IBGE utiliza os termos preto, pardo, branco, amarelo e indígena desde 1991; pesquisadora acredita que há uma incoerência na utilização das categorias de raça e cor na pesquisa, e que a categoria “moreno” dificulta a identificação do sujeito com a própria negritude

Texto/Pedro Borges

Imagem/Bruna Moraes

Pesquisa publicada pelo Datafolha em 10 de Outubro sobre o segundo turno da corrida presidencial entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) apresentou o recorte racial entre as intenções de voto. Os marcadores utilizados pelo instituto de pesquisa foram: brancos, amarelos, indígenas, pretos, pardos, morenos, outras, e não sabe.

O estudo apontou vantagem do capitão da reserva, que pontuou 58%, sobre o ex-ministro da educação do governo Lula, com 42% das intenções de voto, no plano geral. A pesquisa também apresentou recortes de gênero, escolaridade, região do país, e cor, entre outras.

Do ponto de vista racial, a pesquisa apontou maior aceitação de Bolsonaro entre os candidatos brancos, com uma vantagem de 16%. Entre os pretos, Haddad abriu vantagem de 7%, dianteira que ficou em 5% entre os pardos e 3% entre os “morenos”.

Para além da maior preferência do público branco com Bolsonaro e do negro, que segundo o IBGE é a junção de pretos e pardos, com Haddad, chamou atenção a utilização do marcador racial “moreno”.

Lia Vainer Schucman, autora da obra “Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na Cidade de São Paulo”, acredita que o termo “moreno” ou mesmo “mestiço” retira a identificação entre a pessoa e a negritude.

“Por que as cores da categoria racial negra são sempre colocadas em questão? O que está por detrás disso? É a ideologia do embranquecimento. É como se fosse falado: “essa pessoa tem um pouco de sangue branco”, falando que ela é morena”.

Ela também questiona a própria diversidade existente entre o grupo racial branco para reforçar o argumento de que os questionamentos sobre a identidade de raça dos sujeitos se direciona aos negros.

“É importante mencionar que os brancos também tem várias diferentes colorações. Branco mais rosado, mais amarelado, mais escuro, e isso não é uma questão. A cor da categoria racial branca, que tem uma diversidade, não é colocada em questão. Não tem 120 formas de identificação”.

A pesquisa e o marcador raça/cor

Jean de Souza, em nome do Instituto Datafolha, em resposta ao Alma Preta, disse que a instituição estimula a utilização das categorias do IBGE, mas que deixa em aberto outras opções de identificação por parte dos entrevistados. Quando uma categoria, citada de maneira espontânea, aparece de maneira expressiva, ela é utilizada na pesquisa.

“Quando temos um grande número de respostas comuns, que somam casos suficientes para análise estatística, acabamos por juntar isso num código (isso vale para todo tipo de questão aberta de uma pesquisa). Foi o que aconteceu com o "morena", citado espontaneamente por uma parte do eleitorado”.

A pergunta feita pelo Datafolha se refere ao quesito “Cor” e inclui as categorias branca, preta, parda, amarela, indígena, e “outros”. O Datafolha também reitera que não poderia estimular a resposta a um dos marcadores, o que poderia interferir no resultado final da pesquisa.

Lia Vainer Schucman afirma existir uma confusão entre os quesitos raça e cor no estudo, e que isso exige alguns cuidados.

“Se for o quesito cor, o indígena não pode entrar. Eles estão errando a categoria. E se a categoria é raça, moreno não pode entrar”.

Responsável pelo Painel Bap e coordenadora da pesquisa Afrodescendentes & Política, Luanna Teófillo acredita que a utilização da terminologia trata-se de uma escolha que pode contribuir para o apagamento de um grupo racial.

“Quem são os “morenos”? Quais os dados dos morenos de consumo, na sociedade? Para fazer sentido, eles vão precisar usar para sempre, porque senão mais uma vez você vai dar visibilidade para pessoas invisíveis”.

Para a existência de dados comparativos do ponto de vista histórico, o Painel Bap opta por utilizar as categorias escolhidas pelo IBGE de raça/cor, de pretos, pardos, amarelos, indígenas e brancos.

História dos censos e categorizações no Brasil

A dificuldade da caracterização racial brasileira aparece com ênfase no PNAD de 1976, quando a categoria cor/raça foi perguntada de maneira aberta ao entrevistado, e se obteve mais de 190 nuances de cor/raça. Nesse tópico, a identificação “moreno” foi a segunda mais recordada, atrás apenas da branca. Na pergunta fechada sobre a identificação racial do sujeito, 66% definiram-se como pardos.

O IBGE padronizou o sistema de contabilidade racial no Brasil em 1991, quando aderiu de maneira padronizada a questão “raça ou cor” e definiu as cinco categorias: branco, pardo, preto, amarelo, indígena.

A obra “A Psicologia Social do Racismo” é uma coletânea de artigos, e um deles, “Cor nos Censos Brasileiros” ajuda a entender a dificuldade da construção da identidade racial negra no Brasil.

Produzido por Edith Piza e Fúlvia Rosemberg o artigo mostra que no primeiro grande censo brasileiro, em 1872, trabalhou-se com os marcadores raciais: branco, preto, pardo e caboclo. Esse último se referia aos indígenas e seus descendentes.

Em 1890, os termos utilizados foram: branco, preto, caboclo e mestiço. Nos censos seguintes, em 1900 e 1920, pós abolição da escravatura em 1888, o marcador racial não foi levado em consideração na contagem da população brasileira.

Em 1940, os termos voltaram, e se utilizaram os marcadores: preto, pardo, amarelo e branco. Em 1970, durante a ditadura militar, onde o tema sobre raça e racismo era considerado subversivo, não houve registro dos indicadores étnicos da sociedade brasileira.

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