Primeiro conhecido como Fora de Série, o grupo Som Mulheres tem uma longa trajetória no pagode e samba paulista protagonizando o papel da mulher no gênero musical

Texto / Simone Freire | Imagem / Divulgação | Edição / Pedro Borges

Bebendo do samba tradicional, de raiz, do chorinho; o pagode, nascido dos fundos de quintais, dos batuques nas festas de famílias negras, pretas e pobres, foi durante muito tempo negado pelos críticos da tradicional música popular brasileira.

Para quem viveu a juventude nas décadas de 1980 e 1990 nas periferias do Brasil é possível que o samba e o pagode tenham influenciado suas vidas. Onde quer que se estivesse, era muito fácil que o som do carro, o banner na rua ou a tv exibissem grupos de com seus uniformes iguais e sorriso malicioso no rosto, aos passinhos ensaiados e sincronizados.

Mas o “boom” do pagode 90 era um ambiente masculino. Raça Negra, Só pra Contrariar, Grupo Raça, Katinguelê, Soweto, entre tantos outros exemplos, conceituavam um ambiente de homens... de homens que falavam de amor, mas que, muitas vezes, - e muitas vezes mesmo - replicavam os valores machistas da sociedade em que a mulher permanecia em um papel passivo e objetificado.

No meio deste cenário, em 1986, influenciadas pela ideia da avó, mulheres decidiram criar seu próprio grupo de samba: eram as netas da Maria da Penha formando um dos primeiros grupos de pagode composto apenas por mulheres no Brasil, o Fora de Série.

Após a reunião de família que deu vida ao grupo, as músicas trataram de colocar a mão na massa e compraram todos os instrumentos necessários para iniciar a jornada no meio musical: timba, reco reco, agogô, pandeiro, chocalho, repique. A primeira formação do grupo tinha como integrante Cátia Regina, Carla Cristina, Adriana Dupin, Elisangela Souza, Tais Rocha, Solange Campos, Rogerinho Angelo, Serginho Madureira e Claudinha Meireles.

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Do que começou no aprendizado com os tios e festinhas da família, pouco tempo depois o grupo já circulava se apresentando por vários espaços da cidade de São Paulo, entre eles, o bar Só pra Contrariar, onde Lima conta que o grupo começou a se profissionalizar.

“Gravamos nosso primeiro trabalho na coletânea do bar e uma das músicas chamada Teimosia [de Faéti e Edinho marques] despontou na parada de todas as rádios de samba da época. Com essa música fizemos muitos shows por várias cidades de São Paulo e de outros estados também”, conta Adriana Lima, vocalista e uma das fundadoras do grupo.

Primeiro disco

Adriana conta que são várias as inspirações para o trabalho realizado até hoje, entre eles, mulheres importantes como Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Clara Nunes e Beth Carvalho; além de sambistas como Zeca Pagodinho, Bezerra da Silva, Cartola, Nelson Cavaquinho e Nelson Gonçalves; e grupos como Diplomatas do Samba - grupo de seu tio -, Fundo de Quintal, Negritude Junior, Grupo Pérola, Arte Final, Grupo Raça, entre outros.

Em 1993, o Fora de Série grava seu primeiro disco intitulado Saga. Entre vários compositores de peso como Arlindo do Cruz, Carica, Prateado, Luizinho SP, as influências não só do ritmo do pagode, mas do samba de raiz, gafieira e samba baiano são marcantes.

A coletânea não tem um tom politizado, não é um protesto de mulheres sobre a sua realidade ou sobre o samba. É um disco que coloca as netas da dona Maria da Penha no ramo profissional do mercado fazendo o que ela mais amavam fazer: música.

“O que mais animava a gente a cantar e tocar era estar cantando e tocando, o prazer de estar ali e fazer o que a gente gostava, os aplausos, os elogios. Estar perto de artistas e cantores e cantoras que jamais a gente imaginaria estar. Estar na noite, no palco, ter fãs, nos animava muito e anima até hoje”, conta Adriana.

