivo e de estados onde há uma concentração significativa de negros presos, o marcador em questão foi omitido.

Atualmente, no Brasil, mais de 60% dos presos são negros, dados que variam de acordo com as regiões do país. Nos estados onde as mortes ocorreram essa marca é mais expressiva. Em Manaus por exemplo, 71,7% da população presa é negra; em Roraima, 82,2%; e no Rio Grande do Norte, 69,5%. Os dados são do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen 2014).

Para analisar essa constatação, foi usado o novo padrão de manipulação descrito por Perseu Abramo: o ocultamento. Para ele, quando é de interesse dos grandes veículos de mídia, a mídia deixa de citar um tema em questão.

“Não falar sobre o encarceramento em massa, políticas antiproibicionistas sobre drogas, extermínio da população negra, pobre, periférica, nessas coberturas, que envolve a crise prisional, é um modo de mascarar o que acontece porque esses temas são parte do problema e não dá para deixá-los de fora”, afirma Junião Junior, ilustrador da Ponte Jornalismo e um dos participantes da pesquisa.

Para ele, o material mostra como é preciso alterar a cobertura jornalística praticada no Brasil para se avançar sobre o problema do racismo, genocídio negro e encarceramento em massa no país.

“Essa pesquisa evidencia a necessidade de uma discussão para a formação de uma política de segurança pública sustentável, que proteja realmente o cidadão, principalmente o negro, pobre, periférico, que historicamente é a maior vítima desse processo, e não o contrário”, conta.

O agravante vem com a realidade brasileira, cerceada pelo mito da democracia racial, como apontam Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes, pesquisadores negros utilizados como base. Não trazer o debate racial fortaleceria o mito da democracia racial, um dos principais problemas para a superação do racismo no país.

A ex-ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e professora da graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FAE/UFMG), Nilma Lino Gomes, acredita que o mito da democracia racial é perigoso, porque na medida em que nega a existência do racismo, o fortalece. “Senão são o racismo e o olhar mais violento por parte do Estado sobre a população negra, o que justificaria a maior presença de negros no sistema carcerário? A outra resposta possível é a maior propensão ao crime do sujeito negro, uma constatação racista.”

Dennis de Oliveira também crítica a cobertura da mídia hegemônica sobre as relações raciais no país, que também seria enviesada, de acordo com o pesquisador.

“O estudo demonstra também que a mídia hegemônica e o jornalismo hegemônico não abordam as relações raciais nessa perspectiva estrutural. Problemas como o da violência, massacre e da rebelião dos presídios não são cobertos como fenômenos que fazem parte de um processo de extermínio da população negra”, afirma.

A Folha de S.Paulo foi o veículo escolhido por dois motivos. O primeiro é a relevância do jornal, que em 2016 publicou uma matéria na qual aponta ser o jornal mais lido entre os deputados federais, pelo nono ano consecutivo.

A segunda razão é o estudo feito pelo próprio CELACC-USP sobre a cobertura da corrida presidencial de 2010, que aponta para a existência de um trio formador de opinião: Globo, Veja e Folha. Segundo o material, entender a posição da Folha de S. Paulo possibilitaria a compreensão do pensamento hegemônico brasileiro acerca do tema.

A equipe de reportagem do Alma Preta entrou em contato com a Folha de S. Paulo sobre o estudo e até o fechamento desta reportagem, não recebeu resposta alguma.

Para ter acesso ao material completo, acesse.

Saiba mais

A pesquisa “Narrativas brancas, mortes negras” será divulgada em 23 de maio (quarta-feira), das 19h às 22h, na Casa do Baixo Augusta (rua Rego Freitas, 533, São Paulo).

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