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Matéria da TV Record descreveu possibilidade como “prática e barata”, mas esqueceu do significado paras as pessoas negras

Texto / Guilherme Soares Dias | Edição / Simone Freire | Imagem /Divulgação

O cabelo dividido em diversas partes que são torcidas até se transformarem em tranças em formato de rolos finos, que é usado em diferentes regiões da África, foi descrito como “prático e barato: o ‘penteado coronavírus’”, em matéria exibida na terça-feira (12) no programa Hoje em Dia da TV Record. O programa, que possui repórteres, apresentadores, editores e diretor brancos, no entanto, não abordou sobre o significado do cabelo afro para as pessoas negras e de como são utilizados para valorização estética.

As tranças exibidas são chamadas de linha ou de cana. Na República Democrática do Congo recebem o nome de Suki Ya Singa. Durante os últimos séculos, o cabelo afro tinha mapas, mensagens e um complexo sistema de linguagem. Os cabelos crespos e penteados afro voltaram a ganhar força nos últimos dez anos com processos de transição capilar e valorização da estética negra por meio da autoestima.

A estilista e artista capilar Diva Green trabalha há 21 anos com cabelo afros e já fez o cabelo de pessoas como Tássia Reis, Liniker, Adriana Couto, Gaby Amarantos, Luedji Luna, Nara Couto. “Eu sou dos anos 80. A estética preta não tinha uma autoestima visível nessa época. Nos anos 90 começa algumas tranças, nos 2000 isso vai ficando mais forte até chegar aos dias de hoje”, pontua. Hoje, Diva lembra que o cabelo é um elemento sobre identidade. “É um sinal de pertencimento. Uma porta para vários conhecimentos”, considera.

A artista capitar lembra que autoestima é necessária para muitas pessoas negras poderem seguir suas vidas. “Ainda tem um caminho em falar de aceitação fora da nossa bolha. Nesse sentido, é revoltante ver notícias como essa. Matérias assim fazem parte de um projeto genocida, que tem dado certo, de destruição da nossa comunidade”, afirma, comentando a matéria da TV Record. “É preciso punir severamente esses meios de comunicação e repensar essa estrutura. Afinal, o cabelo tem importância sagrada para nós e já passou da hora desses brancos pararem de falarem da gente com falta de respeito”, diz.

Diva conta que, geralmente, é procurada quando homens e mulheres negras querem passar uma mensagem pelo cabelo. “Eu trabalho muito com artistas por conta da criação. São clipes, editoriais ou mesmo pessoas comuns que estão passando por processos de transformação”, afirma. Por meio das redes sociais, a artista capilar está disponibilizando oficinas online para contar histórias de penteados e falar da importância dos cabelos afros.

Quem usa

A professora de Enfermagem Suiane Costa, 38 anos, conta que tentou “livrar-se do seu cabelo” entre os 15 e 34 anos. Começou tirando o volume, foi deixando os cachos para ter cabelos ondulados até passar por alisamentos durante anos. “Usar o cabelo alisado nunca foi uma coisa que quis, não me achava bonita, mas era como se precisasse fazer aquilo. Era o padrão que precisava para trabalhar nos lugares em que estava”, afirma.

Quase 20 anos depois de passar a usar química, ela percebeu que não gostava mais do cabelo. “Estava desgostosa. Tudo me incomodava, o cheiro, o processo”, afirma, lembrando que ainda não tinha tomado uma atitude até ver um filme sobre Malcom X. “Tinha uma cena que ele ia para barbearia passar uma química para se adequar ao padrão. Era um processo doloroso”, recorda.

Depois da cena, Suiane jogou fora todos os produtos de alisamento que tinha. “Durou um ano. Não sofri. Pelo contrário, vibrava cada vez que via meu cabelo ondular. Foi um descobrimento relembrar de minha imagem de cabelo encaracolado”, afirma. A professora de Enfermagem conta, ainda, que a estética foi uma importante ferramenta política para entender o racismo, a branquitude. “Conectei-me com a mulher da diáspora que eu sou”, frisa.

Hoje, ela usa o cabelo black, mas adora fazer penteados de trança. Em janeiro, quando estava de férias, foram quatro diferentes, também nas cores, que foram do azul ao rosa. “Busco ser mais preta. Fico ainda mais radiante, mais deslumbrante e reafirma o lugar político, causando incômodo positivo na faculdade ao ir dar aula de trança, concha nas cabeça, além de contribuir para a formação das crianças que estão ao redor”, considera. Ela avalia que a matéria da TV Record é mais um reflexo do uso do poder da fala de uma estrutura branca. “Há uma distorção e silenciamento das nossas pautas. Eles falam o que querem sobre narrativa branca”, afirma.

 

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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