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Texto: Thamyra de Araújo / Edição de imagem: Vinicius de Araújo

Esses dias eu vi numa parede a frase "que feminismo é esse que quem lava a sua calcinha é uma mulher negra, sua empregada, em vez de você". Fiquei imaginando a situação (...) uma mulher branca de classe média indo trabalhar pensando em suas conquistas.

Ela ocupa um cargo de chefia em seu trabalho com vendas, uma conquista que lhe custou coragem, força e trabalho dobrado para mostrar para os colegas que era possível uma mulher, mãe e casada ocupar sim um cargo de chefia. Ela liga o carro em direção ao trabalho e pensa como é bom ser independente, não precisar do dinheiro do seu parceiro para viver, poder dividir tarefas, ter voz ativa na rua e em casa. Sorrir quando lembrar que por causa de lutas anteriores a dela, as mulheres conquistaram o direito de trabalhar e sua profissão hoje não é apenas a "do lar”.

Enquanto Kátia vai ao trabalho, sua casa fica aos cuidados de Maria, sua empregada doméstica, negra que trabalha de segunda a sábado, das 8h às 18hs. Além de Maria, Joana também trabalha para Kátia em meio período como babá de seu filho. Joana, assim como Maria, é negra e ambas sonham em alcançar a independência.

No Brasil, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2001), as taxas de desemprego são mais elevadas entre as mulheres negras. Senão bastasse, elas estão representadas nas formas mais precárias de emprego (com destaque para o serviço doméstico e para o trabalho familiar não-remunerado). 4% das trabalhadoras negras estão concentradas nas ocupações mais precárias e desprotegidas do mercado de trabalho, 18% são trabalhadoras familiares sem remuneração e 23% são trabalhadoras domésticas. Para as mulheres brancas, essas porcentagens são, respectivamente, 13,5% e 14%.

Análise da pesquisa da Fundação SEADE e DIEESE, feita pela Articulação das Mulheres Negras Brasileiras, revela que duas mulheres negras valem pouco mais do que uma mulher não-negra, quando se comparam seus salários. Em funções para as quais são exigidos determinados atributos estéticos, como vendedora, recepcionista e secretária, as brancas e amarelas estão de quatro a cinco vezes mais representadas do que as negras . Por trás das exigências de “boa aparência”, frequentemente existe uma resistência a aceitar trabalhadoras negras para esse tipo de função. Isso porque a estética negra e seu cabelo 'duro' estão associados ao feio e ao inconveniente.

As mulheres negras são vítimas de dupla discriminação - de gênero e de raça. São elas que morrem nas clínicas de aborto clandestinas e nas tentativas inseguras de aborto. É o corpo da mulher negra que é "satanizado", sexualizado e vendido como turismo sexual no Brasil e fora dele. Por outro lado, é a estética da mulher negra: boca grande, olhos grandes, quadris largos e cabelo crespo, que é oprimida diariamente pelas propagandas e outras produções audiovisuais que elegeram como padrão de beleza o corpo branco, magro e o cabelo liso.

Outro feminismo

O recorte de gênero não é suficiente para superar todas as violações de direitos contra a mulher do século XXI. "Mulheres precisam lutar juntas contra o machismo" (SIM!), mas que mulheres são essas? O que enfrentam no cotidiano? As mulheres negras além do machismo, sofrem com o racismo diário: racismo do homem branco, do homem preto e da mulher branca (que loucura!). Não podemos ignorar o recorte racial, já que existe uma diferença entre a correlação de forças da mulher branca e da mulher negra. Não se trata de lutar por revanche ou por uma subjugação de alguma das partes, se trata de entender que mesmo na condição de mulher, somos diferentes, com experiências diferentes, trajetórias diferentes e com demandas diferentes.

Outro feminismo, ou seja, uma nova forma de se pensar o feminismo só será possível quando, além de perceberem a diferença que existe entre elas, se tornarem sensíveis às demanda uma das outras. Isto é, o feminismo para não ser taxado de "feminismo branco", precisa incorporar as reivindicações das mulheres pretas na luta contra o machismo e contra o racismo. Sendo assim, as bandeiras "diga não ao machismo" e "diga não ao racismo" precisam andar juntas. Afinal o que importa é a luta, e ela é diária para todas!

