Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Vinicius de Araújo

Passados 100 anos da oficialização da política do embranquecimento, o Brasil vê um dos principais símbolos da cultura negra ser apropriado e embranquecido: o futebol

Em 1911, aconteceu na cidade de Londres, Inglaterra, o Congresso Internacional das Raças. O encontro tinha o propósito de buscar soluções para os países com problemas étnico/raciais. João Batista de Lacerda foi o representante brasileiro e apresentou o projeto do Estado para resolver a questão. A intenção do governo chefiado pelo então presidente Hermes da Fonseca era a de exterminar a presença física e cultural do negro em cem anos.

O anúncio apenas confirma o racismo estrutural deste país. Para dizimar a população negra e cultuar a branquitude, esforços não foram poupados. Tudo o que esteve ao alcance do Estado foi feito para concretizar o sonho nacional: eliminar o histórico africano do Brasil.

Exemplos disso são inúmeros. Durante a escravidão, cerca de 4 milhões de africanos escravizados vieram para cá. Ao invés de incluir a população negra no mercado de trabalho da sociedade pós escravocrata, preferiu-se por trazer aproximadamente 4 milhões de imigrantes europeus para embranquecer o país. O Mapa da Violência é outro indicativo de como essa política ainda é vigente. De 2002 a 2012, o número de jovens brancos assassinados caiu de 36,7% para 22,8%, enquanto o de negros subiu de 63% para 76,9%.

Essas foram as principais políticas adotadas pelo Estado brasileiro para embranquecer o país, a miscigenação e o extermínio de pardos e pretos. O genocídio da população negra ainda é sistemático e, inclusive, protagonizado pelo Estado, na medida em que muitos dos jovens são assassinados pelo seu braço armado, a polícia. O incentivo à miscigenação deixou de ser uma política oficial, mas ainda é muito presente no cotidiano. A pesquisa “Cor nos Censos Brasileiros” de Edith Piza e Fúlvia Rosemberg mostra como o ideal da branquitude ainda é muito vivo. As pessoas evitam se identificar enquanto negras. O estudo documentou inúmeras definições para os tons de pele da população, todos muito presentes no cotidiano nacional, como “café com leite” e “toddynho”. A partir disso, é intrigante observar como muitos preferem recorrer a definições esdrúxulas a se auto afirmarem enquanto negros, ou pretos.

Passados pouco mais de 100 anos do Congresso Internacional das Raças, os negros ainda sobrevivem. Se o Brasil não conseguiu eliminar por completo a população negra, o Estado teve sucesso inquestionável com a estratégia de atacar a identidade e a cultura afro-brasileira.

Por isso, João Batista de Lacerda, como um bom racista, estaria muito feliz com os resultados do seu projeto. O que Lacerda talvez não imaginasse seria o sucesso no embranquecimento do futebol, um dos maiores símbolos da comunidade negra brasileira, senão for o maior.

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O trecho da versão de “Umbabarauma” gravada por Jorge Ben com a participação especial de Mano Brown evidencia a importância do futebol para o negro brasileiro. Sem referências na política, educação, ou economia, muitos se apegaram ao esporte e mais precisamente ao futebol para prosperar. Dagoberto Fonseca, professor de antropologia da Unesp de Araraquara, apresenta como “o futebol é de suma importância não enquanto o futebol somente, mas enquanto esporte. O esporte é de fundamental importância para a população negra se reconhecer e enquanto possibilidade de ascensão social. E o futebol não é diferente. Se a gente estabelece que o futebol é arte, e essa arte é de origem africana e é tão importante no processo ascensional do negro no Brasil e nos EUA, damos conta da importância do esporte para essa população.”.

Dagoberto acredita que a política de embranquecimento alterou ao longo da história a relação entre a população negra e o futebol. Ele apresenta como essa estratégia ganhou corpo depois da Copa de 1970. “Você vai verificar uma presença marcante de uma população negra decisiva para aquela Copa, como o próprio Pelé, o próprio Jairzinho, mas você tem ali Paulo César Caju e outros tão importantes quanto. Na Copa de 74, você tem um esvaziamento. E isso seguiu. E você vai ter a presença negra apenas na Copa dos EUA, com destaque para Romário. Então você pode verificar que a Era Sócrates e Zico não vingou enquanto título. Você precisou de uma população negra marcante e decisiva para você fazer isso. Você vai verificar que na Copa do Japão e da Coréia do Sul, você vai ter um Rivaldo, um Roberto Carlos, um Cafú, e um Ronaldo fenômeno que muito embora não se achava negro, não tem como não dizer isso.”

