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Lucas da Luz Márcio da Rocha foi atingido no tórax por ter se assustado com a abordagem policial; versões divergentes do caso geraram revolta entre amigos e familiares da vítima

Texto: Victor Lacerda | Edição: Nataly Simões | Imagem: Renata Gonçalves

Mais um jovem negro entrou para a estatística de crimes relacionados à violência policial no país. Desta vez, o adolescente Lucas da Luz Márcio da Rocha, de 17 anos, foi atingido por um tiro de fuzil quando estava na rua da tia, na comunidade do Alto da Colina, em Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana do Recife.

Segundo relatos de testemunhas, a vítima estava sentada em uma escadaria com dois amigos, maiores de idade, quando foi baleado no sábado (17). Os amigos foram surpreendidos por policiais que cercaram o local. O susto provocado pela abordagem fez com que Lucas tentasse correr. Sem chance de ser ouvido, recebeu o disparo de fuzil na região do tórax. Após o disparo, ele ainda teria recebido uma sequência de chutes e coronhadas.

Vizinhos do Alto da Colina afirmaram que um dos policiais teria dito o seguinte: “a gente matou o errado, a gente matou o errado”. Ainda de acordo com testemunhas, Lucas foi arrastado pela camisa da escadaria até à viatura. O jovem foi encaminhado para o Hospital Otávio de Freitas,na zona oeste da cidade.

Vinte minutos sem respirar

A irmã da vítima, Renata Gonçalves, de 21 anos, foi a primeira a chegar no hospital. Ao procurar notícias sobre o estado de saúde do irmão, ela conta que recebeu outra versão do ocorrido por parte dos policiais. “Eles me diziam várias vezes que ninguém tinha atirado no meu irmão. Diziam que, na tentativa de fuga, ele tinha caído e batido a cabeça no chão. Ainda me disseram que o disparo que foi feito teria sido pra cima”, conta Renata, em entrevista ao Alma Preta.

Foram horas de espera por informações sobre o estado de saúde do irmão, entre conversas com assistente social e um maqueiro que, por foto, reconheceu Lucas. “Em uma das tentativas de saber como estava a situação do meu irmão, uma assistente social me informou que ele estava entubado e que havia sido atendido na área vermelha do hospital. Foi aí que vi que as versões não batiam”, acrescenta Renata.

Parentes de Lucas chegaram em seguida no hospital. Na tentativa de entender detalhes sobre o caso, um dos policiais teria dado a informação que “todos eles precisavam pedir a Deus por uma melhora do jovem”. Segundo o policial, que conversava com alguns dos familiares, o adolescente teria passado vinte minutos sem respirar após o ocorrido.

“Depois de muito tempo, conseguimos que o cirurgião falasse com a gente. Entramos eu e outros familiares para conversar com ele. Foi quando ele deu a notícia do falecimento. Meu irmão sofreu parada cardíaca e foi reanimado, mas não resistiu”, relata a irmã. Renata diz que o cirurgião que atendeu Lucas disse que se soubesse da informação passada pelos policiais sobre o tempo que Lucas ficou sem ar, o percurso do atendimento teria sido outro.

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Lucas da Luz Márcio da Rocha tinha 17 anos. (Foto: Acervo Pessoal)

Versões diferentes

A mãe de Renata e do jovem Lucas, Edilma Maria, de 37 anos, foi até o Departamento De Homicídios e Proteção à Pessoa para ter notícias do crime. Em um primeiro momento, ela foi informada que os dados sobre o caso, sempre informados através do boletim de ocorrência, ainda não estavam no sistema do departamento. O agente que atendeu Edilma a orientou a se informar pelo disque-denúncia, o 190.

Após horas de espera, uma versão da ação a surpreendeu. Os policiais envolvidos no caso relataram fatos que não teriam sido ditos por testemunhas oculares. Para a mãe do menino Lucas, os policiais disseram que ele estava armado, havia reagido e portava 117 “bigbigs” de maconha e pedras de crack.

Revoltados com o caso, amigos, familiares da vítima e ativistas fizeram um protesto na terça-feira (20) na BR-232, altura do bairro do Curado, por cerca de uma hora. Os manifestantes deram início ao ato por volta das 6h da manhã, com faixas e cartazes pedindo justiça e que os policiais sejam responsabilizados.

Violência cotidiana

A tristeza de perder vidas negras em ações policiais faz parte de uma série de casos que vêm acontecendo na região metropolitana do Recife. Jhonny Lucindo, da mesma idade de Lucas, estava na garupa da moto de um amigo quando foi atingido com um disparo na nuca feito por um PM. O crime aconteceu no dia 5 de agosto, na cidade de Jaboatão dos Guararapes, região vizinha à Recife.

Em resposta para a família e à sociedade, a Polícia Militar de Pernambuco relatou, em nota, que o policial efetuou o disparo contra Jhonny porque ele “pareceu estar armado”. Os familiares, amigos e a Articulação Negra de Pernambuco (ANEPE) promovem a campanha “Justiça Para Jhonny”. O grupo pede afastamento imediato dos policiais envolvidos na ação e querem que o governo estadual seja responsabilizado pelos crimes cometidos contra jovens negros no estado.

Os dois casos, de Lucas e de Jhonny, estão sob os cuidados dos advogados que integram o Gajop (Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares), organização que atua há mais de 35 anos na defesa de direitos humanos, especialmente de crianças e adolescentes.

Alma Preta procurou a Polícia Militar do Estado do Pernambuco e perguntou sobre as circunstâncias da operação policial que resultou na morte do Lucas no dia 17 de outubro, e que divergem dos relatos de familiares, e se os policiais envolvidos seriam investigados. A assessoria de imprensa apenas enviou uma nota com sua versão do ocorrido:

“Neste último sábado(17), por volta das 20h30, na Rua Alto da Colina, no bairro de Cavaleiro, em Jaboatão dos Guararapes, policiais militares do 25ºBPM, foram averiguar uma informação de que no local havia cerca de cinco indivíduos portando armas e praticando tráfico de entorpecentes. Ao chegar no endereço, o efetivo visualizou aproximadamente cinco pessoas em atitude suspeita que, de imediato, com exceção de um, empreenderam fuga. Neste momento, a equipe policial deu ordem para o indivíduo pôr as mãos na cabeça, foi quando o suspeito efetuou disparos de arma de fogo contra os policiais, enquanto tentava fugar. Os PMs revidaram a agressão, atingindo-o no glúteo. Enquanto tentava fugir, acabou caindo em um barranco. Ele ainda foi socorrido para o Hospital Otávio de Freitas, mas não resistiu aos ferimentos e foi a óbito. O homem carregava uma sacola com 53 pedras de crack e 117 bigs de maconha, além de um revólver calibre 38, contendo três munições pinadas, uma deflagrada e duas intactas. Dentre os que fugiram, ainda foram capturados dois outros indivíduos, com registro criminal no Portal da SDS (motivo não especificado). Ambos foram ouvidos e liberados na DHPP.”

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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