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Militante da educação, do movimento de mulheres negras e LGBT é candidata a vereadora em São Paulo e recorreu ao finacimento coletivo para levar campanha adiante

 Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Divulgação

Com uma trajetória de atuação nos movimentos sociais e moradora da Brasilândia, zona norte da cidade de São Paulo, Keit Lima é candidata pela primeira vez ao cargo de vereadora. Para a disputa a uma das cadeiras do legislativo municipal, o PSOL destinou R$ 9 mil para a campanha dela. A candidata foi surpreendida pelo valor, pois relata que homens brancos do mesmo partido receberam R$ 98 mil para as ações de campanha.

“O valor oferecido pelo partido à minha candidatura é uma ofensa não só a mim, mas a toda a coletividade de mulheres negras. Demonstra como o racismo opera dentro dos partidos: não nos proporcionando condições reais de travar a disputa eleitoral em pé de igualdade. Servimos para que o partido pareça inclusivo e preocupado com equidade racial e de gênero, mas não para ser prioridade nas eleições. Assim o poder segue concentrado nas mãos dos de sempre, mesmo nos partidos de esquerda”, desabafa.

Keit explica que o partido adotou um sistema para categorizar os candidatos e fazer a distribuição dos recursos. Candidaturas à reeleição estariam enquadradas na faixa A; as prioritárias de suplentes da bancada estadual/federal deputadas e candidatura ao Senado em 2018 com potencial eleitoral, seriam a faixa B1; já as prioritárias com visibilidade e potencial eleitoral, seriam a faixa B2; as com visibilidade e potencial de acúmulo, seriam a faixa C. As demais, estão na faixa D.

“Estou alocada nessa última faixa. Não fui comunicada sobre as reuniões para discutir esses valores ou definir quais seriam as candidaturas com visibilidade. Não sentei na mesa com ninguém para definir ou discutir o quanto receberia. Apenas vi meu nome e os valores numa planilha”, relata.

A candidata faz parte do jurídico da ONG Casa 1 - Centro cultural e casa de amparo para jovens LGBTs, é ativista da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, Grupo Mulheres do Brasil e também da ONG Educafro. Ela imaginou que essa atuação seria levada em consideração para a distribuição dos recursos. “Sabíamos que ganharíamos menos dinheiro do que os homens brancos que tentam a reeleição, mas o valor 11x menor - eu com 9 mil e eles com 98 mi l- do que o deles não é justo e não é democrático”, frisa.

A Ong Educafro, da qual ela faz parte, entrou em conjunto com o Psol em uma ação na Justiça para que a distribuição proporcional do Fundo Eleitoral para candidatos negros começasse a valer em 2020 em vez de 2020, como normatizava a decisão do TSE. “Na hora de distribuir as verbas, alocou na última faixa uma das lideranças da Educafro. É contraditório e sintomático do modo como os partidos, mesmo daqueles que se dizem aliados, se estruturam: privilegiam os já privilegiados”, considera Keit.

Em sua primeira candidatura, ela conta que desde o princípio encontrou dificuldades e que há toda uma estrutura que a distancia de participar do partido. “Como muitos, me filiei ao Psol entendendo que, apesar das suas limitações, ele é ainda um partido no qual é possível disputar narrativas e construir alternativas ao racismo, as desigualdades e as violências sofridas pelo povo preto. Mas se o partido continuar direcionando seus esforços para eleger quem já ocupa cadeiras ou participa de correntes internas, excluirá dos seus quadros, ativistas da base e novas lideranças que poderão torná-lo aquilo que ele diz (ou pretende) ser: Um partido democrático!”, relata Keit, que recorre à campanha de financiamento coletivo para custear a disputa pelo cargo de vereadora e adverte: “Não vamos parar e não seremos interrompidas!”.

O Alma Preta entrou em contato com o PSOL de São Paulo para saber o posicionamento da legenda sobre o caso de Keit Lima. Até a publicação desta reportagem, o partido não se manifestou.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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