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No marco de dois anos do assassinato da irmã, ela fala ao Alma Preta sobre os ataques com viés político-ideológico, o acolhimento do movimento de mulheres negras e as ações do Instituto Marielle Franco

Texto: Nataly Simões | Edição: Simone Freire | Entrevista e imagem: Pedro Borges

Quase dois anos após o assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, ainda sem solução, a família da ex-vereadora e defensora de direitos humanos continua na luta pela preservação do seu legado. Anielle Franco, sua irmã e diretora-executiva do Instituto que leva seu nome, destaca que um dos desafios é mostrar para as pessoas que Marielle não era um partido político.

“Até hoje a definem como um partido e a reduzem apenas ao título de uma pessoa de esquerda. As pessoas precisam entender que a Marielle não era um partido e que falar sobre ela não tem nada a ver com ideologia política”, afirma Anielle, em entrevista exclusiva ao Alma Preta.

Anielle Franco recorda que o nome da irmã ainda é usado por outras figuras políticas para difundir discurso de ódio contra as pautas defendidas por ela durante sua vida. É o caso do vereador de São Paulo, Fernando Holiday (MBL). No dia 28 de janeiro, o parlamentar criticou uma homenagem da prefeitura da cidade à Marielle negando o seu legado político.

“As pessoas usam o poder que tem, com o espaço e audiência para falar, para fazer esse tipo de coisa em vez de fazer algo em defesa dos que mais precisam. Essa é uma das razões de eu me sentir na obrigação de levar as ideias da Marielle em frente”, conta.

As notícias falsas sobre Marielle Franco foram um dos maiores problemas que a família da defensora dos direitos humanos teve de lidar após o assassinato. Segundo Anielle, em alguns casos a família sequer teve o direito de resposta.

“Já foram publicadas matérias que falam várias mentiras sobre a nossa família e nunca tivemos direito de resposta. A Revista Época, por exemplo, colocou no ar uma matéria onde nos acusa de LGBTfobia e não tivemos a chance de responder. Isso é o que mais me chateia”, revela.

Acolhimento das mulheres negras

Com o processo doloroso do luto e a pressão em meio às perguntas sem respostas sobre o assassinato da ex-vereadora e as notícias falsas que circulam desde o crime, a família de Marielle Franco encontrou nos movimentos sociais, em especial no das mulheres negras, seu maior apoio.

“O que eu tenho conseguido, atingido, alcançado, eu não devo a partido nenhum, a ninguém que utiliza o nome da Marielle de maneira errada ou oportuna. Eu devo às mulheres negras que me acolheram e me mostraram que o nosso silenciamento vem de muitos anos e o quão importante é a gente falar”, diz Anielle.

A irmã da ex-vereadora recorda ainda que no aniversário de um ano da morte de Marielle, sua mãe Marinete da Silva foi acolhida por outras mães negras que também perderam os filhos em assassinatos brutais.

“Muitas mães de favela que haviam passado pelo o que ela está passando hoje, de ver os filhos mortos, assassinados pelo Estado, entendem o que nossa família está passando. Essa acolhida é muito importante e é diferente do que temos em outros espaços. Pensar nas questões políticas também é importante, mas ao mesmo tempo é como se a gente não descansasse. Você sempre é acolhido de uma forma, seja boa ou ruim, a depender por onde você anda”, pondera.

Legado da defensora dos direitos humanos

Para desenvolver as ações de preservação do legado da ex-vereadora, a família de Marielle Franco criou um instituto. Anielle Franco está à frente do projeto como diretora-executiva e ressalta que uma das ideias é contribuir um espaço para o debate de pessoas sem viés político-ideológico.

“Nós fazemos um trabalho de memória e voltado para o que acreditamos, por isso, é óbvio que é mais fácil debater com pessoas de esquerda. Um dos meus sonhos é trazer pessoas do centro e da direita também. É uma missão quase impossível, mas acredito que o instituto seja capaz”, sustenta.

No início de fevereiro, o instituto lançou uma campanha de financiamento coletivo a fim de arrecadar recursos para o desenvolvimento de atividades da Casa Marielle. O espaço localizado no Rio de Janeiro é voltado para o acolhimento de pessoas negras, oficinas e rodas de conversa para todos que desejam lutar pelo legado da defensora de direitos humanos.

“A Luyara, filha da Marielle, está engajada no projeto e meus pais aprovam e gostam disso. Este ano de 2020 será dedicado à nossa estruturação porque existem pessoas do mundo inteiro dispostas a nos apoiar, então é um trabalho que precisa ser feito aos poucos e com cuidado para as pessoas entenderem que não é algo partidário”, explica Anielle.

Uma das metas do instituto é a criação da Escola Marielles, com o desenvolvimento de uma metodologia para a formação de mulheres negras e pobres. Segundo Anielle, a escola será uma ferramenta para essas mulheres lidarem com os desafios da construção de uma sociedade mais justa e menos desigual.

“Não se trata de uma formação para ensiná-las a votar. É um espaço onde elas vão poder aprender e aprimorar suas existências enquanto mulheres negras, o que elas, com certeza, já sabem até mesmo melhor do que eu”, pontua.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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