Juarez Xavier, professor de jornalismo da Unesp Bauru e Coordenador do Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão, NUPE, ainda salienta a obsessão da mídia esportiva brasileira de construir um Pelé branco. Os exemplos para ele são diversos, desde Falcão e Zico, até Paulo Henrique Ganso. A vontade midiática nada mais exprime o desejo de destruição da imagem do negro em detrimento do culto ao branco por meio da desconstrução de símbolos negros. O professor da Unesp afirma que o ápice desse projeto de embranquecimento do futebol nacional se deu com a seleção da Copa de 1990. Sebastião Lazaroni “convocou uma das seleções mais branca que o país já teve. Com o apoio de parte da imprensa, inclusive com comentários racistas na televisão. O fracasso daquele time naufragou o projeto, por enquanto!”.

Dentro dessa lógica, o país não só tenta embranquecer um dos maiores ícones da identidade brasileira, a seleção de futebol, como rejeita até hoje o nosso modo de jogar. Carlos Thiengo, Doutor em Educação Física pela Unicamp e Coordenador Pedagógico da Ginga Escola de Futebol, recorda que, ao ver Gana x Alemanha em um campeonato de base, ficaram nítidas as diferenças entre os jogadores das duas seleções. Se o alemão preferia o passe, o ganês optava por carregar a bola. E é dessa matriz africana e é com essas características que surgiram os nossos maiores talentos: Pelé, Garrincha, Ronaldinho Gaúcho, entre outros.

Curioso, porém, é o desprezo que parte do país tem acerca do único futebol pentacampeão. Carlos Thiengo mostra como seleções e times de destaque mundial vieram ao Brasil para entender o modo como jogamos. Uma dessas equipes é a Holanda de 1974, que ficou conhecida como o Carrossel Holandês de Cruyff e o Ajax, time holandês que dominou a Europa da época.

O Brasil, porém, seguiu a cartilha do embranquecimento e incorporou o futebol europeu sem nenhuma crítica ou adaptação. Carlos Thiengo recorda como passamos a privilegiar nas categorias de base, por exemplo, garotos fortes e altos, enquanto o Barcelona e diversos clubes europeus extinguiram há anos a exigência de determinada altura para os jogadores em formação.

Mais do que rejeitar a negritude enquanto símbolo a ser seguido e mais do que negar o tradicional jeito brasileiro de jogar, os clubes têm excluído a população negra dos estádios com a construção das arenas. Os pretos, de fora, não podem mais ver de perto seus ídolos, talvez suas únicas referências nacionais para ainda afirmarem a sua identidade. Dagoberto constata como “dentro desse contexto, você vai encontrar justamente em todos os estádios brasileiros, uma presença de praticamente 90% de população branca e um pequeno resíduo de população negra, ou de outras origens étnico/raciais”. Ele ainda ressalta como durante a Copa do Mundo parte significativa dos negros presentes nos estádios eram de outros continentes, sejam africanos ou até mesmo norte-americanos, e não afrobrasileiros.

Dagoberto ressalta também como as bases do nosso futebol se alteraram. Se antes crianças aprendiam a jogar nas ruas, nos campos de várzea e viam o futebol como uma brincadeira, hoje os jovens são encarados como atletas e, por isso, precisam se aperfeiçoar, praticar e repetir os fundamentos do esporte. “Dos anos 90 para cá, o que você tem são as escolinhas de futebol. E as escolinhas são financiadas por clubes e por empresários ligados ao ramo. E você tem um processo pelo qual a gente possa entender o esvaziamento do futebol brasileiro, de uma presença negra que não vê mais os campos de várzea e que não vê mais os campinhos de rua, porque as ruas no Brasil, uma grande maioria delas nas cidades de grande e médio porte, estão asfaltadas.”.

Para Juarez, porém, é possível inverter o quadro, desde que se valorize as raízes negras da cultura nacional e desde que os jogadores assumam a sua origem africana e denunciem o preconceito, como fazem os astros da NBA.

Juarez Xavier mostra como o “Neymar –a exemplo de outros jogadores da mesma geração, e isso ocorre há bastante tempo- é ignorante e alienado, sobre questões ligadas ao futebol e fora dele. Isso fica evidente na relação dos jogadores brasileiros com os estrangeiros. Na questão da luta contra o racismo no futebol, os africanos –Samuel Eto’o- e os europeus –Lilian Thuram- estão a anos luz dos brasileiros, que não se posicionam [nem no caso do Roberto Carlos e depois do Daniel Alves] e não se pronunciam. Quando fazem é um desastre, como no caso do Ronaldo que se achava branco.”.

Enquanto isso não acontece, os ingressos dos jogos ficam cada vez mais caros, há cada vez mais atletas que jogam de acordo com os padrões europeus, assim como há um crescente esvaziamento do futebol para a população negra. Veremos também cada vez menos o futebol como uma festa popular e cada vez menos jogadores geniais ao nosso excepcional estilo.

Resumo da história? João Batista de Lacerda 7 x 1 Garrincha.

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