Após polêmica, texto publicado pela cantora em suas redes sociais viralizou; “Escravizar, nem de brincadeira”, disse

Texto / Simone Freire
Imagem / Reprodução

As críticas sobre a festa da diretora de estilo da revista Vogue Brasil, Donata Meirelles, viralizaram nas redes sociais. As fotos divulgadas da festa, realizada em Salvador (BA), na semana passada, mostravam seus convidados posando no que chamaram de “trono de sinhá” ao lado de mulheres negras vestidas de baianas.

De um lado, internautas expuseram que ao realizar a festa temática sobre o Brasil Colonial, a diretora reforçou estereótipos que colocam a mulher negra e baiana como uma pessoa que nasceu para servir pessoas brancas. Por outro lado, a Meirelles divulgou nota pedindo desculpas caso tenha causado uma “impressão diferente” ao contratar mulheres negras fantasiadas de escravas em seu evento.

Mas foi a publicação da cantora Elza Soares que tirou as dúvidas de muitas pessoas sobre o aspecto racista da festa. Em seu texto publicado nas redes sociais, a cantora recorda sua trajetória de vida, seus ancestrais e parafraseia uma de suas canções mais renomadas: “A carne mais barata do mercado FOI a carne negra e agora NÃO é mais”, escreveu.

Confira na íntegra o texto de Elza Soares:

Gentem, sou negra e celebro com orgulho a minha raça desde quando não era “elegante” ser negro nesse país. Desde a época em que preto não usava o elevador dos “patrões”. Da época em que os pretos motorneiros dos bondes eram substituídos por portugueses brancos quando haviam festividades na cidade com a presença de estrangeiros ou autoridades de pele branca.

Desde a época em que jogadores de um famoso clube carioca passavam pó de arroz no rosto para entrarem em campo, já que não “pegava bem” ter a pele escura. Desde que os garçons de um famoso hotel carioca não atendiam pretos que estavam no restaurante. Éramos invisíveis.

Celebro minha cor e minha raça desde o tempo em que as gravadoras não davam coquetel de lançamento para os “discos dos pretos”. Desde a época em que preto na capa de disco “atrapalhava” as vendas do álbum. Celebro minha origem ancestral desde que “música de preto” era definição de estilo musical, não importasse o ritmo do artista.

Grito pelo meu povo desde a época em que se um homem famoso se separasse de sua mulher para ficar com uma mulher negra, essa ganhava o “título” de vagabunda, o que não acontecia se próxima esposa tivesse a pele “clara como a neve”.

Sou bisneta de escrava, neta de escrava forra e minha mãe conhecia na fonte as histórias sobre o flagelo do povo negro. Protesto pelos direitos da minha raça desde que preta não entrava na sala das casas das sinhás. Gentem, essas feridas todas eu carreguei na pele, na alma e trago comigo até hoje as cicatrizes.

Eu e a maioria do povo negro brasileiro. Feridas que ainda não se curaram e todo santo dia são cutucadas para mantê-las abertas, sangrando, como uma forma de demonstrar que lugar de preto é na Senzala, nessa Senzala moderna, disfarçada, à espreita, como se vigiasse o nosso povo. Povo aliás que descende em sua maioria dos negros que colonizaram e construíram o nosso país.

Hoje li sobre mais uma “cutucada” dessas na ferida aberta do Brasil Colônia. Nem faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção ou não de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante? Então pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo e suas origens, ao escolher um tema para celebrar uma festa ou “enfeitar” um momento feliz de sua vida.

Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. No fundo é fácil perceber esse limite tênue. Elegância é pensar antes de agir, por mais inocente que sua ação pareça ser.

A carne mais barata do mercado FOI a carne negra e agora NÃO é mais. Continuaremos “desenhando” isso pra quem não compreendeu ainda. Escravizar, nem de brincadeira. De que planeta você veio?

Seguimos em luta ✊🏾

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