Ai que enegrecer o feminismo!!!

Texto: Dagoberto Fonseca / Ilustração: Vinicius de Araújo

Ao longo de nossa história recente, diversos movimentos sociais construíram diferentes bandeiras de luta como parte do fortalecimento de suas ações. O movimento negro não fugiu deste processo ao constituir para si o lema dinâmico da “Consciência Negra”. O tema trouxe para o cenário cultural e político brasileiro a questão da identidade, não enquanto um processo estático, imutável e essencialista, mas como uma identidade que está em constante dinamismo social, sobretudo porque considerou que a identidade tem que ser processada no cotidiano, na relação entre os iguais e os diferentes.

A “Consciência Negra”, desta maneira, não é um meio de introspecção, de preenchimento do eu, do ensimesmamento de um sujeito sociocultural e histórico, pautado pela psicologia ou psicanálise, mas sim o contrário, pois advoga o encontro consigo e com o outro. A “Consciência Negra” necessita se enraizar cada vez mais de modo dinâmico e voltado para fora com o intuito de provocar mudanças no quadro social. Ou seja, a sua base é a constituição de uma nova maneira de ver, perceber, sentir e se posicionar no mundo. Esta consciência exige mobilidade e arregimentação para fazer da identidade a diferença, ou seja, não objetiva a construção da mera contradição ou contraste, mas sim do novo.

Prof. Dr. Dagoberto José Fonseca, docente da Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Araraquara, UNESP. Coordenador do Centro de Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (CLADIN) e do Laboratório de Estudos Africanos, Afro-Brasileiros e da Diversidade (LEAD), Supervisor do Núcleo Negro da UNESP para Pesquisa e Extensão (NUPE) da mesma faculdade.

Texto: Danilo Lima / Ilustração: Vinicius de Araújo

"O sistema tem que chorar,

 

 mas não com você matando na rua. 

 

O sistema tem que chorar vendo a sua formatura".

 

 (Apologia ao Crime - Facção Central, 2001).


O acesso à universidade ainda é privilégio de poucos, nós os negros/as universitários/as continuamos sendo exceção à regra e, portanto, é preciso entender que a formatura é uma conquista extremamente importante, mas que ainda é pouco.

Nos E.U.A., estudantes negros tiveram que entrar em greve de fome contra o racismo, após encontrarem pichações racistas e nazistas feitas com fezes nos banheiros da tradicional Universidade de Missouri – Colúmbia. Uma ação corajosa de enfrentamento por parte daqueles que não aguentam mais conviver com estas violências diariamente.

Missouri Protests on racial Isuues Estudantes da Universidade de Missouri em protesto

Mas antes mesmo que possa surgir por parte de alguns, um suspiro aliviado por não termos esse tipo de situação em nosso país, cabe destacar que manifestações racistas e neonazistas, também são recorrentes em nossas universidades, sejam elas públicas ou particulares.

As denuncias de racismo têm se multiplicado ao longo de 2015. Já tivemos casos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Presbiteriana Mackenzie, Universidade Estadual Paulista (UNESP) e, mais recentemente, na Universidade Federal do ABC (UFABC), leia mais (aqui e aqui). Deste modo, verificamos que essas atitudes não são de exclusividade do racismo que vigora nos E.U.A, nem tampouco que estudantes negros e negras brasileiros/as deixam de se organizar e resistir aos efeitos nocivos do racismo.

Recentemente no Espírito Santo (um dos Estados que mais mata jovens no país), um professor da importante Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) foi demitido após ter sido denunciado por alunos de ter cometido crime de racismo durante uma aula. Trata-se de um dos raros casos que apresenta punição efetiva para a prática de racismo no Brasil. Importante destacar que os estudantes do Coletivo Negro Negrada tiveram papel fundamental em mais essa ação contra o racismo.

Mas a questão é: por que incomodamos tanto mesmo sendo tão poucos os que conseguem superar as dificuldades e ocupar lugares que não as favelas, os cortiços e as penitenciárias? Preto e poder são palavras rivais? Definitivamente NÃO.

Não podemos nos contentar com respostas preconceituosas e simplistas para o problema do racismo. O que ocorre é que a violência racial, que nos atinge até hoje, é estrutural, dissimulada e perversa.

