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Modelo foi presa injustamente em janeiro de 2018 e ficou um ano e oito meses na prisão

Texto: Juca Guimarães I Edição: Simone Freire I Imagem: Arquivo Pessoal

Foram necessários 848 dias para que a Justiça reconhece a verdade sobre a inocência da modelo negra Babiy Querino, de 20 anos, presa em janeiro de 2018, acusada de participação em um roubo no bairro de Campo Grande, na zona Sul de São Paulo (SP).

“Essa absolvição vai ressignificar muita coisa na minha vida. A Justiça te prende, depois vê que errou e te absolve, mas uma absolvição não apaga tudo pelo o que você passou. Tive que ficar um ano e oito meses presa e ainda esperei mais sete meses para vir a resposta que eu era inocente, sendo que eu sempre disse e bati o pé que era inocente”, diz a modelo, em entrevista ao Alma Preta.

No dia o roubo, conforme expôs a defesa de Querino, a modelo estava trabalhando no Guarujá, litoral paulista. Porém, de acordo com o inquérito policial, ela foi reconhecida como uma das três participantes do roubo pelo “tipo de cabelo black”, segundo depoimento do casal vítima do crime. O reconhecimento foi feito por uma fotografia de Babiy apresentada pelos policiais.

Babiy comenta também que seu caso é emblemático, e é reflexo da seletividade do sistema em relação aos negros e pobres no país. “A gente não vive em um país justo. Ele é justo para quem é da elite. Para nós, não. Eu penso em tantas outras mulheres e meninas que passaram pelo o que eu passei, e ainda estão passando, e nem sabem se serão inocentadas. Na verdade, nem deveriam estar lá”, comenta.

A modelo diz que se sente diferente após toda a batalha judicial que mobilizou a opinião pública com a campanha #todosporbabiy e #freebabiy. “Ser presa injustamente me causou uma revolta consciente. Eu mudei desde a minha entrada [na prisão] até a minha saída. Não sou mais a mesma. Há coisas com as quais eu tenho que lidar, que eu carrego comigo, não porque eu quero, mas porque me obrigaram”, reflete.

No julgamento, a defesa da modelo apresentou três testemunhas que estavam com ela no dia do crime no Guarujá. Na sentença, que absolve a modelo, o juiz Guilherme Nucci destaca que o reconhecimento de Babiy como participante do crime pelas vítimas foi “em circunstâncias pouco esclarecidas”, “em razão de seu cabelo, circunstância, no mínimo, peculiar, sobretudo pela ausência de traços diferenciais no cabelo da referida acusada”.

“Isso demonstra a incoerência da Justiça de raça no nosso país, onde negros são presos por juízes brancos que não entendem as facetas do racismo estrutural e do encarceramento e genocídio dos jovens negros. Os policiais tendenciaram todo o processo na intenção de incriminar a modelo por uma questão de fenótipo racial. Em vários momentos foram citados aspectos do seu cabelo e da cor da sua pele”, explica o advogado Flávio Campos, que defendeu Babiy no processo.

Segundo Campos, se houvesse a presunção da inocência, os direitos constitucionais resguardados, a modelo não teria ficado presa. “Se fosse um juiz que compreendesse as questões de raça, ela não teria passado quase dois anos na prisão, na flor da idade, e com tantas provas da sua inocência”, frisa.

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