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Pessoas negras da Amazônia relatam que além de ‘piadinhas’, até os documentos oficiais são rejeitados em outras regiões do país

Texto / Flávia Ribeiro | Edição / Simone Freire | Imagem / Aissa Matos / Paráfrica

Pobreza, fome e violência, essas foram algumas das respostas que a educadora social Ana Carla Oliveira ouviu ao propor uma atividade com alunos, quase todos negros e periféricos. As respostas foram dadas como as primeiras impressões deles sobre a região amazônica do Brasil. Há falta de informação sobre as questões referentes sobre a vivência na região, mas essa impressão é especialmente sensível para pessoas negras que são invizibiliadas mesmo em movimentos progressistas.

“A cada resposta, eu ia conversando com eles e descontruindo cada ideia, que também são muito fomentadas pela grande mídia. É isso o que mostram de nós. Eles achavam que o Norte era o pior lugar para se viver no Brasil”, explica Carla que é paraense e mora em São Paulo há quase três anos.

carla1Ela acredita que por ser negra e da Amazônia, ela passa por situações bem inusitadas que passa desde a fala. “Eu pergunto: ‘tu tens algo’, por exemplo, aí tenho que repetir várias vezes o que quero. É como se não entendessem o “tu”.

Além disso, ela já passou por situações que demostram bem o desconhecimento da região. Uma vez, em um grupo de amigos, havia várias pessoas do Pará falando da culinária e uma conhecida, paulistana, falou que tinha medo das comidas do Pará.

“Ficamos sem entender isso. Dissemos que o ponto de vista dela era um olhar xenofóbico. Outra vez, um amigo estava em casa, ao sair, a esposa dele pediu que ele usasse um sapato. O nosso vizinho ouviu e disse: 'ah, então vocês andam descalços'. Como se calçar o sapato fosse uma mudança no nosso hábito”, reclama.

Até mesmo o uso de documentos oficiais é questionado quando percebem que o órgão emissor é do Norte. “É nítido que todas as vezes que eu precisei usar minha identidade eles não queriam aceitar por pura xenofobia, dizendo que o documento não podia ser aceito, por ter sido feito no Pará e não em São Paulo. Já ouvi de um funcionário que o documento não teria autorização para ser aceito em São Paulo, sendo que a identidade é um documento nacional. Esse funcionário negou o meu pedido e eu tive que encontrar outro cartório para fazer reconhecimento de firma”, desabafa a educadora social.

Além disso, ela ainda teve problemas para receber o seguro desemprego também ao apresentar o RG e foi recomendado que ela fizesse outro para evitar problemas.

Essa é a segunda vez que ela mora em São Paulo, da primeira, em 2012, os maiores problemas eram as “piadas”. “Perguntavam se tinha asfalto ou internet no Pará. Sempre achavam que eu era do Rio, por causa do meu sotaque. Também diziam imaginar que a região só tinha índio, que não havia pessoas negras”, lembra.

Incomodada com o desconhecimento sobre negritude da Amazônia, idealizou o projeto ParÁfrica, em parceria com Aíssa Matos, fotógrafa, que consiste em jessica dandarafotografar e expor pessoas negras paraenses. “A ideia era de mostrar não só a negritude, porque não é só uma questão de visibilidade, é também o quanto somos bonitos”, destaca Ana Carla, que chegou a fazer a exposição uma vez no estado onde está morando.

Para a produtora cultural Jéssica Dandara, de Manaus (AM), esses tipos de comentários são frutos de xenofobia. “A nossa tragédia aparece em massa, mas não mostram a nossa vida. Porque não há um olhar atencioso sobre a nossa vida”, comenta, relatando que essa situação está mais evidente com a pandemia da Covid-19, o novo coronavírus.

O assunto foi tema de debate em suas redes sociais, onde ela pediu que as pessoas da região falassem os comentários que já ouviram. “Um dos mais absurdos foi que perguntaram como que havia índios morrendo por contato com humanos. Como se indígenas não fossem humanos. A gente houve esse tipo de discurso e sabemos que é anterior à pandemia, mas tem um reflexo sobre a desinformação em relação ao nosso contexto”, analisa Jéssica.

Ela fala que isso acontece até mesmo em reuniões do movimento negro. “Uma galera do Sul, Sudeste e uma pequena parte do Nordeste era para estar mais informada sobre as nossas questões, afinal era para ser uma luta coletiva. As pessoas estão desinformadas e também não têm interesse. É um descaso em relação às nossas vidas”, diz.

Reprodução de padrões coloniais

Para a cientista social Tainara Pinheiro, essa relação está próxima de uma reprodução de padrões coloniais. “Colocam as pessoas negras com traços considerados amazônidas para fora da raça porque as pessoas dessa região não são consideradas como parte da nação. Não é um dizer tu não és negra. Mas sim, tu não és negra como eu, então tu não és negra. Isso tem um traço de não identificar a Amazônia como um lugar que existe uma população de fato, para além de um espaço de exploração comercial, inclusive uma população negra. Mulheres negras com menos traços considerados amazônidas muitas vezes ouvem que 'tem cara' de carioca, por exemplo", informa.

Em sua dissertação de mestrado, ela defende que essas disputas são uma questão também de território e poder de nomear. “Demonstra a incapacidade de respeitar as autodefinições. O poder de nomear. Isso acontece historicamente no Brasil. A Amazônia é vista como um território de exploração. Território definido pelo outro que não é amazônida", diz.

"As pessoas reproduzem esse comportamento muitas vezes sem ter noção do que estão fazendo, é naturalizado. Eu acredito que quem se sente muito confortável em questionar a identificação de alguém que está seguro de sua identificação e tem a legitimação de seus pares, deve perguntar a si mesmo o que lhe autoriza essa dúvida, o que lhe deixa tão confortável em não respeitar a autodefinição de alguém cuja identificação é bem resolvida para si e com seus pares. Talvez essa pergunta seja mais importante que a inquietação inicial", ressalta a pesquisadora.

*Imagens internas: arquivo pessoal

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