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Na disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro, a deputada federal e primeira senadora negra eleita no Brasil carrega uma trajetória política em defesa da valorização e dos direitos da população negra

Texto: Aline de Campos | Edição: Nataly Simões | Imagem: Gabriela Biló

Benedita Souza da Silva Sampaio, candidata à Prefeitura do Rio de Janeiro pelo PT, dedicou sua atuação política às causas sociais e à luta antirracista. Ainda na adolescência, aos 17 anos, já havia conquistado notoriedade por sua militância na favela da Praia do Pinto, onde residia. A então jovem precisou interromper os estudos para ajudar nas despesas da família formada por 14 irmãos.

Benedita é filha de Maria da Conceição e José Tobias, lavadora de roupas e lavador de carros, respectivamente. De esquerda, durante a Ditadura Militar resistiu ao regime lutando pela redemocratização do país. Converteu-se evangélica na Igreja Assembleia de Deus em 1968, passando longe de uma postura conservadora. Ela chama a atenção para a falta de diálogo da esquerda brasileira com as igrejas.

“Nós evangélicos de esquerda quando não suportamos a Igreja nós saímos dela. Nós ficamos somente entre os iguais, o sal fora da massa não salga nada. Tem que ser feio o enfrentamento dentro. Não necessariamente pelo púlpito, existem outras formas de criar narrativas”, defende.

Benedita ressalta que a sociedade brasileira se organiza de diferentes formas e que a laicidade do Estado deve ser preservada. Para ela, não se deve misturar púlpito e tribuna. Quanto às lideranças evangélicas atuantes no espaço político, alerta: “Hoje se tornaram grandes empresários da fé, se trata de poder. Realmente essas pessoas são catequizadas a submeterem as suas orientações que de espiritual passam a ser orientações políticas”.

Caminhos na política

Benê, apelido da candidata, hoje com 78 anos, iniciou na política em 1982, quando foi eleita vereadora da cidade do Rio de Janeiro após militância na Associação de Favelas do estado. Quatro anos depois, foi eleita deputada federal e reeleita em 1990. Participou da Assembleia Nacional Constituinte, atuando como titular da Subcomissão dos Negros, das Populações Indígenas e Minorias. Em seguida, passou a integrar a Comissão de Ordem Social e da Comissão dos Direitos e Garantias do Homem e da Mulher.

Com 2,24 milhões de votos, em 1994, Benê foi eleita a primeira senadora negra da história do Brasil. Em 2002, assumiu o governo do estado do Rio de Janeiro, após renúncia de Anthony Garotinho para concorrer à Presidência da República, tornando-se a única ex-governadora do estado livre de escândalos sobre corrupção.

É de sua autoria o projeto que definiu 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra, em contraposição ao 13 de maio em que, reverenciando a Princesa Isabel, se comemora a abolição da escravatura. Além disso, em 2020, como deputada federal, criou a Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, que visa beneficiar os profissionais de cultura afetados pela pandemia da Covid-19.

Este ano, Benedita também esteve à frente da ação que levou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a aprovar o fundo eleitoral proporcional para candidatos negros e negras. A parlamentar e candidata à prefeita fez a apresentação da medida, que foi acolhida e posteriormente apreciada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que decidiu que passaria a valer já no atual pleito municipal.

Representatividade e inclusão social

Quando o assunto é representatividade para mulheres negras, Benedita afirma que é fundamental que haja decisão política para representar grupos invisibilizados: “Como governadora, durante nove meses, e como secretária estadual dos Direitos Humanos, meu gabinete foi formado por uma equipe técnica com atuações afinadas com o que defendo, por terem poucas oportunidades de executar suas bandeiras”.

Por sua atuação de combate ao racismo, em 2017 foi homenageada na Exposição “Lembre-se da Escravidão”, da Organização das Nações Unidas (ONU). Benedita aponta que muitas pessoas se dizem não racistas, mas ainda se incomodam ao ver mulheres negras se candidatando mesmo em uma sociedade majoritariamente negra e feminina.

“Foi através de nossas mãos que a elite branca fez fortuna. Agora os brancos e brancas devem estar na luta conosco. Sendo antirracistas e também anti-homofóbicos”, salienta.

Com mandatos marcados pela defesa das minorias sociais, a candidata à prefeita afirma ter projetos para as favelas da cidade. Um deles, inspirado no Bolsa Família e em ação da prefeitura de Maricá, prevê a criação da moeda social carioca.

A proposta projeta a ampliação do Bolsa Família para 350 mil famílias com acréscimo de R$ 100 para serem utilizados em comércios dentro das favelas. A ideia é que todo produto comercializado tenha 2% do valor destinado a um fundo de empréstimo com taxa zero para que comerciantes mantenham e ampliem seus negócios.

Valorização da Educação

A educação é um dos setores que sempre está presente nos discursos de Benedita, que demonstra preocupação com as políticas do governo federal. “A educação é valorizada quando os nossos professores são valorizados. Queremos escolas públicas em tempo integral, mas não apenas isso, queremos cultura, queremos arte, queremos professores qualificados e com liberdade. A política atual tem uma visão limitada do exercício do professor”, reflete a candidata.

Formada em Serviço Social em 1982, após anos tentando recuperar o ensino defasado por necessidades financeiras, Benedita diz ter afinidade com as dificuldades dos estudantes mais pobres das periferias do Rio.

“Nossas crianças de favela estão em desvantagem nas aulas à distância por falta de equipamentos. O retorno delas ao ambiente escolar requer planos que acompanhem suas necessidades", destaca.

Saúde pública

Sobre a situação da cidade durante a pandemia do novo coronavírus, a candidata destaca que o Rio já estava um “caos” e agora tornou-se um “pandemônio”. “É necessária a criação de planos emergenciais, primeiro pela frente de trabalho e também propiciar a testagem em massa”, considera.

Caso seja eleita, Benedita planeja comprar equipamentos de segurança que propiciem segurança para a volta às aulas, com foco em escolas públicas que hoje encontram-se com estruturas deficientes. Sensível às questões ligadas à mulher, a candidata também propõe equipes especializadas para tratar doenças relacionadas à população feminina, bem como ampliar o atendimento de saúde e defender o parto humanizado.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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