O questionamento é do escritor Allan da Rosa que participou do encontro “Bolsonaro, as ruas e o Congresso”, ao lado de Áurea Carolina (PSOL-MG), Orlando Silva (PC do B-SP) e Elaine Mineiro, da Uneafro

Texto / Simone Freire | Imagem / Divulgação | Colaboração / Bianca Santana

“Eliminar o capitalismo por si não vai eliminar racismo, machismo, transfobia. Nossas pautas [do movimento negro], que são sangradas, são realmente abraçadas pela chamada esquerda? Quem vai pra rua por universidade está junto nas cotas? A esquerda está junto contra o genocídio?”

Estas foram algumas das indagações do escritor Allan da Rosa, durante sua fala na atividade de análise de conjuntura “Bolsonaro, as ruas e o Congresso”, organizada pelo coletivo Faremos Palmares de Novo, neste sábado (25), no centro de São Paulo (SP).

Analisando o atual contexto político brasileiro, Rosa pontuou sobre a necessidade de entender a luta do movimento negro como estruturante e não como algo a mais na agenda de reivindicações e lutas das iniciativas e partidos progressistas. “A cultura negra é direita e esquerda. Não ver isso é flocorizar! Os modos de viver, as creche, os campo de várzea, por exemplo, tem muito a ensinar. A institucionalidade vai realmente se abrir?” disse.

Áurea Carolina (PSOL-MG) e Orlando Silva (PC do B-SP) também participaram da mesa de debate e expuseram suas análises sobre a conjuntura brasileira atual. A mediação foi de Elaine Mineiro, da Uneafro.

Orlando Silva falou sobre a dificuldade de fazer análises em um cenário político tão instável quanto é o brasileiro atualmente. Também fazendo um resgate histórico, falou sobre as consequências do período de instabilidade econômica de 2008, sobre a disputa da hegemonia mundial entre Estados Unidos e China, e de um processo atual de transformação intensa no capitalismo.

Jurista, ex-ministro do Esporte e ex-deputado federal, Silva fez duras críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) chamando-o de antipovo, antidemocrático, reacionário e “que precisa ser combatido”. Para ele, o discurso de Bolsonaro “ativa os desejos mais perversos de ódio, e mantém uma legião de fanáticos que se mobiliza com o discurso de ódio”, disse.

Sobre a proposta do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, de mudar regras no Código Penal e Eleitoral, o chamada “pacote anticrime”, Orlando Silva foi categórico ao afirmar que esta é uma proposta “mais grave do que a reforma da previdência pro nosso povo [negro]”. Isso porque, na luta contra as mudanças na Previdência, há um grupo de formas que contempla sindicatos e corporações que estão alinhadas nesta luta. Por outro lado, o pacote de Moro chama a atenção de muitas pessoas que pensam que ele pode ser realmente um movimento jurídico que combata a violência.

“É necessário romper com a polarização. É necessário virar a página, atrair nosso povo de volta. Gente que estava com o pensamento errado, fazer a crítica, trazer de volta e encontrar formas de luta diferentes”, disse.

Áurea Carolina, vereadora mais votada de Belo Horizonte (MG) em 2016, e hoje deputada federal, trouxe um contraponto mais positivo no início de sua fala resgatando as iniciativas positivas que eclodiram do ano de 2013 que, segundo ela, se desdobraram em processos de resistência.

Além disso, pontuou, as eleições de vereadoras e deputadas, mandatos progressistas em todos os níveis do legislativo: Juntas, em Pernambuco; Erica Malunguinho e Bancada Ativista, em São Paulo. “Não é pouca coisa em uma conjuntura tão desfavorável”, disse.

“Em vários países têm emergido iniciativas como essa. Formas de pressionar o sistema político de forma renovada. Não é exercer esse poder institucional, é confrontar! Reverter como capacidade democrática de resistência”, disse.

Este foi o quarto encontro organizado pelo coletivo Faremos Palmares de Novo, que tem mantido uma regularidade de um momento de reflexão por mês. Já participaram dos encontros anteriores figuras como Edson Cardoso, do Irohin; Regina Lucia, do MNU; Erica Malunguinho, deputada estadual pelo PSOL-SP; Flávia Oliveira, da Globonews; Weber Lopes, escritor; Flávia Oliveira, historiadora; e João Paulo Rodrigues, do MST.

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