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Candidata pela primeira vez, Lívia Noronha é a única mulher preta da região metropolitana de Belém e acredita na representatividade e participação popular como estratégias

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Acervo Pessoal/ Lívia Noronha

Pela primeira vez o segundo município mais populoso do Pará tem uma mulher negra como candidata à prefeita. A professora Lívia Noronha (PSOL, de 30 anos, é a única candidata mulher concorrendo ao Executivo de Ananindeua, cidade que fica bem ao lado da capital do Pará, na região metropolitana de Belém. A cidade possui o segundo maior colégio eleitoral do estado, um dos maiores da região amazônica.

“Eu nunca me vi neste lugar, não planejei a candidatura, mas quando recebi o convite pensei exatamente na representatividade. Sou a primeira mulher negra candidata a prefeita de Ananindeua, estou dizendo para todas as meninas negras do município, para todas as mulheres e pessoas negras que esse espaço também pode e precisa ser nosso”, afirma a candidata.

Lívia destaca que o espaço na política institucional sempre nos foi negado às mulheres negras e que deve a outras pessoas negras o espaço que se encontra hoje, como candidata. “Se estou neste lugar hoje é porque outras pessoas negras lutaram por isso. Ser a única mulher negra candidata a prefeita em toda a história do município de Ananindeua é honrar as que lutaram antes para que eu seja a primeira e seguir lutando para que muitas outras venham depois”, avalia.

Casada, mãe, a professora de Filosofia, disponibilizou o seu nome no pleito em um ano em que, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pela primeira as candidaturas de pessoas negras são maioria entre os registros. Mas ainda assim, mulheres negras são as que menos se candidatam.

“Em primeiro lugar, os partidos precisam reivindicar e apoiar candidaturas de mulheres negras, dando a estrutura e o apoio necessários, para isso é preciso que cada partido invista antes de tudo em formação política sobre luta antirracista para que o processo não se encerre em mera burocracia. É necessário também que cada uma das campanhas de candidaturas de mulheres negras seja uma campanha movimento, se afirme como candidatura de mulher negra, ainda que a conjuntura aponte para um cenário ainda muito racista e misógino; e que não haja solidão política, que cada candidata possa contar com redes de apoio dentro e fora das organizações partidárias, para que não desista de enfrentar um cenário politicamente tão difícil”, defende Lívia, que é educadora popular há nove anos e se define como feminista e militante.

Estratégias

A candidata do PSOL já pensa em estratégias de governabilidade até porque, se eleita, é provável encontrar um clima hostil por ser a primeira prefeita da cidade em um espaço hegemonicamente masculino e branco. “O nosso programa de governo propõe uma gestão participativa e popular, vamos governar com a participação ativa das e dos munícipes, que se organizarão nos conselhos dos bairros e das ilhas para juntos decidirmos as prioridades no orçamento, isso também cria uma confiança entre governo e população e pode ser capaz de, além de reduzir amplamente as desigualdades no município, reduzir também a sensação de ‘solidão política’ e hostilidade”, destaca.

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Se eleita, a professora se compromete a traçar ações que combatam a violência contra a mulher. “Vou defender a criação e fortalecimento de centros de atenção às mulheres vítimas de diferentes tipos de violência com atendimento de saúde, psicológico e serviço social, regionalizados, próximos às DEAM’s, e criar abrigos, para mulheres vítimas de violência doméstica. Apesar de compreender que quando a mulher é vítima, não é ela que deveria sair do seu lar. Mas, há situações extremas em que é preciso, antes de tudo, evitar o feminicídio. Compreendo também que o feminicídio é a forma mais visível de violência contra a mulher, a maior expressão da misoginia, mas é preciso educar a sociedade para que não aconteça nem essa nem outras formas de violência, para isso, propomos formação continuada para trabalhadores da educação, para que possamos nas creches e escolas "ensinar o respeito", o que já está previsto no Plano Municipal de Educação, só precisa ser posto em prática” afirma Lívia, apontando ainda a oferta de crédito, formação e fomentos como proposta. Em 2017, segundo dados do Ministério da Saúde, Ananindeua foi considerada como o município mais feminicida do Brasil.

Dentre as prioridades para o governo, ela propõe a criação do congresso dos bairros e ilhas; o fortalecimento da estratégia Saúde da Família, que deve ajudar a garantir a atenção à saúde básica; melhoria no transporte coletivo, garantindo inclusive ampliação das linhas de ônibus, especialmente nos bairros periféricos, e a defesa do passe-livre para estudantes, de segunda a sexta, com até quatro passes por dia, e em horários específicos aos finais de semana, para a população mais pobre, garantindo acesso. “Está na hora de termos uma representatividade concreta na prefeitura, de olharmos para a prefeita e nos enxergamos nela, de sermos vistos por ela. Quero que as pessoas votem em mim porque elas poderão governar junto comigo. O nosso governo ecoará todas as vozes de Ananindeua”. 

Foto interna: Acervo Pessoal/Lívia Noronha

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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