fbpx

Caso que envolve o ator e professor de teatro Ricardo Fernandes, o mototaxista identificado como Tiago e o ativista Raull Santiago aconteceu na noite de quarta-feira (19), na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro

Texto: Nataly Simões | Edição: Pedro Borges | Imagem: Reprodução

O racismo e o abuso de poder marcaram a abordagem do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Rio de Janeiro contra um grupo de pessoas na Avenida Brasil, uma das mais importantes da cidade, na noite de quarta-feira (19). Dois homens negros retintos (de pele escura) foram os mais agredidos, conforme o relato de um deles ao Alma Preta.

“Fomos abordados de uma forma muito emblemática, pois não oferecemos nenhum perigo e acatamos todas as ordens. Em um dado momento, eu questionei um dos policiais se o tipo de abordagem feito com a gente era comum em qualquer lugar da cidade e com pessoas de qualquer tom de pele. Ele me perguntou se eu estava o chamando de racista e disse que a abordagem era comum”, conta o ator e professor de teatro Ricardo Fernandes.

Ricardo e o mototaxista identificado como Tiago estavam em um veículo, enquanto Raull Santiago, integrante do coletivo Papo Reto, e outras pessoas estavam em outras duas motocicletas, a caminho do Complexo do Alemão. O caso aconteceu por volta das 19h, quando o grupo se deslocava para um jantar de aniversário na casa da mãe do ativista, marcado para às 19h30.

O mototaxista identificado como Tiago foi o único indiciado por “direção perigosa”. Ricardo Fernandes não compreendeu a razão de a alegação dos PMs ter caído somente sob o mototaxista. “Todas as motocicletas estavam iguais e não deu para entender qual foi o critério dos policiais para escolher indiciar a pessoa de pele mais retinta [escura]. Essa postura da Polícia Militar precisa mudar, pois nós tínhamos instrução, mas o mesmo acontece o tempo todo com pessoas que não têm”, sustenta.

Filmagem da ação da polícia

Ao notar a ação truculenta dos policiais contra os dois homens, Raull Santiago iniciou uma transmissão ao vivo em seu Twitter. De acordo com o Código Penal, a filmagem de ações policiais não é crime, mas a gravação foi interrompida por um dos policiais que retirou o celular do ativista.

“Não é comum as pessoas abordadas pela polícia se posicionarem a respeito. Nós sabíamos que os policiais estavam ultrapassando todos os limites e ao perceber o nosso nível de instrução em relação às leis, um deles ficou ainda mais estressado e pediu para o Raull tirar a gente dali. Nós não saímos porque temíamos o que poderia acontecer, já que infelizmente temos no Rio de Janeiro a polícia que mais mata no país e estávamos protegendo o nosso amigo”, relata Ricardo Fernandes.

A co-fundadora e coordenadora de comunicação do coletivo Papo Reto, Lana Souza, lembra que os policiais também debocharam da situação. “Em tom de deboche, os policiais se negaram a falar com a Comissão dos Direitos Humanos e ficaram rindo. Conseguimos expor a situação por meio da articulação online”, recorda.

Ricardo Fernandes, o mototaxista Tiago, Raull Santiago e as demais vítimas foram ao 21º Distrito Policial de Bonsucesso para prestar depoimento, onde permaneceram até o início desta quinta-feira (20).

Eliana Sousa e Luna Arouca, da ONG Redes da Maré, e um defensor público acompanham o caso. A Polícia Militar do Rio de Janeiro ainda não se posicionou sobre o ocorrido.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com