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À frente do Restaurante Solar, em Salvador, cozinheira e empreendedora se adapta a novos tempos para continuar “alimentando”

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Simone Freire | Imagem:

“Meu trabalho é alimentar as pessoas”, diz a cozinheira e empreendedora Andrea Nascimento, que está à frente de um dos restaurantes mais charmosos de Salvador: o Solar, que possui duas unidades: uma dentro do Palacete das Artes, na Graça, e outra no badalado bairro do Rio Vermelho.

São espaços em que, por conta de sua sofisticação, já ocasionou momentos desgostosos a Nascimento - mulher negra e sapatão - que já foi confundida como garçonete, mas coordena o restaurante há 12 anos. Em tempos de pandemia e isolamento social, as comidas de Dea, como é conhecida, passaram a ser apenas para o delivery.

“A unidade do Palacete das Artes fechou um pouco antes do início do isolamento social por conta de uma greve de seguranças e emendou com o processo da quarentena. Tivemos que desligar algumas pessoas remanejar outras”, conta.

O delivery que até então era a segunda opção passou a ser o carro chefe. Os pratos mais elaborados ganharam a companhia da “Quentinha Solar”, marmitex que traz a comida do dia a dia, como o cozido, feijoada e quiabada. “É para quem não sabe cozinhar ou cozinha mas está de saco cheio. Faço mantra e mentalizo a saúde mental das pessoas. A comida está muito ligada a isso”, afirma.

Dea, que antes ficava mais no gerenciamento da equipe dos dois restaurantes, voltou a cozinhar mais e lembra que sua “missão é mexer o caldeirão”. “Esse é um momento de paciência e amorosidade. É como a maré, a cada momento está diferente, um dia tem tempestade, mas noutro parece que nada aconteceu”, compara.

Ela acredita que os novos tempos fizeram que o ir e vir fosse interrompido e que nos aproximássemos por meio da tecnologia. “A chave mudou. O futuro é hoje”, afirma. Mesmo com as mudanças, o restaurante hoje roda com apenas 30% do faturamento do passado. “Tem sido intenso. Trabalho de 10h a 12h por dia”, conta. Ela acredita que quando o isolamento social acabar, as duas unidades irão voltar em horário reduzido e respeitando as novas regras de segurança.

História

Junto com a fundadora do restaurante, Maíra D’Oliveira, Dea foi convidada para fazer parte do Salão de Arte da Bahia de 2008 no Museu de Arte Moderna (MAM), localizado no Solar do Unhão. Era para ser um espaço temporário, uma vez que o MAM não tinha um espaço de alimentos e bebidas. Com a aprovação do público e da gestão do museu acabaram ficando.

A proposta começou como um café, com cardápio de comida contemporâneo, que aos poucos foi ficando mais complexo. Um ano depois abriu uma unidade do Palacete das Artes. “Fomos sempre cercado de artistas, músicas. Tínhamos uma proposta de abrir para o almoço, happy hour e jantar. Temos essa diversidade e diversificação do cardápio”, afirma.

A vontade de ter mais liberdade fez com que buscassem um espaço fora dos museus e abrisse uma unidade no badalado bairro do Rio Vermelho na Copa do Mundo de Futebol de 2014. “Sou apaixonada pelo bairro, moro aqui e, ainda bem, tenho clientes que me acompanham onde eu for”, diz.

Sofisticado, o restaurante aberto tinha jazz e era espaço para almoços e jantares especiais. “As pessoas vêm buscar uma experiência aqui em primeiro lugar. Tem gente que vinha pelo camarão Catharino, outras pela maniçoba, pelo rocambole. Tem a clientela do crepe. A maniçoba por exemplo, era uma vez na semana, agora é todos os dias. A gente já tentou tirar coisas do cardápio que voltamos a colocar alguns meses depois por conta da pressão do povo”, conta, lembrando que 60% do público do restaurante era soteropolitano.

A história de Andrea com a comida começa há 25 anos com uma creperia, que uma vez por semana tinha comida mexicana e baiana. O projeto durou cerca de dez anos. Já no Solar, a proximidade com os museus fez com que o restaurante recebesse também exposições como a da fotógrafa Carol Dantas, com fotos ligadas à Iemanjá.

O restaurante tem ainda um projeto chamado madrinhas, de festas de casamento, e já trabalhava o projeto de levar o Solar pra casa, tanto com encomendas quanto a possibilidade que tinha ir até a casa da pessoa para cozinhar.

Entre os desafios que enfrenta estão desde “dizerem que nem parece que a comida é de Salvador, que parece de São Paulo, e sempre falam como se fosse um elogio” até o olhar das pessoas que acham que Dea é a garçonete e não a dona.

“Já teve situações de eu estar do lado da gerente e deduzirem automaticamente que ela era a dona e eu a funcionária, isso já aconteceu várias vezes, mas eu não acho que isso vá impedir o nosso trabalho”, afirma.

Ela lembra que, no início, há 24 anos atrás, sentia que por ser mulher, negra e sapatão tinha dificuldades com alguns fornecedores e até cliente. “No primeiro momento eu tive que fazer muito mais. Isso foi muito desgastante e cansativo. Hoje eu não tenho que provar absolutamente nada”, lembra.

As comidas que expressam essa ancestralidade africana, segundo ela, são a maniçoba, o bobó, a moqueca e a dona flor, uma tortinha de camarão defumado. “O meu lado leonina entra aí na questão dos sabores. Tenho vontade de mexer com o sentimento das pessoas por meio do alimento que é: casa de mãe, casa de vó. O sabor te remete a algum tipo de situação, essa é a provocação”, afirma.

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