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Chaguinhas, como era chamado, é considerado uma espécie de santo e deve ser lembrado em Memorial dos Aflitos, com previsão para inauguração no fim de 2021

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Divulgação

Francisco José Chagas, o Chaguinhas, cabo negro assassinado no século 19 no Largo da Forca, no Bairro da Liberdade, em São Paulo, ganhou um cortejo pelas ruas do bairro no domingo (20). Uma missa em homenagem à Nossa Senhora dos Aflitos na capela de mesmo nome, onde Chaguinhas está enterrado, será realizada na quinta-feira (24), a partir do meio-dia.

O nome do bairro foi motivado pela morte do cabo, mas a história não é contada em monumentos ou espaços da região, que agora vive com a promessa da construção de um memorial ao lado da Capela dos Aflitos para preservar a história dos negros que viveram ali no período da escravização.

A missa do dia 24 será celebrada por Dom Eduardo Vieira dos Santos, que é bispo auxiliar de São Paulo. O cortejo realizado no domingo para Chaguinhas, passou pelas igrejas São Gonçalo, Boa Morte, Praça João Mendes, Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados, Praça da Liberdade e Beco dos Aflitos, todos com histórias e contribuições de pessoas negras.

A Prefeitura de São Paulo publicou no dia 9 de setembro no Diário Oficial do Município o decreto Nº 59.750, que declara de utilidade pública, para desapropriação, os imóveis particulares situados no Distrito da Sé, necessários à implantação do Memorial dos Aflitos. O documento é assinado pelo prefeito Bruno Covas (PSDB).

A área tem 451,14 metros quadrados e a estimativa é que a gestão da capital tenha que desembolsar cerca de R$ 2 milhões para desapropriação dos terrenos. O edital para concorrência de empresas construírem o memorial deve sair até o fim do mês, segundo informações da TV Globo. A obra está prevista para entrega em dezembro de 2021.

História

Chaguinhas integrava um destacamento do Exército chamado Batalhão dos Caçadores e foi um dos líderes da revolta por não receber salários equivalentes aos dos militares portugueses. No dia 20 de setembro de 1821, ele foi enforcado no largo, com uma multidão de plateia, como era de costume. Uma espécie de exemplo para que outros não voltassem a cometer os mesmos crimes. Algo inesperado aconteceu. A corda que mataria Chaguinhas arrebentou provocando os presentes a clamarem por sua absolvição. A história conta que isso repetiu-se três vezes. Até que na última as pessoas começaram a gritar “liberdade” em coro.

Chaguinhas não foi perdoado e teria morrido a pauladas. Mas a partir dali, o Largo da Forca, teria passado a ser conhecido como Liberdade. O cabo foi considerado uma espécie de santo e velas começaram a ser acendidas para ele. Em 1887, surge a Igreja Nossa Senhora da Alma dos Enforcados, que fica na Praça da Liberdade, no número 238. O corpo de Chaguinhas foi levado para a Cemitério dos Aflitos, onde estaria enterrado.

Na Capela dos Aflitos, uma porta de madeira recebe pedidos de milagres para o cabo, que não é reconhecido como santo pela igreja católica. As pessoas depositam papéis com pedido na porta e batem três vezes – mesmo número que a corda que o mataria arrebentou. Na grade que protege a igreja, há faixas agradecendo-o pelas graças alcançadas.

O cemitério dos Aflitos foi desativado em 1858 com a construção do Cemitério da Consolação. Em 2018, foram descobertas ossadas de nove pessoas que faziam parte do Cemitério dos Aflitos. Os esqueletos foram encontrados no terreno ao lado da Capela dos Alfitos, que pertence a um comerciante chinês e pretendia construir um centro comercial. É nesse local que fica na Rua Galvão Bueno, 48, nos fundos da capela, que deve ser construído o Memorial dos Aflitos.

O bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo, foi o primeiro habitado por pessoas negras nos séculos 18 e 19, quando alguns escravizados começavam a conseguir a alforria e se estabelecer no local que ficava às margens daquela vila que é hoje a metrópole paulistana.

Por lá, também ficavam o Pelourinho e o Largo da Forca, onde eram torturados e executados, respectivamente, os escravizados que cometiam atos considerados criminosos por seus senhores. Os negros mortos na forca ou em outros espaços eram destinados ao Cemitério dos Aflitos, que funcionou de 1775 a 1858 na região. Naquele momento, as pessoas brancas eram enterradas em igrejas.Todos esses marcos foram apagados. Com exceção da Capela dos Aflitos, localizada na Rua dos Aflitos, 70, construída em 1779. Ela foi rodeada de edificações e resiste em um bairro conhecido pela cultura japonesa, que instalou um totem de arquitetura oriental quase em cima de sua construção.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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