Em seu primeiro EP, “Em Frente”, Júlio Moura recorre à sensibilidade estética para falar de diversos aspectos da vida e da sobrevivência cotidiana da pessoa negra

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Nátali Hernandes

A sutileza musical pode ser identificada nos primeiros acordes de violão e da guitarra, no timbre da voz e no som do acordeom. A intensidade e a verve questionadora podem ser facilmente encontradas no tom das letras. A junção entre o belo e o contestador dão o tom de “Em Frente”, primeiro EP do artista sorocabano Júlio Moura. E o nome do projeto não poderia ser mais sugestivo para descrever o momento atual da carreira do cantor e compositor.

“O EP é o primeiro trabalho com o meu nome e traz uma fotografia do momento em que estou: trabalhando há quase dez anos trabalhando para música e com música”, conta Moura, sobre a sua trajetória e a obstinação em fazer o seu som dar certo. E as suas composições têm influências diversas.

Basta dizer que a miscelânea composta pelos compositores baianos, com destaque para Gilberto Gil, Caetano Veloso e Dorival Caymmi; Djavan, Lenine e Racionais MC’s são alguns dos nomes que fizeram a cabeça do artista para ele encontrar a sua própria identidade e a estrada a ser seguida.

Seguir em frente era a única opção para Júlio, que apostou todas as fichas no sonho musical e fez de tudo um pouco: tocou com nomes como Fernando Anitelli, d’O Teatro Mágico; JR Tostoi, guitarrista de Lenine; e Pedro Viáfora, do 5 a Seco.

Além disso, ele também deu aulas de canto, fez preparação vocal de atores e participou de projetos em homenagem a artistas conhecidos no cenário nacional para ter condições de levar o seu próprio som adiante.

“O artista independente leva no peito toda a responsabilidade do trabalho que ele faz. A gente grava o disco, corre atrás da gravação, de uma lei de incentivo ou patrocínio, divulga esse disco e vende shows”, descreve, ao falar sobre o “corre” para tornar conhecido o próprio trabalho.

Imagem: Nátali Hernandes

A cor da luta

Se a trajetória de artistas independentes é marcada por luta, a de pessoas negras é bem maior. Para início de conversa, a música com identidade afro-brasileira tem mais dificuldade para furar a bolha musical e ser aceita no mainstream. Isso sem contar o estereótipo de que caras negros tocam pagode, por exemplo.

“Os artistas negros têm, historicamente, mais dificuldade em se inserir na grande mídia e nas rádios. Mas já há mais espaços para artistas negros ou que considerem tão importantes como outros”, relata, sobre como artistas negros têm recebido mais espaço, ainda que aos poucos.

E como a questão racial está no cerne de sua caminhada e de seu trabalho, é impossível não falar com Júlio Moura sobre questão racial. À época da realização da entrevista com ele, em 2 de abril, alguns assuntos que vieram à tona foram a sua leitura atual - a biografia do escritor Lima Barreto, autor de clássicos como “Triste Fim de Policarpo Quaresma” - e como a estrutura do Brasil foi, em âmbito histórico, desenvolvida para manter o negro à margem da sociedade.

“O negro esteve sempre à mercê de tudo o que acontecia e era sempre jogado ou nos hospícios, nas ruas ou na cadeia. Toda a estrutura criada no país marginalizou o negro”, pondera.

Ainda sobre a questão racial, outro ponto forte diz respeito à execução de Marielle Franco, vereadora no PSOL no Rio de Janeiro, cuja execução completará um mês em 14 de abril. Chama a atenção, entre diversos aspectos, o fato de ela ter sido a representação de minorias - racial, de gênero e sexual - em meio dominado por homens brancos.

“A única pessoa que representava um contexto massacrado ao longo da história ter sido assassinada dessa maneira em 2018 só reforça o que estamos conversando. Desde que o Brasil nasceu, o negro vem sendo massacrado”, ressalta.

Imagem: Nátali Hernandes

Resistência artística

Se o lirismo dá a tônica estética no EP “Em Frente”, o engajamento tem presença importante nas letras das músicas, em especial na faixa-título do projeto, que conta com participação do rapper também sorocabano Márcio Brown. E a inspiração no rap vai além de seu trabalho.

“A música brasileira tem muito a aprender com o hip hop, como na questão de formar opinião, elevar a estima e educar as pessoas para entenderem que têm papel importante na sociedade e que têm de se colocar como tal”, completa, ao falar sobre o caráter educacional da linguagem musical - e da arte, em sentido amplo.

Quem ajudou a seguir em frente?

“Em Frente” conta com as presenças de Fábio Leal na guitarra e de Beto Correa na sanfona. Além da participação de Márcio Brown na faixa-título, o trabalho conta com o artista peruano Miguel Ganggini na faixa “Pouco a Pouco”.

O som de “Em Frente” pode ser conferido em plataformas como Spotify, Deezer, iTunes, Soundcloud e Napster.

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