Amigos foram executados em conjunto habitacional situado no município do Rio de Janeiro; tragédia causou comoção entre membros da comunidade e agentes culturais da cidade

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Foto / Arquivo pessoal/Facebook

 

Noite de sábado, 24 de março. Os amigos Sávio Oliveira (20), Matheus Bittencourt (18), Marco Jhonata (17), Matheus Baraúna e Patrick da Silva Diniz (16) estavam assistindo ao show do rapper Projota, no encerramento da I Bienal da UMES (União Maricaense de Estudantes), em Maricá, cidade situada a 61 km do Rio de Janeiro. Os jovens estavam se divertindo em meio ao universo no qual se sentiam à vontade.

Madrugada de domingo, 25 de março. Sávio, a dupla de Matheus, Marco e Patrick foram brutalmente executados dentro de condomínio residencial construído por meio do programa Minha Casa, Minha Vida, onde moravam. De acordo com testemunhas, dois homens saíram de um carro e, após ordenarem que os cinco se deitassem no chão, dispararam tiros contra as cabeças de cada um deles. A forma como aconteceu faz haver suspeitas sobre a atuação de milicianos, contudo, apesar do relato, as investigações policiais ainda não confirmaram esse fato.

As balas que atingiram os jovens interromperam não apenas as suas vidas, mas os sonhos de cada um deles. Aqueles disparos os separaram do universo do hip hop, que era, para cada um deles, um refúgio da realidade dura e violenta que lhes rodeava. Esses mesmos tiros privaram-lhes, em caráter definitivo, do convívio com amigos, familiares e demais entes queridos.

Chama também a atenção para o fato de a tragédia ter acontecido pouco mais de uma semana após a execução de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL e defensora de causas raciais, na noite de 14 de março. O crime, que vitimou também Anderson Gomes, motorista da ativista política, não foi solucionado até agora, passadas duas semanas desde quando aconteceu.

Repercussão da tragédia

A chacina que vitimou os cinco jovens abalou de modo ímpar o cotidiano do conjunto habitacional Carlos Marighella, na região de Itaipuaçu, onde tudo ocorreu, e do município de Maricá – a prefeitura decretou luto de três dias e disponibilizou auxílio psicológico aos parentes dos garotos.

A comoção tornou-se ainda maior pelo fato de eles estarem inseridos no movimento cultural maricaense. Tanto que, de acordo com João Carlos de Lima, secretário de Participação Popular, Direitos Humanos e Mulher de Maricá, a atuação deles era significativa. “Eles faziam parte de um movimento de cultura, com viés forte para o hip hop. E, junto com a Secretaria de Direitos Humanos e [a Secretaria] de Cultura, organizavam uma roda de rima”, relata, ao falar sobre os encontros organizados quinzenalmente.

A participação dos garotos foi reforçada por Roots MC, presidente da Nação Hip Hop Maricá, que tinha contato com Sávio e Matheus Bittencourt, ao descrevê-los como “pessoas de alto astral” e “zoeiros”. E os comentários sobre eles são os mais positivos possíveis.

“Sávio era o melhor mestre de cerimônia que havia aqui na cidade. [Ele era] muito rápido nas palavras, sempre ‘botando’ os MCs para cima, nunca desmereceu ninguém e sempre foi um apoiador cultural – ele fazia parte da nação hip hop. Já Matheus era um moleque muito bom no que fazia, aparecia com vários sons novos para a galera escutar, sempre chegou junto nos eventos e mandava muito bem”, descreve o ativista cultural sobre a atuação deles.

Além disso, ele não consegue encontrar um motivo plausível para a execução dos cinco jovens. “Queria muito acreditar que não fosse eles [os assassinos] tentarem silenciar a cultura urbana. Os cinco eram envolvidos com movimento cultural e estavam no quintal de casa. Não há outra razão que não seja nos calar.”

Sob condição de anonimato, um militante da UJS (União da Juventude Socialista) de Maricá relatou à reportagem do Alma Preta que o trabalho desenvolvido pelo quinteto dizia respeito à realidade vivida por eles, o que envolvia repressão policial e, de certo modo, a falta de atuação eficaz da corporação na região onde viviam, o que refletia na promoção de segurança do condomínio – que tinha pouca eficácia, inclusive.

Ainda de acordo com o militante, o legado deixado pelos cinco garotos já está presente na comunidade, no que diz respeito à produção “com mais ênfase” de trabalhos artísticos e que haverá luta para a memória deles ser um marco para o início de nova fase – de mudanças positivas – na cidade.

A reportagem tentou também entrar em contato com parentes das vítimas, mas não obteve retorno até a publicação da matéria.

Investigações

Em resposta à reportagem do Alma Preta em 29 de março, a assessoria de comunicação da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro informou que a investigação da tragédia está sendo feita pela equipe da DHNSG (Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo). Até a publicação do texto, não havia novidades a serem divulgadas sobre o caso.

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