Da direita à esquerda, familiares ponderam que o nome de Marielle tem sido utilizado de maneira inapropriada, sem consulta prévia e sem respeitar os valores da defensora dos direitos humanos

Texto / Pedro Borges
Imagem / Reprodução

As eleições de 2018 foram muito duras para a família de Marielle Franco, assassinada em 14 de março do ano passado. A expectativa de toda a família era vê-la participando do pleito como figura de destaque. Ela chegou, inclusive, a ser cogitada para disputar o cargo de vice-governadora no RJ, senadora ou deputada federal.

“Se ela não tivesse sido assassinada, ela teria sido muito atuante e com mais veemência defenderia os direitos humanos”, diz Antonio Francisco da Silva, aposentado e pai da ex-vereadora.

A dor pela ausência da filha se somou à tristeza em ver o nome de Marielle Franco sendo utilizado a todo momento em propagandas políticas, além do aproveitamento, por parte dos setores progressistas, do fato da ex-vereadora ter se tornado ícone mundial.

“O PSOL, que elegeu algumas deputadas a nível estadual, a nível federal, usou muito o nome da Marielle e ficou, como eu falei, com o bônus. E o ônus ficou conosco”, diz.

A sensação é a mesma de Anielle Franco, professora e irmã. Para ela, a familiar executada teve impacto para o PSOL nas eleições nacionais e também a nível regional, no Rio de Janeiro.

“A Marielle levantou o partido”, disse, de maneira enfática.

Antonio Francisco acredita que em todo país pessoas de diferentes partidos também se elegeram com o nome de Marielle sem fazer política como a filha fazia. “Houve pessoas eleitas que não fazem política como Marielle fazia. A política que a Marielle fazia era de enfrentamento, de ir lá ao local das covardias, das execuções. Ela ia, falava e dava voz àquelas pessoas”, recorda orgulhoso.

O sentimento de utilização inapropriada do nome não se restringe ao partido. Defensores de direitos humanos, inclusive negros, também reproduziram a mesma lógica. “A pior coisa que tem é você ter tomado pernada de gente como você. Se você é negra e vem de baixo, você entende como é o dia a dia da gente”, conta Anielle Franco.

familia franco

Foto: Solon Neto

A família, porém, afirma em tom de voz firme que não deixará ninguém viver em nome da parente querida e recorda que, por carregar nas veias o sangue da ex-vereadora, não deixará de brigar pelo que acredita.

“A gente tem sangue de Marielle, e aí as pessoas não entendem o que é ancestralidade, o que é ter o sangue daquela pessoa que foi ali assassinada. As pessoas falam ‘não, vamos deixar para lá’, até a hora que a gente de fato resolver dar nome aos bois”, explica Anielle.

Para ela, o caso da irmã é ilustrativo para demonstrar qual lado que as pessoas têm tomado. Enquanto algumas aceitam se solidarizar aos familiares, outros preferem o silêncio ou mesmo se aproveitar da imagem de Marielle Franco e depois abandonar a família.

“As pessoas estão escolhendo lados. Eu posso segurar a sua mão ou não, só que tem muita gente que quer ficar em cima do muro. ‘Eu não vou escolher o lado preto da parada, eu não vou escolher o lado homossexual, eu vou ficar aqui parada’. E aí tem um problema com isso. Porque se você se cala, você está sendo conivente com aquilo ali. Se a gente começar a falar e reclamar ou contestar alguma coisa a gente é considerada as pretas raivosas ou os favelados pretos raivosos”, completa a irmã da ex-vereadora.

Essa situação tem gerado dificuldade na família em confiar nas pessoas. Sempre que alguém se aproxima e cita o nome de Marielle, o sinal de alerta é ligado. “A gente hoje experimentou na própria pele a ingratidão das pessoas, o oportunismo das pessoas, a virada das costas das pessoas””, lamenta Anielle.

PSOL

A equipe do Alma Preta entrou em contato com a assessoria de imprensa do PSOL mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.

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