A violência racial se concretiza em certa medida na ação do Estado, ou ainda pela falta de ação do mesmo, caracterizando a sua forma estrutural. Quando a policia militar realiza intervenções violentas e letais pelos guetos e favelas, quando populações quilombolas não têm suas terras reconhecidas, quando se compõe ministérios sem o compromisso de garantia proporcional de representatividade negra, temos o Estado usando deliberadamente sua estrutura contra nós.

Outro ponto é que nem sempre podemos responder à altura essas ações discriminatórias cotidianas. Mesmo que sendo atingidos diariamente, os ataques dados pelo racismo estrutural podem não ser explícitos.

Há aqueles racistas mais vigilantes, que não professam o que pensam, ou ousam escrever palavras racistas na porta dos banheiros, pois identificam os riscos legais dessas atitudes, mas dissimulam suas praticas racistas no ato de tomada de decisão: quando o/a empregador/a decide não contratar negros e negras ou quando justifica a nossa não promoção de cargo com argumentos ancorados em uma suposta “necessidade de perfil adequado de boa aparência”. Há também outras formas de racismo velado no cotidiano, quando crianças negras em idade escolar não se sentem bem nas salas de aula e tem seu desempenho de aprendizagem prejudicado, ou quando o garoto acorrentado ao poste e linchado é sempre o negro.

Afinal, o Brasil é um país onde há racismo, mas ninguém se assume racista, não é mesmo? Como diria o professor Kabengele Munanga, “Nosso racismo é um crime perfeito”.
Entretanto, o efeito mais perverso do racismo não encontra seu fim nas falhas/conivências do Estado ou nas práticas racistas implícitas ou explicitas dos outros contra nós. Ao invés disso, é justamente no íntimo, em nossa subjetividade, que gradativamente vamos construindo uma noção de inferioridade, de que estamos fora do padrão e, portanto, somos nós os desajustados, passando então a conviver com uma busca eterna por aceitação.

Uma inferioridade afirmada de varias formas: com livros didáticos que insistem em nos retratar tão somente como escravizados e com determinados programas de TV que criam e reforçam estereótipos negativos sobre negros. Ou ainda pela escolha das agências de publicidade ao estamparem pelos outdoors das cidades somente aqueles de pele branca. Há também a infestação de autores brancos e europeus com os quais somos obrigados a ter contato nas universidades brasileiras.

(...) “Há alguns anos, conhecemos um negro, estudante de medicina. Ele tinha a impressão infernal de não ser estimado segundo o seu valor, não do ponto de vista universitário, e sim, dizia ele, humanamente. Tinha a impressão infernal que jamais conseguiria ser reconhecido como um colega pelos brancos, e como doutor pelos pacientes europeus.” (Fanon, 2008).


Assim, mais do que o entendimento dessa violência que atinge a população negra de modo estrutural, dissimulado e perverso, precisamos entender sobretudo o que significa ocupar o espaço acadêmico para um preto. Ou seja, nós jovens negros e negras não podemos ignorar o potencial de transformação da realidade social que a universidade nos oferece, por mais que neste espaço nossa subjetividade possa ser atacada.

Não se pode desconsiderar que a universidade é o um espaço da produção de conhecimento especializado que oferece oportunidade de pesquisa em grandes temas, mas que também se constituiu historicamente, até um período muito recente de nossa história, como lugar por excelência de reprodução dos ideais das elites econômicas e políticas nesta sociedade.

“E naturalmente, do mesmo modo que um judeu que gasta dinheiro sem contá-lo é suspeito, o negro que cita Montesquieu deve ser vigiado. Que nos compreendam: vigiado, na medida em que com ele começa algo.” (Fanon, 2008).


Fanon explica. Um negro passar pela universidade implica sim processos dolorosos e de conflito, mas que também é um caminho estratégico, uma etapa importantíssima para o inicio de novas transformações sociais.

Com a finalidade de vencer o sistema racista que tenta nos destruir todos os dias: a universidade deve ser o espaço de formação, informação e também de ação politica organizada. Não podemos abrir mão de ocupar as vagas que CONQUISTAMOS! Sigamos lutando, nos formando, fazendo a diferença, pois nossos passos vem de longe e a luta está no fim!

 

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