Na semana em que se celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha‎, oito projetos mostram o potencial de meninas no país*

Embora seja a maioria no país (54%), como mostra o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população negra ainda luta para eliminar desigualdades e discriminações até hoje. No próximo dia 25 de julho, quinta-feira, é celebrado o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A data foi criada em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas e é considerada um marco na luta das mulheres negras em todo o mundo. No Brasil, o dia foi oficialmente reconhecido em 2014, por meio da Lei nº 12.987/2014 e, desde então, o país celebra o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza foi líder do Quilombo de Quariterê, no Mato Grosso, no século 18.

Diante da importância da data, o programa Criativos da Escola apresenta oito projetos transformadores de estudantes do ensino fundamental ou médio que promoveram reflexões sobre a luta que as mulheres negras enfrentam dia a dia em todos os seus ambientes (escola, trabalho e família), sendo impactadas por um preconceito duplo, de gênero e de raça.

Ao perceberem que muitas jovens negras recorriam ao alisamento de seus cabelos para tentar escapar de comentários racistas, três alunas do Ensino Fundamental da Escola Estadual Profª Leila Mara Avelino, em Sumaré (SP), se mobilizaram para dar um basta à situação. Era o início do projeto “Cabelo, autoestima e construção da identidade da menina negra”, um dos 11 premiados da 4ª edição do Desafio Criativos da Escola.

A iniciativa surgiu com a aplicação de uma pesquisa entre colegas, e os dados levantados entre os 317 estudantes do colégio deixaram as meninas estarrecidas: 48% dos alunos afirmaram ter feito piadas sobre o cabelo das colegas, e 30% das alunas declararam ter sido vítima dessas atitudes.

Outro dado que chamou a atenção foi a negação da própria identidade entre os jovens. Apesar de formarem a maior parcela dos estudantes, apenas 18% se declararam pardos e 23% pretos. Paralelamente às pesquisas, as jovens criaram o clube juvenil “Naturalmente Cacheadas”, um espaço de diálogo sobre autoestima, empoderamento e incentivo para que as garotas assumam a beleza natural dos seus cachos.

O projeto fez tanto sucesso que as idealizadoras têm sido convidadas para palestrar em universidades e em seminários nas cidades vizinhas, além de firmarem parcerias com grupos como “Ponto de Cultura e Memória Ibaô” e com a “Pastoral do Negro”. Recentemente, o grupo soube que inspirou uma escola em Campinas (SP) a realizar ações semelhantes. Já a pesquisa, inicialmente um projeto escolar, virou um projeto de iniciação científica, com direito a financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), e foi expandido para outras quatro escolas de Sumaré.

Conheça abaixo outros sete casos protagonizados por crianças e jovens que abordam a valorização da mulher negra na sociedade e que também foram destaque nas premiações do Desafio Criativos da Escola:

Minas na Ciência

Alunas de São Miguel das Matas (BA) criaram um aplicativo, jogo da memória e outros materiais para evidenciar o trabalho de mulheres cientistas (inclusive brasileiras e negras). Agora, ocupam diferentes eventos e espaços na cidade disseminando conhecimento.

Meu cabelo é um ato político

Em Maracanaú (CE), as alunas, cansadas do preconceito racial de seus colegas, criaram o projeto “meu cabelo é um ato político ✊🏾O racismo, infelizmente, ainda é uma realidade no Brasil. Alunas negras de Maracanaú (CE) se reúnem mensalmente e promovem ações contra o racismo dentro e fora da escola.

Lugar de mulher é onde ela quiser

Estudantes do 8º ano do Ensino Fundamental da Escola Municipal Mozart Lago, localizada na zona norte do Rio de Janeiro (RJ), decidiram tomar posição: a escola é, sim, um espaço para educar sobre a violência de gênero! Surgia, assim, o projeto “Lugar de mulher é onde ela quiser”, finalista do Criativos da Escola de 2017, que utiliza a arte para debater e educar a comunidade escolar sobre os direitos das mulheres.

Bonecas Negras, Cadê?

Buscando aumentar a representatividade negra na escola, bem como combater o racismo na infância, um grupo de estudantes da Escola Municipal Flávio Mercês de Oliveira, de Serra Preta (BA), passou a confeccionar e distribuir bonecas de pano negras entre as crianças do colégio.

Danças Ancestrais

Para valorizar cultura quilombola, estudantes de comunidade em Candiba (BA) criam grupo de dança de ritmos africanos. Uma das principais preocupações dos moradores é criar opções para a juventude, que vive longos períodos ociosos, exposta, por exemplo, ao consumo de álcool e drogas. Foi justamente com o objetivo de transformar esse cenário que, no início de 2017, o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) realizou uma reunião na comunidade na qual incentivou a quilombola e então estudante do 2º ano do ensino médio, Carlúcia Alves Ferreira, a reunir jovens em uma apresentação de dança no dia das mães.

Crespinianas

Diante dos preconceitos sofridos por serem negras e terem cabelos crespos, três alunas do 3º ano do ensino médio da Escola Estadual de Educação Profissional Professor José Augusto Torres, de Senador Pompeu (CE), criaram grupo de estudos e rodas de debates sobre os padrões de beleza estabelecidos pela sociedade, a não-aceitação de seus cabelos naturais como belos e o empoderamento jovem.

Solta esse Black

alunas do Rio de Janeiro (RJ) formam um coletivo para empoderar garotas e combater machismo e racismo dentro da escola. Por meio de oficinas de turbante, de penteado afro, do compartilhamento de ideias para cuidar do cabelo crespo e de debates sobre as consequências do machismo e do preconceito racial, as integrantes do projeto “Solta esse black” conseguiram diminuir significativamente os casos de opressão e estão contribuindo com a valorização da identidade negra na escola.

 *Esta matéria foi publicada originalmente no portal Criativos da Escola

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