Lançamento da obra de autores da coleção Feminismos Plurais foi atração durante a programação da Festa Literária das Periferias (FLUP)

Texto / Pedro Borges
Imagem / Francisco Costa

O momento político de avanço do conservadorismo no Brasil e as possibilidades de resistência da comunidade negra foram temas do debate de lançamento da coleção “Feminismos Plurais”, na 7° edição da FLUP. A conversa aconteceu no dia 8 de Novembro, quinta-feira, às 18h, na Biblioteca do Parque Estadual, Rio de Janeiro.

Os participantes do diálogo foram Silvio Almeida, autor da obra “O que é racismo estrutural?”, Juliana Borges, escritora do livro “O que é encarceramento em massa?”, e Joice Berth, responsável pelo título “O que é empoderamento?”. A mediação da conversa foi feita por Isis Virgílio, produtora cultural.

O panorama político brasileiro e a questão racial

A retirada de direitos e o corte de gastos sociais, como a reforma trabalhista, reforma da previdência, e a própria PEC 55, que colocada um limite para os gastos públicos, foram alguns dos temas debatidos.

Silvio Almeida afirma que essas medidas vão atingir de maneira mais sensível a comunidade negra, e que para se naturalizar esse processo é necessário se fazer uso do racismo. O escritor acredita que o Brasil se prepara para um “grande descarte de pessoas”.

“Em um contexto como esse, o racismo vai desenvolver um processo fundamental, como desempenhou em toda história, para impedir o Brasil de ser um país mais igual, justo, e desenvolvido. O Brasil não tem a menor condição de pensar em desenvolvimento sem colocar esse processo numa luta antirracista”.

Para ele, raça está muito além de um marcador social ou uma questão tida como identitária.

“Raça é uma tecnologia de exercício do poder. A raça sempre será utilizada nas suas mais diversas formas para garantir a legitimação dos processos de violência, dirigidos pelo Estado ou então nos processos de violência contra determinados grupos sociais com os quais o Estado será conivente”.

Encarceramento

O Ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, apresentou números apontando 726,7 mil presos no Brasil em 2016, com a expectativa de que se atinja 841,8, mil encarcerados até o final de 2018, um número que dez anos atrás era de 451.429 mil presos. Do total de presos no Brasil, estima-se que pelo menos 64% seja de negros e negras.

Atualmente, o Brasil já tem a terceira maior população carcerária do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, na liderança, e da China, o país mais populoso do planeta.

Jair Bolsonaro, novo presidente da república, em entrevista para TV Band, apresentou algumas das suas visões sobre o sistema carcerário.

"A cadeia, se você tiver recursos, amplia. Ninguém quer torturar ninguém dentro da cadeia. Mas se não tiver recursos, amontoa", disse.

Juliana Borges acredita que nesse contexto vivido pelo Brasil, o encarceramento deve gerar impactos mais sensíveis na comunidade negra.

“Há uma explícita intenção de aprofundar o encarceramento em massa no Brasil, quando a gente estava conseguindo avançar e ganhar um campo no meio jurídico e no meio das ciências humanas de entendimento de que a saída na verdade é o desencarceramento, é mudar a legislação de drogas. Mas esse novo governo vem na contramão disso, vem dizendo que vai intensificar esse processo”.

Resistência

Diante desse cenário, surgem os questionamentos sobre as mobilizações possíveis da comunidade negra para enfrentar as diferentes violações de Estado e o próprio encarceramento em massa.

Uma das possibilidades, aponta Joice Berth, passa pelo empoderamento da população negra.

“A gente precisa descobrir que o empoderamento vai tanto servir para a gente como instrumento de luta social, quanto como de crítica”.

Ela avisa, contudo, que esse não é o primeiro momento de violação de direitos contra a comunidade negra.

“Não é a primeira vez que a gente tem o fantasma da repressão. E nós negros normalmente nunca deixamos de viver com essa sombra nas nossas costas. A democracia é branca, não é preta”.

Linguagem

Uma das propostas da coleção “Feminismos Plurais”, organizada pela filósofa Djamila Ribeiro, é a maior acessibilidade de temas densos ao leitor. O formato, o tamanho e mesmo a linguagem são características dos livros para atingir diferentes públicos.

Juliana Borges tenta se utilizar de uma linguagem mais cotidiana, como faz nas redes sociais, para ter êxito no diálogo com o público.

“Eu sempre tentei trazer na escrita a possibilidade da pessoa reconstruir sua vivência enquanto lia o livro. Isso faz simplificar, sem tirar a complexidade do tema. Faz com que essa pessoa consiga fazer essa caminhada na escrita junto da gente”.

Silvio Almeida acredita que existe um limite para transformar a linguagem mais acessível. Alguns conceitos e algumas ideias não podem ser desviados. Ele se utiliza da didática e da generosidade para apresentar ao leitor as possibilidades de entender o conceito.

“Eu pego na mão do meu leitor e falo: ‘vamos percorrer, o caminho é duro. Quando você tiver uma dificuldade, você pega na minha mão’. Eu não subestimo a classe trabalhadora, negras e negros, LGTBs, mulheres, que são aqueles que precisam ter esse conhecimento para mudar sua própria condição”.

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