O novo álbum Liturgia Sambasoul busca reivindicar a genialidade do ritmo negro brasileiro

Texto / Simone Freire | Imagem / Vinicius Barros / Divulgação | Edição / Pedro Borges

Das “quebradas” de São Paulo, reverenciando ancestralidades e denunciando o racismo estrutural do país, a banda Aláfia caminha para os seus 10 anos de re(existência) no cenário musical dentro e fora do país.

Em tom de positividade, a banda começa 2020 com foco: fazer o quarto disco, Liturgia Sambasoul, lançado no final do ano passado, circular no máximo de periferias possíveis. “Nossa vontade é circular, estar presente nas escolas, no dia a dia da quebrada”, conta o produtor, músico e vocalista da banda, Eduardo Brechó, morador da Brasilândia, na Zona Norte. “É isso que sinto falta”, completa.

A mais nova produção de Aláfia reivindica uma genialidade do ritmo negro brasileiro da diáspora, o sambasoul, que teve seu auge na década de 1970, representado principalmente pela banda Black Rio. “A originalidade e ritmo que marcou a nossa experiência de terreiro é uma coisa que o Aláfia conceituou e está tentando trabalhar. E de uma maneira mais fluida e espontânea, tentamos trazer os elementos de terreiro e o sambasoul”, explica Brechó.

O nome Aláfia é de origem iorubá e significa "caminhos abertos". Na banda desde janeiro de 2019, a cantora Estela Paixão, de Itapecerica da Serra (SP), conta que esta ideia de continuidade ritmica é uma das coisas que mais a agrada na banda. “Entendemos que fazemos parte de uma continuidade da música negra brasileira”, diz.

O novo disco também marca uma nova fase da banda, que está mais entrosada musicalmente. “O show está ainda mais dançante e celebramos nossa ancestralidade de maneira festiva e afetuosa no palco. Essa é a cara da digna banda Aláfia 2020”, diz Estela.

Além de Brechó (voz e direção) e Estela, compõem o Aláfia, Jairo Pereira (voz), Fabio Leandro (teclados e voz), Pedro Bandera (percussão), Gabriel Catanzaro (baixo), Eloisa Paixão (voz), Filipe Gomes (bateria), Igor Damião (guitarra e voz), Vinicius Chagas (saxofone) e Larissa Oliveira (trompete).

Caminhos

Após amigos e amigas encorajarem sua formação, o primeiro show do Aláfia aconteceu em 2011. Com apresentações na região central, o início da banda também deixou marcado um dos seus principais conceitos: a coletividade. Compartilharam seus talentos com a banda amigos e amigas como Lurdez da Luz, Zinho Trindade, Rincon Sapiência, Rafão Alaafin, entre outros.

“Nunca imaginei a banda de uma maneira fechada. Para mim, o começo foi marcante. Foi legal porque as pessoas foram [aos shows] e apoiaram”, conta Brechó.

O sonho de gravar o primeiro disco veio na sequência. Com cachês baixos, a banda não mediu esforços para guardar dinheiro e conseguir bancar a produção. “O legal do Aláfia também é isso, quem estava no começo, e assim está até hoje, sempre foram pessoas que acreditavam no trabalho”, conta Brechó.

O primeiro disco, que também carrega o nome da banda, foi finalizado na YB Music, em 2013. Uma escolha que tem todo o simbolismo de ter sido a mesma gravadora de grandes artistas como Sabotage e Racionais. No álbum Aláfia vale destaques músicas como “Ela é Favela”, “Mulher da Costa” e “Em Punga”.

Em setembro, a Choperia do SESC Pompéia, na Zona Oeste da cidade, ficou lotada para receber o show de lançamento do disco. No mesmo ano eles também realizaram seu primeiro show internacional, na Plaza de la Revolución, em Havana (Cuba).

O segundo disco da banda, Corpura, foi lançado em 2016. Aláfia intensificou suas apresentações - foram mais de 40 - e levaram sua arte para mais sete estados e quatro países. Foi um disco feito a título de homenagem para todas as pessoas que apoiaram a banda desde o seu início.

A composição “Salve Geral”, o carro chefe do disco, trouxe de forma direta o posicionamento político da banda com a questão social e racial no país: “Não nos damos com teus demônios / Decapitamos o teu capeta / Decapitaremos o teu capitão / Decapitaremos o teu capa preta / Decapitaremos o teu capataz / Da capoeira você não escapa / Com a nossa rapa você não é capaz”.

No ano seguinte, o álbum “SP Não é Sopa, na Beirada Esquenta” é lançado e eles fazem a sua primeira turnê pela Europa. O disco é todo dedicado à cidade paulista, principalmente às regiões periféricas.

Na música “São Paulo Não É Sopa” com participação de Tássia Reis e Marcela Maita, a violência policial da cidade não passa batido: “Estes ratos bancarrota / Banca rota e ratatata / Nossa rapa é pé na porta / Tranca rua desacata / A revolta é nossa cota / Batata quente, quem te mata / Sabote a bota suja que trota / Rende mais se a casa lota / São paulo não é sopa”.

Em “Liga Nas De Cem”, o tom crítico é destinado aos bairros mais elitizado da cidade: “Em bairro de grifes / Rifles miram a nossa cabeça / Morumbi, moema, jardim europa / O xis do problema meritocratas / Chiques, clichê de novela / Que pisam em pobre / Vão pra janela bater panela / O outro lado da moeda, os parça dispersa”.

“Essa critica não tem como sumir do nosso discurso. Além de já ter sido feita por nós em outros momentos, está presente em nossa realidade. Assim como os temas femininos também estão presentes em canções como “Dama das demandas” e “Levante amazona”.

"São discussões do nosso dia-a-dia. São questões com as quais não temos como nos afastar, pois lidamos com elas todos os dias. Mas escolhemos lidar com esses temas sob outra perspectiva: a do afeto”, explica Estela.

Resistência contínua

Em um período em que se considera o florescimento do conservadorismo, a ponto de ofuscar espaços para uma produção cultural política e crítica, Brechó lembra que, na verdade, o conservadorismo sempre existiu na cidade, principalmente, diz ele, se levarmos em consideração que a gestão do governo estadual de São Paulo está nas mãos do PSDB há décadas. “O Doria é igual ao Alckmin, ou até pior” diz.

“Acho que hoje o movimento tem algumas prioridades, principalmente as mulheres pretas. Então elas devem estar sentindo isso bem mais na pele. Só que [o conservadorismo] não é uma coisa nova. Antes tinha muita resistência [à cultura negra] também, principalmente em relação à questão do candomblé. A macumba não estava na moda”, conta Brechó.

Ele cita que, mesmo antes de Jair Bolsonaro se tornar presidente do país, a banda já passava por situações complicadas. O presidente não teria começado nada mas, na verdade, dado continuidade. “Na TV Cultura, por exemplo, já tiraram trecho de música nossa. Mais de uma vez a gente já foi censurado na televisão por falar da polícia, do genocídio da juventude negra”, diz Brechó.

Em um cenário bem diferente do de surgimento da banda, embora o momento político nacional seja bem complicado, Brechó diz preferir olhar para as conquistas. Hoje, por exemplo, assuntos que eram antes restritos apenas ao nicho do movimento negro passaram a ser mais do cotidiano das pessoas, o que é bom e mostra como faz sentido o trabalho da banda. “Você vê muitos cantores e cantoras negras aí que estão com voz ativa e que não são necessariamente do rap. Isso é bem marcante”, diz Brechó.

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