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Para Regina Lúcia, militante histórica da organização de luta dos direitos do povo negro brasileiro, o país registrou na última década avanços como as cotas raciais e a luta continua a mesma de quatro décadas atrás

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução

A luta do povo negro no Brasil é constante e efervescente há pelo menos 40 anos e na última década deixou frutos significativos, como avalia a militante Regina Lúcia dos Santos, 66 anos, do Movimento Negro Unificado (MNU), do qual é coordenadora estadual.

“A luta vai tomando outras características por conta da rapidez da informação, dos vídeos que mostram a violência policial, escancarando o genocídio da juventude negra. São esses contornos que mudaram, mas a luta continua a mesma das últimas quatro décadas”, afirma a ativista, que também é educadora social, em entrevista à agência Alma Preta.

No Brasil, em mais de 1.200 cidades, das 5.560 existentes, o dia 20 de novembro é feriado por conta das comemorações da Consciência Negra. Boa parte desses feriados foram decretados nos últimos 20 anos em razão das ações do movimento negro. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, é feriado desde 2002, e em São Paulo desde 2004.

“As conquistas da última décadas foram marcadas pela inserção da juventude negra nas universidades, em cursos que eram considerados de elite como medicina, direito e engenharia. Além disso, foi importante efetivar o feriado de 20 de novembro em muitos municípios e em alguns estados”, lembra Regina.

Segundo a militante, o ciclo de violência no país se intensifica por conta do encarceramento em massa e com baixa perspectiva de ressocialização. Dados de junhod e 2020 do Infopen, base de dados oficiais do Ministério da Justiça sobre o sistema prisional do país, mostra que o país tem 748 mil pessoas privadas de liberdade.

Dessas, 222 mil são presas provisórias, sem condenação. As acusadas com base nas leis antidrogas somavam 20,2%. Em relação à raça/cor, os dados do governo informam que 221,4 mil são brancas, 328 mil pardas e 110 mil pretas.

“O judiciário brasileiro tem corroborado com o encarceramento em massa da população negra. As casas legislativas e o Poder Executivo precisam rever a política de combate às drogas. A lei antidrogas faz parte do pacote de implementação do genocídio da população negra”, reforça Regina.

No documentário “AmarElo: É tudo pra ontem”, do rapper Emicida, que mostra o show de lançamento do álbum, Regina Lúcia, ao lado de Miltão Barbosa e de José Adão, é uma das três figuras homenageadas como fundadores históricos do MNU. Foi nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, em 1978, que o movimento iniciou suas primeiras marchas contra o racismo no Brasil. O documentário estreou em dezembro na Netflix.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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