Nas letras do disco - em Saga, por exemplo - elas falam de ter um grande amor, da importância de se ter quem amar, um tema típico do gênero musical da época. Para Adriana, diferentemente de antes em que a sociedade era mais machista, hoje as mulheres não aceitam que o samba as desvalorize nas letras.

“Você pode fazer letras exaltando a mulher, que você não vai perder público. Você não precisa fazer letras que menosprezem as mulheres. Se vem uma letra que é machista a gente tem que mudar isso e cantar de outra forma. Esta desconstrução deste padrão da sociedade está acontecendo, e muito”, opina a vocalista.

Pioneirismo

Embora não falassem direta e abertamente sobre isso, o papel desempenhado pelo grupo tinha uma função muito importante ao passo que eram as primeiras de uma geração. Na época em que o grupo foi formado pensar em uma banda feminina era uma novidade e um desafio. Adriana conta que, por isso, elas não tiveram em quem se espelhar diretamente. Haviam mulheres tocando e fazendo samba, é claro, isso sempre existiu, mas elas não eram muito acessíveis, elas não estavam na TV, por exemplo.

 

“No Brasil, o reconhecimento do talento da mulher, em todas as áreas, é muito difícil. Você muitas vezes precisa viver provando o que você sabe fazer. Ouvi das pessoas ‘Nossa será que ela sabe mesmo?’, ‘Até que ela sabe tocar direitinho’. Mas o prazer de estar no palco e ver as pessoas cantando a sua música não tem preço”, conta.

O apoio da família foi crucial para que seguissem no caminho da música. Os avós, os pais, tios... todos apoiavam e faziam parte da trajetória das meninas. “Enfrentamos obstáculos, mas como era uma novidade, as pessoas tinham curiosidade de ter aquele grupo. Depois a gente foi mostrando o que a gente sabia, que as mulheres tocam e cantam de verdade! Ser um grupo de meninas encantava, mas o nosso jeito de se portar, de estar e mostrar o nosso trabalho, de que estávamos fazendo aquilo que a gente gostava, fez por merecer. Simplesmente, o que muda em relação aos outros é o gênero [ser mulher ou homem], mas fazemos da mesma forma, igual ou melhor”, diz Adriana.

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Mudanças

Pouco tempo depois de lançar o primeiro disco, o nome Fora de Série foi reivindicado por uma gravadora. Foram 12 anos na Justiça para tentar provar a autenticidade do nome, mas o grupo perdeu a disputa. Hoje, o Grupo Fora de Série formado por mulheres não existe mais. Desanimadas, elas decidiram parar as atividades por um tempo, ao passo em que o gênero do pagode como um todo também perdia espaço no mercado.

Pouco tempo depois, entre algumas mudanças na formação, elas retomam o trabalho, agora como Som Mulheres. Hoje, o grupo é formado por Dri Lima, Regina Costa, Eli Souza, Mari Rocha e Ari Alves; o grupo se apresenta por várias casas de show de São Paulo e pelo país. Em julho de 2012, um reconhecimento pelo trabalho também chega por meio de um convite para se apresentar em um festival de samba na Alemanha.

No entanto, os desafios ainda são imensos diante das mudanças no gênero musical, que continua privilegiando formações e compositores masculinos. “Hoje tem muitos grupos de pagode feminino e fico feliz que houve esta continuidade. A mulherada está firme e empoderada. Mas, hoje, o pagode e o samba não têm a valorização como tinha naquela época. O samba, a gente sabe que ‘agoniza, mas não morre’, mas a peneira vai acontecendo, aparece muita gente e vai ficando só alguns. Não há valorização como deveria ter a este gênero genuíno e totalmente brasileiro. Mas estamos na luta e continuamos resistindo. Resistência é nosso lema”, diz Adriana.

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